06 abril 2006

A sabedoria do equilíbrio e os andaimes

Por Aristarco Coelho

Da varanda de meu apartamento é possível ver um grande edifício em construção. Nos últimos meses, mesmo sem querer, tenho acompanhado a evolução da obra. Hoje pela manhã, enquanto aguardava a hora para tomar meu café da manha, parei novamente para observar as atividades dos trabalhadores.


A fase é de acabamento. Na fachada externa do prédio, dois andaimes (dois operários em cada um deles) descem lentamente enquanto os homens fazem a limpeza do revestimento que havia sido colocado na semana anterior. Acho que eles estão lá pelo 15° andar, ou talvez no 16°.

Os andaimes são manuais. Construídos na própria obra, eles são suficientes para cinco ou seis pessoas. São sustentados através de quatro cabos, presos em barras de sustentação no topo de prédio, e em alavancas fixadas no próprio andaime. Os operários tinhas seus cintos de segurança conectados a outro cabo, que por sua vez tinha ligação direta com a barra de sustentação.

A seqüência é a seguinte. Primeiro, no topo do prédio, o andaime é amarrado aos cabos, e esses fixados às barras de sustentação. Em seguida, o equipamento é suspenso na lateral do prédio e nivelado para que os operários entrem. A partir daí, começa um procedimento que chamou minha atenção.

Depois de fazer a limpeza de todo o revestimento que está ao alcance daquela posição do andaime, é preciso descer para outra posição. Então, os operários fazem algo que para mim, (eu não conseguiria ficar dois minutos naquela situação), parecer um absurdo. Eles começam a desequilibrar o andaime, baixando uma das extremidades.

Parece uma insanidade. Você já está naquela altura, seguro apenas por cabos, e aí, baixa uma das extremidades do andaime inclinando o piso debaixo dos próprios pés, aumentando ainda mais a sensação de insegurança. Depois desse desequilíbrio provocado, cada uma das três alavancas restantes tem suas catracas giradas, uma por uma, até que o andaime volte a uma posição nivelada. Então, eles começam a limpar a nova faixa de revestimento que está ao alcance das mãos.

O pavor com o desequilíbrio do andaime lembrou-me que na vida passamos por situações muito semelhantes. Às vezes, nós mesmos, com nossa imprudência e falta de responsabilidade, sacudimos a vida até que uma das engrenagens de sustentação afrouxa e desequilibra o andaime; outras vezes, somos realmente surpreendidos por situações que não estão sob nosso controle.

De repente, o chão debaixo dos pés se inclina e a sensação de insegurança toma conta da alma. Notícias de corte na empresa, de amizades estranhas do filho, da morte abrupta de um parente querido; de que o imóvel comprado, e pago, não verdade não lhe pertence; de que o bebê, tão esperado, têm limitações especiais, da empresa à beira da falência, da filha violentada na própria casa ou do filho assaltado na rua fazem-nos perguntar: quem foi que entortou o andaime da minha vida? O que eu faço agora?

A primeira coisa a ser lembrada é que você é mais importante que o andaime. Assim como os operários que trabalham em andaimes não se amarram a eles, mas têm um sistema de segurança que lhes mantém suspensos mesmo quando o andaime cai, nós que fomos criados para a eternidade não podemos nos agarrar ao que é transitório; ao que, segundo Tiago, parece um pouco de fumaça. Em construções, andaimes caem e se despedaçam no chão; em um mundo dominado pelo pecado, vidas também podem ser despedaçadas.

A Bíblia oferece um sistema de segurança que nos protege mesmo quando o andaime cai: o amor de Deus. Jesus disse: as minhas ovelhas ouvem a minha voz, eu as conheço e ninguém as arrebatará de minhas mãos. Disse também: no mundo tereis aflições, mas tenham bom ânimo: eu venci o mundo. Ele afirmou: não se perturbe o vosso coração, crede em Deus, crede também em mim, na casa de meu Pai há muitas moradas.

Quando o andaime cai, você não precisa cair junto. Basta estar amparado pelo sistema de segurança de Deus, e largar o andaime.

A segunda coisa a ser lembrada é que às vezes o andaime entorta para que alcancemos outro estágio da vida. Os operários faziam isso para alcançar uma parte do revestimento que de outra maneira não poderia ser limpo. Às vezes é exatamente assim: Deus permite que a vida fique um pouco torta porque só assim vai ser possível alcançar algumas áreas que de outra maneira não seriam tratadas. Não se assuste. Ele está no controle. Confie nisso!

A Bíblia está cheia de pessoas que tiveram seus andaimes sacudidos e inclinados até o limite para tivessem a oportunidade de olhar para si mesmos, reconhecer suas limitações e confiar exclusivamente no cuidado de Deus.

A terceira coisa que devemos lembrar é que não precisamos ficar passivos e inertes quando o andaime se inclina. Deus tem dado inteligência e sabedoria a muitas pessoas para aprender a ajustar o andaime às novas realidades que se impõem a nós. Os operários, pacientemente, ajustavam as engrenagens de sustentação até que o andaime voltava ao equilíbrio.

Nós também precisamos fazer ajustes. Às vezes o trabalho consome tanta dedicação, tanto empenho, que não sobra para a família; outras vezes a falta de controle nas finanças leva a todos à bancarrota; por vezes também, falsos conceitos sobre amor, felicidade, realização, compromisso e outros valores importantes causam turbulências que poderiam ser evitadas; além disso, há situações em que o desequilíbrio emocional no trato com os problemas da vida transforma um desnível de cinco centímetros em um declive de cinco metros: tempestade em copo d’água.

Pendurados a sessenta metros de altura, os operários não têm pressa nos ajustes do andaime. Nós também não devemos agir com açodamento ou desespero, mas persistentemente continuar a fazer todos os ajustes necessários para recuperar o equilíbrio.

Os andaimes construídos na própria obra são únicos, mas seguem os mesmos conceitos de engenharia; as vidas são diferentes, mas os princípios que conduzem ao equilíbrio continuam à disposição de todos que se submetem a Deus. É por aí que começa a sabedoria do equilíbrio.

Peço a Deus humildade para aprender com outros sobre a arte da vida equilibrada; tanto aqueles que no passado buscaram sabedoria em Deus e tiveram suas histórias registradas no Livro Sagrado, quanto aqueles que em nossos dias tentam aplicar essa sabedoria em suas vidas.
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