09 maio 2025

Caifás: o medo de perder o controle

 




Caifás

A história da crucificação de Jesus não pode ser compreendida sem um olhar atento para os bastidores do poder religioso e político de sua época. A cruz foi instrumento da violência romana — mas também o desfecho de uma negociação sombria entre religião e conveniência. Se Pedro representa o discípulo que tropeça e volta, e Maria de Betânia, a adoradora que se entrega, Caifás representa o sistema com medo perder o controle — e disposto a sacrificar a verdade para manter seus privilégios.

Um dos personagens mais desconfortáveis dos relatos da Paixão de Cristo, ele não foi um traidor impulsivo como Judas, nem um discípulo arrependido como Pedro. Estamos falando de um sacerdote. Um líder religioso. Um homem que conhecia as Escrituras e ocupava o lugar mais sagrado do sistema judaico. Ainda assim, foi ele quem arquitetou a condenação do Messias. Mas o mais perturbador sobre nosso personagem é que ele não está tão longe de nós quanto gostaríamos de imaginar.

O Sumo Sacerdote não negou Jesus por ignorância, mas calculadamente. Ele não se afastou do Filho de Deus por medo, mas por conveniência. Sua história representa o tipo mais perigoso de negação: 
aquela que é fria, estratégica, revestida de religiosidade e desconectada da graça. E esse tipo de fé ainda resiste à cruz nos ambientes religiosos em nossos dias.

Ainda que para alguns ela pareça um nome entre outros nos Evangelhos, Caifás é o símbolo destacado de uma espiritualidade capturada, institucionalizada, interessada mais na manutenção da ordem do que na revelação da verdade. Ele encarna aquilo que acontece quando o culto é tomado pela política, o templo se rende aos cálculos e o sadio zelo religioso é vencido pelo medo da perder poder.

Sua trajetória expõe uma das tensões mais dramáticas da fé cristã: o que acontece quando a religião, em vez de conduzir a Cristo, se transforma num escudo contra a cruz? O sumo sacerdote que articulou a morte de Jesus não era um estranho ao culto, ao templo ou à Lei — ele era o guardião do sagrado institucionalizado. Mas foi esse zelo deformado que o tornou incapaz de reconhecer o Messias que ali estava. A cruz era inaceitável não porque fosse incompreensível, mas porque ameaçava o sistema que o sustentava.




27 abril 2025

 


Pedro

Pedro era intenso. Ele era daqueles que falam o que sentem, que prometem sem pensar duas vezes, que lideram com o coração. Sua história é marcada por uma série de contrastes que soam bem familiares: promessas feitas com fervor… seguidas por ações que fraquejam; intenções verdadeiras… travadas por impulsos humanos; amor sincero… ofuscado pelo medo e pela vergonha.

E caiu feio, mas não porque era fraco. A questão é que ele se achava forte demais. E sim, ele traiu Jesus, negando que o conhecesse, mas não era porque o amor dele por Jesus fosse uma farsa — ele confiava demais em si mesmo, na própria lealdade, no próprio desempenho. E isso nos ensina algo poderoso: quando nossa autoconfiança não passa pela cruz, ela vira armadilha e nos faz vestir máscaras, assumir poses que não conseguimos sustentar, e construir uma fé apoiada em areia movediça.

A gente vive pressionado a parecer forte, eficiente, resolvido, brilhante. Mas Jesus não está pedindo nada disso. A cruz aponta outro caminho — o da vulnerabilidade que se rende, da fraqueza que se entrega, da coragem de dizer: 
“Senhor, eu preciso da Tua graça. Sem Ti, eu caio.”

Quando a coragem é insuficiente

Pedro sempre se destacou entre os discípulos como aquele que tomava a dianteira. Era ousado, decidido, corajoso. Ao ouvir que Jesus iria para um lugar onde eles não poderiam segui-lo imediatamente, Pedro prontamente respondeu: “Darei a minha vida por ti!” (João 13:37). Suas palavras revelavam um coração comprometido, mas também uma confiança excessiva em sua própria disposição e força moral.

Richard Bauckham, ao analisar essa cena no capítulo 3 de Ao Pé da Cruz, destaca que Pedro, como muitos discípulos de Jesus, ainda não percebera que os passos do Mestre em direção ao seu Reino não se dariam por bravura ou pela força da lealdade emocional, mas pela entrega à cruz — algo que desconcertava até os mais próximos. Pedro, ainda preso a concepções heroicas de fidelidade, não estava preparado para enfrentar o escândalo da cruz.

Aliás, o evangelho de João mostra que, mesmo antes da negação, Pedro já revelava sua incompreensão sobre o que significava realmente seguir Jesus. No Getsêmani, quando os soldados vieram prender o Mestre (João 18:10), ele saca uma espada e fere Malco, o servo do sumo sacerdote, numa tentativa desesperada de defender Jesus, no braço mesmo. Pedro queria proteger o Salvador com sua espada, quando o  caminho do próprio Jesus era o da rendição ao plano de Deus. A fidelidade que ele imaginava oferecer a Cristo não estava enraizada na cruz, mas no heroísmo impulsivo.

Em nossos dias, essa mesma atitude se repete em outras situações. Valorizamos o desempenho, a autoconfiança e a capacidade de vencer pelos próprios méritos. É um modelo de sucesso que exige força e resiliência. E, muitas vezes, esse padrão é importado para a vida cristã. Acabamos construindo uma fé medida pelo desempenho, onde depender de Deus não é algo popular e a coragem é confundida com espiritualidade. A questão é que, como aconteceu com Pedro, esse tipo de coragem não tem fundamentos sólidos e logo desmorona quando a pressão aumenta.






 

Maria de Betânia

Entre tantos rostos que se aproximaram de Jesus nos dias que antecederam a cruz, há um que se destaca não pelos discursos, nem pelos feitos extraordinários — mas por sua adoração silenciosa e profunda. Maria de Betânia não pregou em praças, não fez milagres, nem enfrentou os religiosos do seu tempo. Mas ela esteve onde poucos tiveram coragem de estar: aos pés do Salvador.

Este volume da série 
À Sombra da Cruz é um convite para caminhar com Maria em três momentos marcantes de sua história — quando ela ouve, quando ela chora e quando ela se entrega. Em cada cena, somos levados a refletir sobre questões fundamentais da fé:

O que temos colocado no centro da nossa vida?
Estamos dispostos a derramar o que temos de mais precioso por amor a Jesus?
Continuaremos fiéis quando a cruz se aproximar?

O Valor da Presença de Cristo

A crucificação de Jesus não foi só um evento distante no tempo — foi um momento que tocou profundamente cada pessoa envolvida. Todos os que estiveram ali, de algum modo, tiveram suas vidas marcadas. Pedro sentiu o peso da culpa por ter negado seu Mestre. Pilatos e Caifás revelaram como o medo e o orgulho podem cegar a justiça. Barrabás foi o símbolo da graça que substitui o culpado pelo inocente. Simão Cirineu foi surpreendido com a missão de carregar uma cruz que não era sua. Nicodemos enfrentou o conflito interno entre sua religiosidade e a fé verdadeira.

Mas, antes que a cruz fosse levantada, há uma cena que merece atenção: a de Maria de Betânia. Ela não estava envolvida em debates teológicos ou em posições de liderança. Ela simplesmente se derramava. Maria nos mostra que a verdadeira adoração é aquela que nos leva aos pés da cruz.

Maria de Betânia não era conhecida por grandes discursos ou feitos públicos. O que a tornava especial era sua postura de entrega, sua disposição de estar aos pés de Jesus. Enquanto muitos estavam ocupados com seus interesses, dúvidas ou status, ela escolhia o lugar mais simples e mais profundo: a presença de Cristo. O exemplo dela nos provoca: o que temos colocado como prioridade na nossa vida?

Vivemos dias acelerados. São compromissos, tarefas, metas. Corremos de um lado para o outro tentando dar conta de tudo — trabalho, família, ministério, vida pessoal. E até nosso tempo com Deus, muitas vezes, entra nessa lógica de “obrigação”. Mas Maria nos ensina algo diferente: mais do que fazer coisas para Deus, Ele deseja que a gente simplesmente esteja com Ele.

Se Jesus estivesse aqui, hoje, de forma visível... onde Ele nos encontraria? Como Marta, estressados e ocupados demais para parar? Como os fariseus, apenas observando de longe, sem entregar o coração? Ou como Maria, sentados aos pés dele, com atenção, afeto e entrega total?

Neste momento, vamos olhar para o exemplo de Maria e aprender com ela o que significa adorar com profundidade, perceber os tempos espirituais e manter nossa fidelidade mesmo quando tudo ao redor parece desabar. Sua história nos convida a uma pergunta sincera: estamos realmente aos pés de Cristo... ou apenas correndo ao redor dele, sem parar para estar?


22 janeiro 2023

O que é ser humano? Criados à imagem de Deus




Numa manhã de janeiro, ouvi Dani contar que ela e o irmão Eraldo haviam retirado a decoração de fim de ano. Pensei: “Pronto! Agora o ano começou!”

Na verdade, o ano já havia começado há mais de três semanas. O primeiro mês avançava rapidamente. O tempo segue numa carreira desembestada. Talvez seja por isso que, a cada 365 dias, zeramos a contagem e começamos um novo ano, como quem abre uma página cheia de possibilidades.

A passagem de um ano para outro é celebrada em muitas culturas. No Brasil, a Lei nº 108, de 1935, consagrou o dia 1º de janeiro à comemoração da Fraternidade Universal. Anos depois, o papa Paulo VI propôs que o primeiro dia do ano também fosse celebrado como Dia Mundial da Paz, cuja primeira observância ocorreu em 1º de janeiro de 1968.

De certa forma, começamos o ano lembrando que somos todos humanos. Temos culturas diferentes, falamos línguas distintas, professamos crenças diversas e vivemos realidades muito desiguais. Ainda assim, há algo que nos antecede e nos aproxima: compartilhamos a mesma condição humana. É a partir dessa consciência que a reflexão se volta para uma pergunta essencial.

Mas o que significa ser humano? O que nos une uns aos outros? O que as Escrituras revelam sobre a nossa condição?

Esta reflexão inicia uma série de quatro mensagens sobre a condição humana que compartilhamos. Pode parecer um assunto apenas teórico, mas não é. Aquilo que cremos sobre o ser humano interfere diretamente na maneira como enxergamos a nós mesmos, tratamos as outras pessoas e encaramos a vida diante de Deus e do próximo.

Somos criaturas

Uma das primeiras afirmações da Bíblia a nosso respeito é que fomos criados. Somos criaturas.

Então disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os grandes animais de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão”. Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Gênesis 1.26–27 — NVI

Criação e dignidade

O texto afirma que homens e mulheres existem por uma decisão livre e intencional de Deus. Nossa existência não é apresentada como acidente, descuido ou sobra do universo, mas como resultado da ação deliberada do Criador.

Imagine-se sentado confortavelmente numa bela praia de sua propriedade, plenamente satisfeito, sem que nada lhe falte. O que o faria sair dessa condição?

Talvez a resposta fosse:

— Nada, pastor!

Deus, porém, não criou porque lhe faltava alguma coisa. Ele não precisava do universo nem da humanidade para se completar. Criou livremente, segundo sua vontade e seu propósito. Trouxe à existência o universo, a vida e, entre todas as criaturas, homens e mulheres.

Ainda não respondemos a todas as perguntas sobre o propósito da criação, mas já sabemos algo essencial: a vida humana é intencional. Fomos desejados pelo Criador, e isso confere dignidade à nossa existência.

Meu sogro tem uma caixa na qual guarda todo tipo de objeto que encontra pelo caminho: um pedaço de metal, um parafuso diferente, uma pequena peça com algum encaixe. Minha sogra costuma dizer que aquilo é apenas uma caixa de tranqueiras, mas ele continua guardando tudo. Mais de uma vez, eu o vi recorrer àquela caixa e encontrar exatamente a peça de que precisava.

Aquelas peças não foram produzidas por acaso. Cada uma foi fabricada com alguma finalidade, mesmo quando já não sabemos qual era. De modo semelhante, ainda que a vida nos tenha lançado ao chão, ainda que nos sintamos desprezados, esquecidos ou deixados de lado, nossa existência não perde seu sentido: fomos criados por Deus.

Isso não significa que compreenderemos imediatamente tudo o que acontece conosco, nem que encontraremos uma explicação simples para cada sofrimento. Significa, porém, que nossa dignidade não depende da utilidade que os outros enxergam em nós, do lugar que ocupamos ou do quanto conseguimos produzir.

Há uma razão para a sua vida. Por isso, você não deve renunciar à dignidade que recebeu do Criador.

Essa verdade também muda a maneira como tratamos as outras pessoas. Elas igualmente foram criadas por Deus. Quando encontramos alguém caído à beira da estrada, convencido de que não tem valor, somos chamados a nos aproximar e recordar:

Sua vida tem significado. Você é importante. Sua existência não é um acaso.

Como diz uma antiga canção:

Deus tem um plano em cada criatura;

aos astros, ele dá um céu;

a cada rio, ele dá um leito;

e um caminho para mim traçou.

— Richard D. Baker

Assim, a dignidade que nasce da criação intencional de Deus é comum a toda a humanidade. Ser humano é reconhecer a si mesmo e aos outros como criaturas desejadas por Deus, cuja existência não depende da utilidade que alguém lhes atribui.

Essa primeira afirmação prepara a segunda: não apenas fomos criados por Deus, mas fomos criados de modo singular. A dignidade humana nasce da criação e se aprofunda quando Gênesis afirma que carregamos a imagem do Criador.

Imagem e dignidade

Gênesis acrescenta uma afirmação ainda mais profunda: homens e mulheres foram criados à imagem e semelhança de Deus.

Isso não significa que sejamos divinos. Continuamos sendo criaturas, dependentes daquele que nos deu a vida. Significa, porém, que fomos criados para representar Deus no mundo e refletir algo de seu caráter, de sua vontade e de seu governo. Entre todas as criaturas, o ser humano recebe essa vocação singular.

Pense numa obra de arte esquecida por muitos anos. Ela pode estar encostada numa parede, coberta de poeira e tratada como algo sem valor. Quando, porém, a assinatura do artista é reconhecida, todos passam a olhar para a mesma obra de outra maneira. A assinatura revela sua origem.

A imagem de Deus é como a assinatura do Criador gravada em nossa humanidade.

Por isso, não importa se alguém foi esquecido, desprezado ou deixado de lado. Não importa há quanto tempo está “encostado numa parede” da vida. Todo ser humano carrega a marca de seu Criador e, por isso, deve ser tratado com respeito, cordialidade e consideração.

Nossa existência não é um acidente. Fomos criados intencionalmente por Deus.

A assinatura do Criador está em nós. Isso é parte inseparável de nossa humanidade.

Quando a dignidade é negada

Se todos os seres humanos foram criados por Deus e carregam sua imagem, ninguém pode ser tratado como menos humano. No entanto, ao longo da história, a dignidade e os direitos de muitos grupos foram negados.

Esse processo é chamado de desumanização. Ele acontece quando alguém deixa de ser visto como pessoa e passa a ser tratado como objeto, ameaça, estorvo, mercadoria ou vida descartável.

Pessoas com deficiência já foram tratadas como se não possuíssem plena humanidade. Povos negros e indígenas foram escravizados, explorados e descritos como inferiores. Crianças ainda no ventre são, por vezes, reduzidas a um problema a ser eliminado. Criminosos podem ser tratados como se tivessem perdido todo direito à dignidade. Idosos são abandonados como se já não fossem gente. Pessoas pobres são tratadas como seres humanos de segunda categoria.

Para cada forma de desumanização, são criadas explicações, teorias e justificativas. Mas nenhuma delas pode apagar o que Deus declarou na criação.

Embora o pecado desfigure nossa humanidade e corrompa nossos relacionamentos, a imagem de Deus continua sendo o fundamento da dignidade humana. Essa dignidade não deve ser concedida apenas a quem julgamos merecedor. Ela deve ser reconhecida, protegida e jamais violada.

Não há justificativa para tratarmos uns aos outros como menos humanos.

Pessoas com deficiência: dignidade, cuidado e participação

Em diferentes épocas, pessoas com deficiência foram submetidas ao abandono, à ridicularização, à exclusão e até à morte. É preciso, contudo, evitar generalizações históricas simplistas: pesquisas mais recentes mostram que as atitudes das sociedades antigas eram mais variadas do que muitas narrativas populares sugerem. Ainda assim, há registros reais de práticas cruéis e de discursos que negavam a plena humanidade dessas pessoas.

Até mesmo Martinho Lutero, em um de seus graves pontos cegos, reproduziu crenças desumanizantes de seu tempo ao falar sobre uma criança que ele considerava um changeling — uma suposta criatura demoníaca colocada no lugar de uma criança — e sugerir que fosse afogada. O episódio nos lembra que nenhuma tradição, instituição ou liderança está dispensada de examinar criticamente suas próprias atitudes.

O que encontramos nas Escrituras sobre essa questão? Não é possível aprofundar todos os aspectos do tema em uma única reflexão, mas alguns textos apontam uma direção clara.

A partir daqui, a reflexão seguirá um percurso simples: primeiro, a proteção que aparece na lei de Deus; depois, a esperança anunciada pelos profetas; em seguida, o ministério de Jesus; por fim, os passos da igreja. Esse caminho mostra que a dignidade das pessoas com deficiência não é um detalhe periférico, mas atravessa o testemunho bíblico.

A proteção na lei de Deus

“Não amaldiçoem o surdo nem ponham pedra de tropeço à frente do cego, mas temam o seu Deus. Eu sou o Senhor.” Levítico 19.14 — NVI

“‘Maldito quem fizer o cego errar o caminho.’ Todo o povo dirá: ‘Amém!’” Deuteronômio 27.18 — NVI

O mandamento “não matarás” protege a vida humana. Jesus aprofundou esse mandamento ao mostrar que a violência contra o próximo começa antes do ato de tirar-lhe a vida: ela também se manifesta no desprezo, no ódio e na humilhação.

Nos textos do Levítico e do Deuteronômio, pessoas com deficiência são mencionadas especificamente. Não basta reconhecer seu direito de existir. O povo de Deus é proibido de explorar suas limitações, dificultar sua caminhada ou transformar sua vulnerabilidade em ocasião para crueldade.

“Não amaldiçoem.”

“Não ponham pedra de tropeço.”

“Não façam errar o caminho.”

Em linguagem contemporânea, poderíamos dizer: não criem barreiras; não explorem limitações; não transformem a vulnerabilidade de alguém em ocasião para abuso; não façam da vida de uma pessoa uma caminhada ainda mais difícil.

Levítico acrescenta uma razão decisiva:

“Temam o seu Deus. Eu sou o Senhor.”

A pessoa com deficiência pertence a Deus e carrega sua imagem. Quem a humilha afronta o seu Criador. Quem cria obstáculos deliberados diante dela age como se Deus não estivesse vendo. Por isso, em vez de tornar sua vida mais difícil, o povo é chamado a temer o Senhor.

Deus se apresenta nas Escrituras como defensor dos fracos, dos oprimidos, dos esquecidos e dos desprezados. O melhor que podemos fazer é nos juntar a ele.

A esperança anunciada pelos profetas

Digam aos desalentados de coração: “Sejam fortes, não tenham medo. Eis aí está o Deus de vocês. A vingança vem, a retribuição de Deus; ele vem para salvar vocês.” Isaías 35.4–6 — NAA

Então se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; os coxos saltarão como as corças, e a língua dos mudos cantará. Pois águas arrebentarão no deserto, e ribeiros, no ermo.

Isaías anuncia a salvação que virá do Senhor. Sua palavra é dirigida aos desalentados, àqueles que já se cansaram de esperar por justiça, acolhimento e restauração.

O profeta descreve o Reino de Deus como uma realidade na qual o sofrimento, a exclusão e tudo aquilo que limita a vida não terão a palavra final. Cegos, surdos, coxos e mudos aparecem como representantes de uma humanidade que espera pela ação restauradora de Deus.

Essa esperança, porém, nunca deve ser usada para tratar o corpo de uma pessoa com deficiência como inferior no presente. Pelo contrário: justamente porque esperamos a restauração plena de Deus, somos chamados desde agora a combater toda forma de exclusão, remover barreiras concretas e reconhecer a dignidade inteira de cada pessoa.

O ministério de Jesus

Jesus respondeu: “Voltem e anunciem a João o que vocês estão ouvindo e vendo: os cegos veem, os mancos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as boas-novas são pregadas aos pobres.” Mateus 11.4–5 — NVI

Quando Jesus exerceu seu ministério entre nós, tornou visível uma amostra da restauração prometida por Isaías. João Batista quis saber se Jesus era aquele que deveria vir. Em resposta, Jesus apontou para o que estava acontecendo diante dos olhos de todos: pessoas eram vistas, acolhidas, curadas e reintegradas.

Os evangelhos registram muitos desses encontros: Bartimeu; o paralítico de Cafarnaum; o homem com a mão atrofiada; o paralítico de Betesda; o menino que não ouvia nem falava; os cegos que clamaram por misericórdia.

Jesus não tratou essas pessoas como interrupções em sua agenda nem como objetos de curiosidade. Ele as viu, ouviu e recebeu. Suas curas eram sinais de que o Reino de Deus havia se aproximado e apontavam para a restauração plena da humanidade.

Os passos da igreja

Em Listra havia um homem paralítico dos pés, aleijado desde o nascimento, que vivia ali sentado e nunca tinha andado. Ele ouvira Paulo falar. Quando Paulo olhou diretamente para ele e viu que o homem tinha fé para ser curado, disse em alta voz: “Levante-se! Fique em pé!” Com isso, o homem deu um salto e começou a andar. Atos 14.8–10 — NVI

Nos primeiros passos da igreja, os sinais do Reino continuaram apontando para a restauração realizada por Deus. Cada corpo curado e cada vida reintegrada funcionavam como uma seta voltada para o futuro de Deus.

A missão da igreja, no entanto, não se resume à expectativa de milagres. Enquanto aguardamos a restauração plena, somos chamados a remover barreiras, promover acessibilidade, ouvir as pessoas com deficiência e garantir que participem da vida comunitária com seus dons, sua voz e sua autonomia. Não se trata apenas de compaixão, mas de reconhecimento: elas são irmãs e irmãos, participantes plenos do corpo de Cristo.

Pessoas pobres: a dignidade que não pode ser comprada

A dignidade humana também é violada quando a pobreza se torna motivo de desprezo. Embora tenha causas diversas e produza limitações concretas, nenhuma condição econômica justifica diminuir o valor de alguém. A dignidade não aumenta com o saldo bancário nem desaparece quando faltam recursos.

A pessoa pobre não pode ser menosprezada porque tem pouco. Ainda assim, isso acontece com frequência, especialmente em ambientes nos quais o valor das pessoas é medido por sua capacidade de consumir.

Quem segue Jesus toma o caminho inverso: considera, respeita e honra a pessoa pobre — inclusive quando o próprio cristão também vive em pobreza.

Quem dispõe de poucos recursos não pode ser humilhado por essa condição. No entanto, pessoas pobres muitas vezes são impedidas de conviver nos mesmos espaços, entrar pelas mesmas portas, partilhar a mesma mesa ou alimentar os mesmos sonhos. Aos poucos, sua humanidade lhes é negada. Quem segue Jesus toma o caminho inverso: reconhece, respeita e honra aqueles que vivem com pouco.

Quem enfrenta necessidades não pode ser abandonado. Mesmo assim, é comum que o sofrimento dos pobres seja justificado por discursos que os classificam, indistintamente, como preguiçosos, irresponsáveis ou culpados por toda a própria situação. Algumas pessoas chegam a usar textos bíblicos para legitimar a indiferença.

Quem segue Jesus toma o caminho inverso: acolhe, reparte e socorre conforme suas possibilidades.

Quem passa necessidade não pode ser transformado em motivo de pilhéria. Mas as lutas, limitações e dificuldades dos pobres são frequentemente banalizadas e convertidas em piada.

Quem segue Jesus toma o caminho inverso: recusa o escárnio e reconhece a dignidade que Deus concedeu a cada pessoa.

A proteção dos pobres no Antigo Testamento

Várias leis do Antigo Testamento tinham o propósito de impedir que a pobreza se transformasse numa sentença permanente de exclusão.

“No final de cada sete anos, as dívidas deverão ser canceladas. Isso deverá ser feito da seguinte forma: todo credor cancelará o empréstimo que fez ao seu próximo. Nenhum israelita exigirá pagamento de seu próximo ou de seu parente, porque foi proclamado o tempo do Senhor para o cancelamento das dívidas. Vocês poderão exigir pagamento do estrangeiro, mas terão que cancelar qualquer dívida de seus irmãos israelitas. Assim, não deverá haver pobre algum no meio de vocês, pois na terra que o Senhor, o seu Deus, lhes está dando como herança para que dela tomem posse, ele os abençoará ricamente, contanto que obedeçam em tudo ao Senhor, o seu Deus, e ponham em prática toda esta lei que hoje lhes estou dando.” Deuteronômio 15.1–5 — NVI

A lei impedia que dívidas se acumulassem indefinidamente e destruíssem famílias por sucessivas gerações. O alvo declarado era que a pobreza não se tornasse uma estrutura permanente no meio do povo.

A legislação bíblica não romantiza a necessidade. Ela chama a comunidade a organizar a vida de modo que os vulneráveis sejam protegidos e tenham a possibilidade de recomeçar.

Os pobres no ministério de Jesus

Jesus deu atenção especial aos pobres. Alimentou os famintos, curou os enfermos, denunciou exploradores e anunciou as boas-novas do Reino àqueles que costumavam ser ignorados.

Quando respondeu a João Batista, Jesus incluiu entre os sinais de seu ministério esta declaração:

“As boas-novas são pregadas aos pobres.”

Isso não era um detalhe. O evangelho alcançava pessoas que a sociedade havia colocado à margem e lhes anunciava que o Reino de Deus também lhes pertencia.

Os passos da igreja

A igreja seguiu os passos de Jesus. Em uma reunião que envolveu Tiago, Pedro, João, Paulo e Barnabé, a lembrança dos pobres apareceu como compromisso indispensável da missão cristã.

“Reconhecendo a graça que me fora concedida, Tiago, Pedro e João, tidos como colunas, estenderam a mão direita a mim e a Barnabé em sinal de comunhão. Eles concordaram em que devíamos nos dirigir aos gentios, e eles, aos circuncisos. Somente pediram que nos lembrássemos dos pobres, o que me esforcei por fazer.” Gálatas 2.9–10 — NVI

A comunhão entre os apóstolos não foi expressa apenas por concordância doutrinária ou divisão de campos missionários. Ela também incluiu uma responsabilidade concreta: lembrar-se dos pobres.

Uma igreja que se esquece dos pobres pode preservar muitas atividades religiosas, mas se afasta dos passos de Jesus. Lembrar-se deles não é um acréscimo opcional à missão cristã; é uma expressão concreta do evangelho que anuncia a dignidade de toda pessoa diante de Deus.

Criados humanos

O que significa ser humano?

Segundo as Escrituras, ser humano significa, antes de tudo, reconhecer que somos criaturas. Não temos vida em nós mesmos. Tudo o que temos e somos recebemos daquele que nos criou. Deus é a fonte da vida; nós dependemos dele.

Também significa abraçar a convicção de que nossa existência é intencional e de que nossa dignidade está fundamentada na imagem e semelhança de Deus. Essa dignidade não pode ser medida pela saúde, pela capacidade física, pela origem étnica, pela idade, pela história pessoal, pela condição moral ou pela situação econômica.

No mundo caído, continuaremos encontrando tentativas de dividir a humanidade entre vidas valiosas e vidas descartáveis, pessoas dignas e indignas, gente que merece ser vista e gente que pode ser abandonada.

As Escrituras, porém, nos colocam diante de um Deus que vê, protege, acolhe e restaura. Ele chama seu povo a participar dessa obra.

Podemos perceber isso nas leis dadas a Israel, no anúncio dos profetas, no ministério de Jesus e nos primeiros passos da igreja. Em todos esses testemunhos, somos alcançados pelo amor de Deus e convocados a reconhecer, proteger e honrar a dignidade do próximo.

Deus nos criou à sua imagem e semelhança. Não somos deuses; somos humanos — criaturas dependentes, limitadas e, ao mesmo tempo, revestidas de uma dignidade que vem do Criador.

Por isso, ser humano também é reconhecer a humanidade do outro.

Onde alguém estiver sendo tratado como menos humano, o povo de Deus deve aproximar-se, remover as pedras do caminho e afirmar, com palavras e atitudes:

Sua vida tem significado. Você carrega a imagem do Criador. Sua dignidade não pode ser apagada.


16 dezembro 2022

Isabel



Isabel



Pr. Aristarco Coelho - Igreja Batista Videira

11 de Dezembro de 2022, Paratibe - João Pessoa/PB


Palavras Iniciais

Estamos em dezembro e as luzes do Natal estão acessas por toda cidade. De alguma forma há uma lembrança coletiva de que esse é um período de festa, um tempo de celebrar; porque é Natal.

Muitas pessoas ficam sensíveis na época do Natal. Alguns são consumidos de tristeza e melancolia e outros são tomados de alegria e esperança; uma coisa é certa: dificilmente alguém passa por essa época sem ser tocado por esse clima de Natal.

De fato, o Natal é motivo de celebração. Não por causa do Papai Noel, dos enfeites, das luzes ou dos presentes, mas porque nessa época do ano decidimos nos lembrar do nascimento daquele que veio a este mundo, como uma criança indefesa, a fim de nos defender e de nos salvar de nós mesmos: JESUS.

As Escrituras dizem que Jesus, nascido de Maria, é a plena e perfeita representação de Deus. João, que conviveu com Jesus, escreveu que ao olharem para Ele e sua maneira de viver era como se eles vissem o próprio Deus ali presente. A glória de Deus, sua presença poderosa, era sentida por todos que se aproximavam de Jesus.

Natal é sobre Jesus. Desde o começo é sobre Jesus e seu nascimento. E se não for sobre Jesus, é apenas mais uma oportunidade para comer, beber e dar presentes. Natal é sobre o impacto que Jesus causa na vida das pessoas, porque desde aquele primeiro natal e mesmo antes dele, Ele já tocava e transformava a realidade ao seu redor.

Hoje e nos próximo dois domingos vamos olhar mais de perto a vida de três pessoas que tiveram suas vidas alcançadas e transformadas por Jesus, antes que o primeiro natal acontecesse. São três mulheres a quem foi dado o privilégio de ouvirem as palavras que romperam o silêncio que existia desde os últimos profetas do Antigo Testamento. Vamos olhar de perto as vidas de Isabel, Maria e Ana.

Isabel

Vou começar hoje apresentando Isabel. Ela é mencionada na Bíblia no evangelho de Lucas. Vamos ler:

Lucas 1.5–7 NVI

5 No tempo de Herodes, rei da Judéia, havia um sacerdote chamado Zacarias, que pertencia ao grupo sacerdotal de Abias; Isabel, sua mulher, também era descendente de Arão. 

6 Ambos eram justos aos olhos de Deus, obedecendo de modo irrepreensível a todos os mandamentos e preceitos do Senhor. 

7 Mas eles não tinham filhos, porque Isabel era estéril; e ambos eram de idade avançada.

Infância e Juventude

Quando Isabel aparece pela primeira vez nas páginas das Escrituras ela já é uma mulher idosa. Lucas, no entanto, inclui algumas dicas sobre a infância e juventude de Isabel. Ele afirma que ela era descendente de Arão, o primeiro na linhagem sacerdotal de Israel. Isso quer dizer que Isabel era filha de um sacerdote.

Isabel havia sido criada em uma família que temia e amava a Deus. Desde pequena ela ouvia o pai falar sobre como Deus é maravilhoso e digno de adoração. Ela certamente ouviu as histórias de Abraão, Isaque e Jacó, também sobre como Deus libertou o povo do cativeiro egípcio pelas mãos de Moisés, e sobre a insistência dos profetas para que o povo de Israel confiasse apenas em Deus.

A jovem Isabel, filha de um sacerdotes, casou-se também com um sacerdote, chamado Zacarias. Assim, a cultura familiar de Isabel, de confiar em Deus, foi confirmada em seu casamento. Ela, que antes via o pai às voltas com o ministério sacerdotal, agora, depois de casada, acompanhava o ministério sacerdotal do esposo.

Idade adulta

A jovem esposa Isabel viveu sua vida amando a Deus e confiando no Senhor. Sabemos disso por causa do testemunho das pessoas a respeito dela e de seu marido, de que eles eram “justos aos olhos de Deus, obedecendo de modo irrepreensível a todos os mandamento e preceitos do Senhor” (1.6).

Não é que eles fossem perfeitos, mas que serviam fielmente ao Senhor, com intensa dedicação, não havendo nada em suas vidas pelo que pudessem ser publicamente acusados de desobediência. Em resumo: Isabel vivia uma vida exemplar.

Muita gente olharia para a vida de Isabel e diria com tranquilidade: “Olha aí algum a quem Deus deveria cobrir de todo tipo de bênção”. No entanto, Isabel e seu esposo Zacarias, mesmo com suas vidas exemplares, não foram abençoados com filhos.

Por toda a sua vida de casada, mês a mês, Isabel foi consumida por expectativas seguidas de frustrações, o tipo de situação que pode despedaçar a alma humana. Como uma mulher que amava e confiava no Senhor desde criança chegou à velhice sem a bênção da maternidade? Essas e outras perguntas iam e vinham na mente dela, dos amigos e da família, ano após ano.

Isabel foi muito amada por seu esposo. Sabemos disso porque Zacarias permaneceu até a velhice com ela, não fazendo valer seu direito legal de se divorciar de uma esposa que não lhe dava filhos. 

Mas, mesmo suprida pelo amor de seus pais em sua infância e pelo amo de seu marido na juventude e idade adulta, ela possivelmente se sentia menos do que poderia ser. Esse sentimento se agravava com a crença vigente em sua época de que Deus abençoa seus servos fiéis dando-lhe filhos, porque isso levava as pessoas a pensarem que aqueles que não tinham filhos estavam sendo de alguma forma punidos por Deus.

Maturidade

Quando Isabel apareceu na cena bíblica, já idosa, uma parte dessas tensões sobre a maternidade já eram feridas cicatrizadas. O texto indica que, àquela altura, Isabel e seu esposo já haviam desistido de se tornarem pais.  Por muitos anos eles oraram e pediram com fé, mas agora, já idosos, esse assunto era coisa passada de gosto amargo.

Eu penso, irmãos, que os fatos ocorrido com Isabel são uma denúncia contra o falso evangelho, que promete a realização de sonhos em troca de uma vida piedosa. Em seus dias, poucas pessoas foram tão crentes e piedosas quanto Isabel e Zacarias, no entanto eles viveram a maior parte de suas vidas sem o que mais queriam: filhos.

Como é possível isso manter a fé numa situação dessas? Como continuar confiança quando se ao nosso redor as coisas parecem dizer que nossos sonhos e desejos serão frustrados? O anjo que anunciou a Zacarias a gravidez de Isabel nos revela como eles mantiveram a fé nesses dias difíceis:

Lucas 1.13 NVI

13 Mas o anjo lhe disse: “Não tenha medo, Zacarias; sua oração foi ouvida. Isabel, sua mulher, lhe dará um filho, e você lhe dará o nome de João.

Isabel e seu esposo viveram longos anos de espera e enfrentaram as frustrações dos sonhos não realizados perseverando na oração. Eles se encheram da convicção de que o Senhor é digno de confiança e que seus desígnios sobre nós são o melhor que podemos viver.

Essa não é um oração de resultado. Não é uma forma de se obter o que se quer, mas um jeito de se aproximar daquele que conhece tudo a nosso respeito e sempre age em nosso favor. Alexander White, ao comentar sobre Isabel no seu livro Personagens Bíblicos, afirma o seguinte:

“Povo de Deus, [vocês] que estão preteridos, decepcionados e empobrecidos. Orem e não desistam. Orem, pois a oração e muito melhor que a resposta.”

Quando o curso da vida nos frustra, a melhor resposta é buscar ao Senhor em oração. Decidir confiar a Ele os nossos sonhos e esperanças, aguardando com alegria sua boa, perfeita e agradável vontade vir sobre nós.

A notícia do milagre

Isabel e Zacarias, por fim receberam o que pediram a Deus. Ambos envelheceram até ver suas orações atendidas. Será que vale a pena? O que eles ganharam durante esse tempo? Eles aprenderam a ser perseverantes na confiança e a esperar enquanto Deus movimenta as engrenagens da sua vontade.

No tempo certo para todos que estavam envolvidos nesse drama em particular, eles receberam a notícia de que o sonho frustrado e esquecido iria acontecer… “Sua oração foi ouvida. Isabel, sua mulher, lhe dará um filho”. Certamente isso os encheu de alegria.

Por outro lado, o anúncio do anjo, e por fim a gravidez de Isabel, revelam que o casal, mesmo unidos naquilo que viveram, lidava de forma diferente com a frustração que os consumiu por tanto tempo.

Zacarias - Como será isso?

Ao ouvir o anjo, Zacarias exigiu provas. Para ele as evidências da impossibilidade eram incontestáveis: “eu e minha mulher somos agora dois idosos”. Não era mais tempo, talvez pensasse Zacarias. O vigor da sua juventude, e de sua esposa Isabel, já havia passado. O anjo tinha se atrasado… uns quarenta anos.

As vezes oramos ao Senhor colocando nossas angústias e necessidades por algum tempo. Depois, constrangidos pelo silêncio de Deus, pela demora, pela aparente insensibilidade do todo poderoso, paramos de orar e até nos esquecemos do assunto. Mas o Senhor não esquece nossas orações; no tempo certo ele age, sempre para o reconhecimento de sua presença entre nós (louvor da sua glória).

Isabel - Isto é obra do Senhor

Depois do anúncio feito pelo anjo e contra todas as possibilidades humanas, Isabel engravidou. Assim como Zacarias, ela também já havia desistido. Ela confiou no Senhor por décadas e continuava confiando, mas sua oração já não pedia, apenas se entregava à vontade Deus.

As coisas não foram como Zacarias e Isabel planejaram e sonharam. Não foi como as famílias deles esperavam. Não foi no tempo em que essas coisas normalmente acontecem. Foi do jeito e no tempo que Deus se propôs a fazer, sincronizando Sua obra na vida de todas as pessoas envolvidas.

Os milagres de Deus nunca são apenas para nós. Ele não trabalha de forma linear. Quando nos entregamos à vontade dele temos a certeza de que o melhor dele vai acontecer; não apenas para nós, mas para todos aqueles que estão em nossa teia de relacionamentos.

O que significa isso?

Para concluir nossa reflexão de hoje vejamos detalhadamente como Isabel lidou com a realização de seu sonho. Para isso quero recuperar dois momentos em que Isabel, ao se deparar com agir de Deus em sua vida, reflete sobre o que estava acontecendo com ela. O que significam essa coisas pelas quais eu estou passando?

Lucas 1.23–25 NVI

23 Quando se completou seu período de serviço, ele voltou para casa. 

24 Depois disso, Isabel, sua mulher, engravidou e durante cinco meses não saiu de casa. 

25 E ela dizia: “Isto é obra do Senhor! Agora ele olhou para mim favoravelmente, para desfazer a minha humilhação perante o povo”.

Isabel não cabia em si de contentamento e assombro. Aquilo ela tão surpreendente que ela precisou de um tempo para processar. Durante os cinco primeiros meses, ela se recolheu a sua casa, que ficava possivelmente nas colinas do monte Hebron, próximo a Jerusalém.

Isso é sobre mim

Isabel reconheceu sua gravidez com uma intervenção graciosa de Deus. E enquanto refletia sobre o milagre que é uma mulher idosa conceber um filho, ela enxergou sua gravidez como um cuidado de Deus em relação a ela: finalmente sua orações foram respondidas e ela deixará de ser aquela que não tem filhos.

Quase sempre, quando refletimos sobre o que nos acontece da parte de Deus, a primeira camada de compreensão que nos vem diz respeito a nós mesmos. É como se o mundo girasse em torno da gente, como se Deus existisse para nós e para nossas necessidades. Interpretamos o mundo a partir de nós mesmos.

Fazer isso não é errado em si mesmo, mas não pode ser nossa estação final. Podemos começar, como Isabel, pensando no significado das lutas, dores, alegrias, sonhos realizados e frustrados, a partir de nós mesmos, mas existem outras camadas de significado que precisam ser exploradas, sob pena de nos tornarmos egoístas e autocentrados.

A teia do agir de Deus

Para avançarmos em direção a ampliar o significado daquilo que Deus faz em nossas vidas, precisamos nos dar conta de que não estamos sós nesse mundo. Deus não é apenas no nosso Deus, mas o regente de todo universo. Talvez por isso, Lucas corta a cena e deixa Isabel refletindo sobre o milagre de sua gravidez, enquanto abre uma nova janela para vermos Maria recebendo a visita do mesmo anjo, Gabriel.

Gabriel anuncia que Maria ficaria grávida pela virtude do Espírito Santo. Ele encoraja Maria, que responde com um lindo cântico de fé e confiança no agir de Deus. Depois o anjo tira algumas dúvidas de Maria. 

A fala do anjo é como se ele dissesse “não se preocupe, Maria. Deus está colocando seu plano em movimento. Muitas coisas aconteceram antes de eu vir falar com você e muitas outras acontecerão depois que eu sair daqui. As coisas que estão acontecendo com você são parte de algo maior, do qual você faz parte!” E para demonstrar isso de forma prática, ele emenda sua fala com a seguinte informação:

Lucas 1.36 NVI

36 Também Isabel, sua parenta, terá um filho na velhice; aquela que diziam ser estéril já está em seu sexto mês de gestação.

Esse agir multifacetado de Deus pode parecer confuso enquanto a gente está vivendo as tramas de nossas vidas, mas depois se tornará motivo de adoração ao Senhor, quando percebermos que Ele conduz a história para a glória do seu nome e alegria de seus filhos.

É bem possível que o coração de Maria tenha se enchido de alegria ao saber que ela não estava só naquele mover de Deus. E como é maravilhoso isso, sobretudo quando pessoas que amamos também fazem parte do grande plano Deus e que estamos juntos servindo a Ele… Que alegria! Que satisfação. Talvez por isso, Maria decidiu visitar sua prima Isabel.

Isso é sobre Deus

Enquanto tudo aquilo acontecia com Maria, Isabel vivia o sexto mês de gestação. Esse foi o tempo necessário para que ela se abrisse à ideia de que o agir de Deus na vida dela não era apenas por ela, mas fazia parte de uma complexa teia de intervenções divinas.

Maria entrou na casa de sua prima e disse um “Ô de casa”, avisando que tinha chegado. Quando Isabel ouviu, o bebê em seu ventre agitou-se e ela, Isabel, foi guiada (cheia) pelo Espírito Santo:

Lucas 1.42–45 NVI

42 Em alta voz exclamou: “Bendita é você entre as mulheres, e bendito é o filho que você dará à luz! 

43 Mas por que sou tão agraciada, ao ponto de me visitar a mãe do meu Senhor? 

44 Logo que a sua saudação chegou aos meus ouvidos, o bebê que está em meu ventre agitou-se de alegria. 

45 Feliz é aquela que creu que se cumprirá aquilo que o Senhor lhe disse!”

Depois de seis meses, refletindo sobre o agir de Deus em sua vida, Isabel não olha mais apenas para si mesma. Aquela senhora não está mais presa à reparação da sua dor. Ela não tem necessidade de anunciar o que Deus fez por ela.

No verso 42 vemos que Isabel, a anciã, abençoa Maria e confirma pelo Espírito Santo a gravidez da jovenzinha. Ela abençoa a criança que está sendo gerada; não o seu filho, mas o filho de sua prima. Ao mudar o foco, Isabel já fala no compasso do evangelho será anunciado por Jesus. Suas ações já são conforme o ensino que o menino vai trazer.

No verso 43 encontramos Isabel, descendente de sacerdotes e casada com um sacerdote, olhando para si mesma com humildade. Ela começa a entender que o milagre de Deus em sua vida não diz respeito apenas a ela e ao marido, mas está inserido dentro de mover de Deus para salvar. Mais que isso, ela reconhece a si mesma como necessitada desta salvação, o que está completamente alinhado com a mensagem de Cristo.

No verso 45 Isabel, experiente no caminho que ensina confiar no Senhor, encoraja a jovem Maria, que dá seus primeiros passos nessa jornada. “Deus cumpre aquilo que promete, Maria, pode confiar”. Isabel não precisa mais chamar atenção para si mesma. Sua vida, seu casamento, seu filho, tudo é parte do grande plano de Deus.

Conclusão

Isabel desistiu de esperar. Sem remorso, sem raiva, ela apenas parou de pedir. Isabel desistiu de esperar, mas Deus não desistiu dela. Na grande teia do agir de Deus ela tinha um papel para cumprir. 

Isabel aprendeu que a integridade não é moeda de troca para obtermos a realização de nossos sonhos, mas nossa resposta ao amor de Deus por nós; que ser integro não produz créditos no céu.

Isabel aprendeu que não estava no centro do agir de Deus. Que a benção de Deus se derrama sobre todos ao nosso redor, e que o tempo do agir de Deus é o ponto ótimo da sua intervenção amorosa sobre todos.

Isabel aprendeu que Deus é confiável, e que é um privilégio fazer parte do seu grande plano de salvação.

Que o Senhor nos ajude a prosseguir na mesma direção que Isabel deu para sua vida.