09 maio 2025

Caifás: o medo de perder o controle

 




Caifás

A história da crucificação de Jesus não pode ser compreendida sem um olhar atento para os bastidores do poder religioso e político de sua época. A cruz foi instrumento da violência romana — mas também o desfecho de uma negociação sombria entre religião e conveniência. Se Pedro representa o discípulo que tropeça e volta, e Maria de Betânia, a adoradora que se entrega, Caifás representa o sistema com medo perder o controle — e disposto a sacrificar a verdade para manter seus privilégios.

Um dos personagens mais desconfortáveis dos relatos da Paixão de Cristo, ele não foi um traidor impulsivo como Judas, nem um discípulo arrependido como Pedro. Estamos falando de um sacerdote. Um líder religioso. Um homem que conhecia as Escrituras e ocupava o lugar mais sagrado do sistema judaico. Ainda assim, foi ele quem arquitetou a condenação do Messias. Mas o mais perturbador sobre nosso personagem é que ele não está tão longe de nós quanto gostaríamos de imaginar.

O Sumo Sacerdote não negou Jesus por ignorância, mas calculadamente. Ele não se afastou do Filho de Deus por medo, mas por conveniência. Sua história representa o tipo mais perigoso de negação: 
aquela que é fria, estratégica, revestida de religiosidade e desconectada da graça. E esse tipo de fé ainda resiste à cruz nos ambientes religiosos em nossos dias.

Ainda que para alguns ela pareça um nome entre outros nos Evangelhos, Caifás é o símbolo destacado de uma espiritualidade capturada, institucionalizada, interessada mais na manutenção da ordem do que na revelação da verdade. Ele encarna aquilo que acontece quando o culto é tomado pela política, o templo se rende aos cálculos e o sadio zelo religioso é vencido pelo medo da perder poder.

Sua trajetória expõe uma das tensões mais dramáticas da fé cristã: o que acontece quando a religião, em vez de conduzir a Cristo, se transforma num escudo contra a cruz? O sumo sacerdote que articulou a morte de Jesus não era um estranho ao culto, ao templo ou à Lei — ele era o guardião do sagrado institucionalizado. Mas foi esse zelo deformado que o tornou incapaz de reconhecer o Messias que ali estava. A cruz era inaceitável não porque fosse incompreensível, mas porque ameaçava o sistema que o sustentava.




27 abril 2025

 


Pedro

Pedro era intenso. Ele era daqueles que falam o que sentem, que prometem sem pensar duas vezes, que lideram com o coração. Sua história é marcada por uma série de contrastes que soam bem familiares: promessas feitas com fervor… seguidas por ações que fraquejam; intenções verdadeiras… travadas por impulsos humanos; amor sincero… ofuscado pelo medo e pela vergonha.

E caiu feio, mas não porque era fraco. A questão é que ele se achava forte demais. E sim, ele traiu Jesus, negando que o conhecesse, mas não era porque o amor dele por Jesus fosse uma farsa — ele confiava demais em si mesmo, na própria lealdade, no próprio desempenho. E isso nos ensina algo poderoso: quando nossa autoconfiança não passa pela cruz, ela vira armadilha e nos faz vestir máscaras, assumir poses que não conseguimos sustentar, e construir uma fé apoiada em areia movediça.

A gente vive pressionado a parecer forte, eficiente, resolvido, brilhante. Mas Jesus não está pedindo nada disso. A cruz aponta outro caminho — o da vulnerabilidade que se rende, da fraqueza que se entrega, da coragem de dizer: 
“Senhor, eu preciso da Tua graça. Sem Ti, eu caio.”

Quando a coragem é insuficiente

Pedro sempre se destacou entre os discípulos como aquele que tomava a dianteira. Era ousado, decidido, corajoso. Ao ouvir que Jesus iria para um lugar onde eles não poderiam segui-lo imediatamente, Pedro prontamente respondeu: “Darei a minha vida por ti!” (João 13:37). Suas palavras revelavam um coração comprometido, mas também uma confiança excessiva em sua própria disposição e força moral.

Richard Bauckham, ao analisar essa cena no capítulo 3 de Ao Pé da Cruz, destaca que Pedro, como muitos discípulos de Jesus, ainda não percebera que os passos do Mestre em direção ao seu Reino não se dariam por bravura ou pela força da lealdade emocional, mas pela entrega à cruz — algo que desconcertava até os mais próximos. Pedro, ainda preso a concepções heroicas de fidelidade, não estava preparado para enfrentar o escândalo da cruz.

Aliás, o evangelho de João mostra que, mesmo antes da negação, Pedro já revelava sua incompreensão sobre o que significava realmente seguir Jesus. No Getsêmani, quando os soldados vieram prender o Mestre (João 18:10), ele saca uma espada e fere Malco, o servo do sumo sacerdote, numa tentativa desesperada de defender Jesus, no braço mesmo. Pedro queria proteger o Salvador com sua espada, quando o  caminho do próprio Jesus era o da rendição ao plano de Deus. A fidelidade que ele imaginava oferecer a Cristo não estava enraizada na cruz, mas no heroísmo impulsivo.

Em nossos dias, essa mesma atitude se repete em outras situações. Valorizamos o desempenho, a autoconfiança e a capacidade de vencer pelos próprios méritos. É um modelo de sucesso que exige força e resiliência. E, muitas vezes, esse padrão é importado para a vida cristã. Acabamos construindo uma fé medida pelo desempenho, onde depender de Deus não é algo popular e a coragem é confundida com espiritualidade. A questão é que, como aconteceu com Pedro, esse tipo de coragem não tem fundamentos sólidos e logo desmorona quando a pressão aumenta.






 

Maria de Betânia

Entre tantos rostos que se aproximaram de Jesus nos dias que antecederam a cruz, há um que se destaca não pelos discursos, nem pelos feitos extraordinários — mas por sua adoração silenciosa e profunda. Maria de Betânia não pregou em praças, não fez milagres, nem enfrentou os religiosos do seu tempo. Mas ela esteve onde poucos tiveram coragem de estar: aos pés do Salvador.

Este volume da série 
À Sombra da Cruz é um convite para caminhar com Maria em três momentos marcantes de sua história — quando ela ouve, quando ela chora e quando ela se entrega. Em cada cena, somos levados a refletir sobre questões fundamentais da fé:

O que temos colocado no centro da nossa vida?
Estamos dispostos a derramar o que temos de mais precioso por amor a Jesus?
Continuaremos fiéis quando a cruz se aproximar?

O Valor da Presença de Cristo

A crucificação de Jesus não foi só um evento distante no tempo — foi um momento que tocou profundamente cada pessoa envolvida. Todos os que estiveram ali, de algum modo, tiveram suas vidas marcadas. Pedro sentiu o peso da culpa por ter negado seu Mestre. Pilatos e Caifás revelaram como o medo e o orgulho podem cegar a justiça. Barrabás foi o símbolo da graça que substitui o culpado pelo inocente. Simão Cirineu foi surpreendido com a missão de carregar uma cruz que não era sua. Nicodemos enfrentou o conflito interno entre sua religiosidade e a fé verdadeira.

Mas, antes que a cruz fosse levantada, há uma cena que merece atenção: a de Maria de Betânia. Ela não estava envolvida em debates teológicos ou em posições de liderança. Ela simplesmente se derramava. Maria nos mostra que a verdadeira adoração é aquela que nos leva aos pés da cruz.

Maria de Betânia não era conhecida por grandes discursos ou feitos públicos. O que a tornava especial era sua postura de entrega, sua disposição de estar aos pés de Jesus. Enquanto muitos estavam ocupados com seus interesses, dúvidas ou status, ela escolhia o lugar mais simples e mais profundo: a presença de Cristo. O exemplo dela nos provoca: o que temos colocado como prioridade na nossa vida?

Vivemos dias acelerados. São compromissos, tarefas, metas. Corremos de um lado para o outro tentando dar conta de tudo — trabalho, família, ministério, vida pessoal. E até nosso tempo com Deus, muitas vezes, entra nessa lógica de “obrigação”. Mas Maria nos ensina algo diferente: mais do que fazer coisas para Deus, Ele deseja que a gente simplesmente esteja com Ele.

Se Jesus estivesse aqui, hoje, de forma visível... onde Ele nos encontraria? Como Marta, estressados e ocupados demais para parar? Como os fariseus, apenas observando de longe, sem entregar o coração? Ou como Maria, sentados aos pés dele, com atenção, afeto e entrega total?

Neste momento, vamos olhar para o exemplo de Maria e aprender com ela o que significa adorar com profundidade, perceber os tempos espirituais e manter nossa fidelidade mesmo quando tudo ao redor parece desabar. Sua história nos convida a uma pergunta sincera: estamos realmente aos pés de Cristo... ou apenas correndo ao redor dele, sem parar para estar?


05 março 2023

Ser humano: a dignidade das pessoas em situação de pobreza


Esta é a terceira mensagem da série Ser humano, na qual refletimos sobre nossa humanidade à luz das Escrituras.

Nas duas primeiras mensagens, vimos que nossa existência resulta da ação criadora e intencional de Deus e que todo ser humano carrega a sua imagem. Agora perguntamos: o que essas verdades exigem de nós diante da pobreza?

Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Gênesis 1.27 — NVI

A partir da narrativa da criação, destacamos duas afirmações fundamentais.

A primeira é que nossa existência não é um acidente, mas resultado da ação criadora e intencional de Deus.

A segunda é que a assinatura de Deus está em nós. Deus criou homens e mulheres à sua imagem e semelhança.

Essas verdades definem nossa humanidade e fundamentam nossa dignidade. Além disso, não servem apenas para explicar nossa origem. Elas devem transformar a maneira como enxergamos a nós mesmos, tratamos as outras pessoas e organizamos nossa vida em sociedade.

Quando a dignidade humana é negada

Ao longo da história, sociedades inteiras trataram determinados grupos como se fossem menos humanos.

Esse processo é chamado de desumanização. Ele acontece quando alguém deixa de ser reconhecido como pessoa e passa a ser tratado como objeto, ameaça, estorvo, mercadoria ou vida descartável.

Muitos discursos descreveram pessoas com deficiência como se elas não possuíssem plena humanidade. Colonizadores e grupos dominantes classificaram povos negros e indígenas como inferiores para justificar sua exploração. Idosos são abandonados como se já não fossem gente. Crianças ainda no ventre podem ser reduzidas a problemas que devem ser eliminados. Criminosos são chamados de “desalmados”, como se tivessem perdido todo direito à dignidade.

Para cada forma de desumanização, criam-se explicações destinadas a justificar moralmente tratamentos desumanos.

Por isso, precisamos retornar a uma verdade simples e poderosa: todas as pessoas foram criadas intencionalmente por Deus, à sua imagem e semelhança.

O pecado corrompe nossa maneira de viver e de nos relacionar, mas não nos autoriza a apagar a imagem de Deus no próximo. Ninguém tem o direito de suprimir ou rebaixar a dignidade humana.

Não devemos aceitar que isso seja feito conosco nem permitir que façamos o mesmo com outras pessoas.

Das mensagens anteriores à pobreza

Na primeira mensagem da série, vimos que todo ser humano foi criado à imagem de Deus. Na segunda, aplicamos essa verdade às pessoas com deficiência.

As Escrituras proíbem que se explorem suas limitações ou que se coloquem obstáculos em seu caminho. Jesus as viu, acolheu e restaurou; e a igreja foi chamada a reconhecer seus dons e sua plena participação no corpo de Cristo.

Resumimos nossa resposta em três atitudes:

  1. confessar nossa indiferença;
  2. permitir que a Palavra transforme nosso olhar;
  3. realizar ações concretas que removam barreiras.

Agora aplicaremos o mesmo fundamento à dignidade das pessoas que vivem em situação de pobreza.

A pobreza e a dignidade humana

A pobreza possui causas diversas. Pode envolver desigualdade de oportunidades, desemprego, baixa escolaridade, enfermidades, crises familiares, decisões pessoais, exploração, políticas inadequadas e estruturas sociais e econômicas injustas.

Quase nunca podemos explicá-la por um único fator.

Entretanto, seja qual for sua origem, a pobreza nunca transforma alguém em uma pessoa menos digna.

Quando esta mensagem foi pregada, um levantamento da FGV Social, baseado em dados de 2021, estimava que 47,18% da população da Paraíba vivia com renda domiciliar mensal de até R$ 497 por pessoa. Na série de 2012 a 2021, essa proporção nunca havia ficado abaixo de 39,29%.

Esses dados ajudam a compreender a urgência do assunto para uma igreja localizada em João Pessoa, num estado marcado por desigualdades profundas.

Pobreza não significa apenas possuir pouco dinheiro. Também significa enfrentar dificuldades para obter alimentação adequada, moradia, saúde, educação, transporte, segurança, descanso e oportunidades.

A falta dessas condições ameaça o exercício da dignidade humana, mas não retira a dignidade da pessoa.

Quem possui pouco não vale menos.

Do desprezo ao acolhimento

Com frequência, especialmente nos centros de consumo, as pessoas são avaliadas pela quantidade de dinheiro que possuem e por sua capacidade de comprar.

Quem pode consumir muito recebe atenção, cordialidade e tratamento especial. Já quem dispõe de poucos recursos pode ser ignorado, vigiado com desconfiança ou tratado como alguém que não deveria estar naquele lugar.

A pobreza torna-se, então, uma espécie de marca social. A pessoa passa a ser vista como menos importante e menos digna de respeito.

Jesus nos chama a seguir na direção contrária.

“Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram’.” Mateus 25.34–36 — NVI

Jesus descreve pessoas que passam fome, sede, desabrigo, enfermidade, prisão e falta de roupas.

Elas não aparecem apenas como destinatárias distantes da caridade. O Rei se identifica com elas:

“Eu tive fome.”
“Eu tive sede.”
“Eu era estrangeiro.”
“Eu necessitei de roupas.”

Jesus não ensina que boas ações compram a entrada no Reino. As ações revelam, porém, a realidade de nossa relação com o Rei. Quem foi alcançado pelo amor de Cristo aprende a reconhecer sua presença naqueles que sofrem.

O cuidado com a pessoa necessitada não é um detalhe periférico da vida cristã. Ele evidencia que compreendemos o evangelho e reconhecemos a imagem de Deus no próximo.

Por isso, quem segue Jesus não deve desprezar as pessoas em situação de pobreza. Deve acolhê-las e agir para aliviar seu sofrimento.

Da humilhação à honra

Em sociedades profundamente desiguais, pessoas pobres nem sempre conseguem ocupar os mesmos espaços que aqueles que possuem mais recursos.

Há ambientes, portas, serviços e oportunidades que separam pessoas de acordo com sua condição econômica. Até mesmo expressões como “entrada de serviço” e “elevador de serviço” podem deixar de indicar apenas uma função e passar a comunicar que algumas pessoas pertencem a uma categoria inferior.

Muitos trabalhadores não podem desfrutar dos produtos e serviços que ajudam a produzir. Famílias pobres são pressionadas a limitar seus sonhos. Presentear os netos, oferecer boa formação aos filhos, viajar ou desfrutar de algum lazer podem ser tratados como se fossem ambições indevidas.

Assim, pouco a pouco, a sociedade lhes nega o reconhecimento de sua plena humanidade.

Jesus, porém, colocou os pobres em lugar de honra.

Em Nazaré, ele explicou sua missão lendo o profeta Isaías:

Jesus foi para Nazaré, onde ele tinha crescido. No sábado foi à sinagoga, como era seu costume. Ali ele se levantou para ler as Escrituras, e lhe deram o livro do profeta Isaías. Ele o abriu e achou o lugar onde estava escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim. Ele me escolheu para proclamar as Boas-Novas aos pobres e anunciar a liberdade aos presos. Ele me enviou para dar vista aos cegos, para libertar os que estão sendo maltratados e para anunciar o ano em que o Senhor vai favorecer o seu povo.” Lucas 4.16–19 — VFL

Jesus anunciaria as boas-novas aos pobres.

Aqueles que a sociedade frequentemente esquecia receberam lugar central em sua proclamação. O evangelho lhes anunciava que Deus os via, conhecia seu sofrimento e havia se aproximado para salvar.

Isso não significa que somente pessoas pobres precisam do evangelho. Significa que o Reino de Deus confronta as estruturas que transformam riqueza em sinal de superioridade e pobreza em motivo de vergonha.

Quem segue Jesus não deve humilhar pessoas por causa de sua condição econômica. Deve tratá-las com respeito e reconhecer nelas o mesmo valor que reconhece em qualquer outra pessoa.

A igreja não pode oferecer ajuda com uma mão e retirar a dignidade com a outra.

Cuidado que promove participação

Em nome da responsabilidade individual, algumas pessoas adotam uma espécie de “cada um por si”. Atribuem toda pobreza à falta de esforço e abandonam os necessitados à própria sorte.

Essa visão ignora que as pessoas não começam a vida com as mesmas oportunidades. Algumas famílias atravessam gerações sem acesso adequado à educação, ao trabalho digno, à moradia, à saúde e aos relacionamentos que abrem portas.

Contudo, um cuidado mal conduzido também pode produzir dependência, controle e humilhação.

A ajuda cristã não deve transformar a necessidade de alguém num instrumento de poder sobre sua vida. Não ajudamos para controlar, cobrar submissão ou manter uma pessoa permanentemente dependente de nós.

O socorro é necessário quando há fome, enfermidade, desemprego ou crise. Sempre que possível, porém, ele deve caminhar em direção à participação, à capacitação, ao trabalho e à autonomia.

Isso não significa abandonar quem continuará precisando de auxílio. Há pessoas cuja idade, enfermidade, deficiência ou circunstâncias exigirão apoio contínuo.

Autonomia não significa viver sem ninguém. Significa participar das decisões sobre a própria vida, exercer os próprios dons e não ser tratado como objeto passivo da vontade dos outros.

O cuidado cristão acolhe sem dominar, socorre sem humilhar e serve sem aprisionar.

Leis que protegiam as pessoas pobres

Em primeiro lugar, as leis de Israel procuravam impedir que a necessidade se transformasse numa prisão permanente.

O cancelamento das dívidas

“No final de cada sete anos as dívidas deverão ser canceladas. Isso deverá ser feito da seguinte forma: todo credor cancelará o empréstimo que fez ao seu próximo. Nenhum israelita exigirá pagamento de seu próximo ou de seu parente, porque foi proclamado o tempo do Senhor para o cancelamento das dívidas. Vocês poderão exigir pagamento do estrangeiro, mas terão que cancelar qualquer dívida de seus irmãos israelitas. Assim, não deverá haver pobre algum no meio de vocês, pois na terra que o Senhor, o seu Deus, lhes está dando como herança para que dela tomem posse, ele os abençoará ricamente, contanto que obedeçam em tudo ao Senhor, o seu Deus, e ponham em prática toda esta lei que hoje lhes estou dando.” Deuteronômio 15.1–5 — NVI

A cada sete anos, as dívidas deveriam ser canceladas. O objetivo era impedir que o endividamento se transformasse numa prisão permanente e atravessasse sucessivas gerações.

No mesmo capítulo, Deus ordena que o povo abra generosamente a mão ao necessitado. O versículo 4 apresenta o propósito — “não deverá haver pobre algum no meio de vocês” —, enquanto o versículo 11 reconhece a realidade de um mundo ainda marcado pela necessidade — “sempre haverá pobres na terra”.

A constatação de que a pobreza continuaria existindo não serve como desculpa para a indiferença. Pelo contrário, é exatamente por isso que o texto ordena:

“Abra livremente a mão para o seu irmão, para o necessitado e para o pobre da sua terra.”

O princípio que permanece

Em Levítico 25, o ano do jubileu determinava que a terra retornasse às famílias às quais havia sido atribuída. A terra pertencia ao Senhor, e nenhuma família deveria perdê-la definitivamente por causa de uma crise.

Outras leis permitiam que pobres, estrangeiros, órfãos e viúvas recolhessem parte da colheita deixada nos campos. O proprietário não deveria extrair até o último grão de sua terra. Parte da produção deveria permanecer acessível aos vulneráveis.

Essas leis pertencem à organização social do antigo Israel e não podem ser simplesmente transplantadas para nossa realidade. Seus princípios, porém, permanecem:

  • a vida humana é mais importante do que a acumulação;
  • a dívida não deve se transformar em escravidão permanente;
  • a propriedade traz responsabilidade diante de Deus;
  • uma comunidade justa cria condições para que os vulneráveis vivam com dignidade;
  • a generosidade não é opcional para o povo do Senhor.

Tudo o que temos deve servir não apenas ao nosso bem, mas também ao bem do próximo.

Os pobres no ministério de Jesus

Em seguida, o ministério de Jesus tornou visível o cuidado de Deus pelas pessoas pobres.

Jesus alimentou os famintos, curou enfermos, recebeu os desprezados, denunciou aqueles que exploravam os vulneráveis e anunciou as boas-novas aos que haviam perdido a esperança.

Jesus respondeu: “Voltem e anunciem a João o que vocês estão ouvindo e vendo:
os cegos veem, os mancos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as boas-novas são pregadas aos pobres.” Mateus 11.4–5 — NVI

Quando João Batista perguntou se Jesus era aquele que deveria vir, o Senhor apontou para os sinais de seu ministério.

Entre esses sinais estava esta declaração:

“As boas-novas são pregadas aos pobres.”

O evangelho não era um discurso reservado aos poderosos, instruídos e influentes. Alcançava aqueles que a sociedade ignorava e lhes anunciava o amor e o Reino de Deus.

Jesus não romantizou a pobreza, como se passar necessidade fosse algo desejável. Ele alimentou pessoas porque a fome é real. Curou porque a enfermidade faz sofrer. Acolheu porque a exclusão machuca.

Ao mesmo tempo, recusou-se a medir a importância de alguém por suas posses.

A igreja seguiu os passos de Jesus

Da mesma forma, a preocupação com as pessoas pobres apareceu desde os primeiros dias da igreja.

Quando Tiago, Pedro e João reconheceram o ministério de Paulo e Barnabé entre os gentios, fizeram um pedido:

Reconhecendo a graça que me fora concedida, Tiago, Pedro e João, tidos como colunas, estenderam a mão direita a mim e a Barnabé em sinal de comunhão. Eles concordaram em que devíamos nos dirigir aos gentios, e eles, aos circuncisos. Somente pediram que nos lembrássemos dos pobres, o que me esforcei por fazer. Gálatas 2.9–10 — NVI

Havia diferenças de campo missionário, cultura e prática. Entretanto, a lembrança dos pobres deveria acompanhar todos.

Uma igreja pode discutir muitos assuntos e desenvolver diferentes ministérios. Não pode, porém, esquecer aqueles que enfrentam necessidades.

Não havia necessitados entre eles

Em Jerusalém, os cristãos partilhavam seus recursos para atender às necessidades da comunidade:

Não havia pessoas necessitadas entre eles, pois os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro da venda e o colocavam aos pés dos apóstolos, que o distribuíam segundo a necessidade de cada um. Atos 4.34–35 — NVI

O texto não afirma que todos possuíam exatamente a mesma quantidade. Afirma algo mais concreto:

“Não havia pessoas necessitadas entre eles.”

A generosidade dos que tinham mais encontrava a necessidade dos que tinham menos.

A comunidade não tratava a pobreza como problema particular de quem sofria. A necessidade de um irmão tornava-se preocupação de todos.

Pobres entre o povo de Deus

As igrejas da Macedônia e da Acaia também levantaram uma oferta para socorrer os cristãos pobres de Jerusalém:

Agora, porém, estou de partida para Jerusalém, a serviço dos santos. Pois a Macedônia e a Acaia tiveram a alegria de contribuir para os pobres dentre os santos de Jerusalém. Tiveram prazer nisso, e de fato são devedores aos santos de Jerusalém. Pois, se os gentios participaram das bênçãos espirituais dos judeus, devem também servir aos judeus com seus bens materiais. Romanos 15.25–27 — NVI

A contribuição material era expressão de comunhão espiritual.

Os cristãos gentios haviam recebido o evangelho por meio do testemunho que veio de Jerusalém. Agora, diante da necessidade dos irmãos judeus, respondiam com seus bens.

A igreja compreendeu que a comunhão não existe apenas em palavras, reuniões e declarações de fé. Ela também se torna visível quando os recursos de alguns aliviam o sofrimento de outros.

Nossas experiências na Igreja Batista Videira

Temos vivido experiências importantes na Igreja Batista Videira.

Durante a pandemia, ajudamos irmãos que perderam renda. Também socorremos famílias que atravessaram crises financeiras repentinas e apoiamos pessoas que precisavam de formação acadêmica para buscar uma nova colocação no mercado de trabalho.

Em diferentes momentos, auxiliamos irmãos que precisavam de recursos para o pão de cada dia. Socorremos uma irmã que necessitava de uma cama especial e participamos da reconstrução de uma casa destruída pelo fogo.

Essas ações foram realizadas coletivamente. Certamente, muitos irmãos também têm servido de maneira pessoal, discreta e generosa.

Isso é muito bom, e devemos agradecer a Deus pelo que já conseguimos fazer.

Ainda há, porém, muito a aprender e realizar para que as pessoas em situação de pobreza percebam, por meio de nós, o amor de Cristo.

O que podemos fazer?

Nossa resposta não precisa começar com grandes projetos. Ela pode surgir de decisões concretas.

Na vida cotidiana

Algumas respostas estão ao alcance de todos. Na convivência diária, devemos recusar piadas e comentários que humilham os pobres, tratando com o mesmo respeito pessoas de diferentes profissões e condições econômicas.

Nossos recursos também podem servir ao próximo. Alimentos, roupas, tempo, conhecimentos, contatos e oportunidades podem aliviar necessidades e abrir novos caminhos.

Em alguns casos, um empréstimo pode ser transformado em doação. Em outros, apoiar a formação profissional será mais útil do que oferecer apenas auxílio imediato.

Também podemos fortalecer pequenos trabalhadores e empreendedores, contratar com justiça e compartilhar oportunidades de trabalho.

Como igreja e sociedade

Como igreja, precisamos organizar respostas sábias às necessidades reais da comunidade, sem humilhar, controlar ou produzir dependência.

Na vida pública, o amor ao próximo também nos leva a apoiar políticas responsáveis que protejam os vulneráveis, ampliem oportunidades e enfrentem estruturas injustas.

Algumas formas de pobreza ultrapassam a capacidade de indivíduos e igrejas locais. Por isso, exigem também ações coletivas e instituições comprometidas com a justiça.

A generosidade individual é indispensável, mas não substitui tudo o que uma sociedade precisa realizar para proteger seus membros mais vulneráveis.

O amor cristão não escolhe entre proclamar o evangelho e socorrer quem sofre. Jesus fez as duas coisas.

Criados à imagem de Deus

Há muito mais a dizer sobre esse assunto.

Entretanto, quem se dispõe a ouvir as Escrituras encontra um Deus que trabalha para resgatar e preservar a dignidade de sua criação, começando frequentemente pelos menos protegidos e pelos mais vulneráveis.

Encontramos esse cuidado nas leis do Antigo Testamento.

Vemos esse amor no ministério de Jesus.

Reconhecemos seus frutos nos primeiros passos da igreja.

Em cada um desses movimentos, somos alcançados pelo amor ativo de Deus pelas pessoas em situação de pobreza. E, quando esse amor nos alcança, somos convidados a trabalhar com o Senhor no resgate da dignidade das pessoas ao nosso redor.

Não ajudamos porque somos superiores nem servimos porque as pessoas pobres valem menos. Nós nos aproximamos porque reconhecemos nelas a mesma imagem de Deus que carregamos e o mesmo amor revelado na cruz de Cristo.

Deus nos criou humanos, à sua imagem e semelhança. Por isso, o saldo de uma conta bancária nunca poderá determinar o valor de alguém, e nenhuma condição econômica apagará sua humanidade.

Uma igreja que segue Jesus não pode permanecer indiferente quando alguém não possui o necessário para viver com dignidade.


Terceira mensagem da série “Ser humano”, escrita por Aristarco Pereira Coelho, pregada em 05/03/2023 na Igreja Batista Videira, em João Pessoa, e posteriormente revisada para publicação no blog.

12 fevereiro 2023

Ser humano: a dignidade da pessoa idosa

 


Estamos percorrendo a série de mensagens Ser humano e refletindo sobre nossa humanidade à luz das Escrituras.

Vimos que essa humanidade é uma condição comum a todos nós. Mas que condição é essa? O que realmente nos faz humanos e nos liga uns aos outros?

Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Gn 1.27 — NVI

A partir da narrativa da criação, no primeiro capítulo de Gênesis, vimos que somos criaturas. Reconhecer essa condição é reconhecer um aspecto importante de nossa humanidade.

Também destacamos duas ideias fundamentais para nossa conversa:

  1. Nossa existência não é um acidente, mas resultado da ação criadora e intencional de Deus.
  2. A assinatura de Deus está em nós, isto é, fomos criados à sua imagem.

Portanto, esses são dois aspectos fundamentais para compreendermos o que significa ser humano e a dignidade que essa condição confere a todas as pessoas, em todos os lugares e épocas.

A dignidade que precisa ser resgatada

De diversas maneiras, sociedades e grupos têm negado a plena humanidade de determinadas pessoas. Esse processo de desumanização considera o outro inferior e menos digno de respeito. No decorrer da história, isso levou sociedades inteiras a tratar diferentes grupos como subumanos.

Vimos que a dignidade humana precisa ser resgatada. Isso começa com o reconhecimento de uma verdade simples e poderosa: todas as pessoas foram criadas intencionalmente por Deus, à sua imagem e semelhança.

Embora o pecado tenha turvado essa imagem em nós, ela permanece como fundamento da dignidade que recebemos por causa de nossa condição humana. Essa dignidade não pode ser suprimida nem rebaixada.

Recordando a dignidade das pessoas em situação de pobreza

Na mensagem anterior, vimos que as Escrituras nos apresentam um Deus que age para resgatar e preservar a dignidade de sua criação, começando pelos mais vulneráveis. As pessoas que não conseguem prover o mínimo necessário para sua sobrevivência fazem parte desse grupo.

Observamos algumas leis do Antigo Testamento, olhamos para o ministério de Jesus e acompanhamos os passos da igreja, procurando identificar os movimentos produzidos pelo amor ativo de Deus pelas pessoas pobres.

Encontramos leis que determinavam o perdão das dívidas. Vimos Jesus agindo com completa empatia em favor dos necessitados. Também ouvimos o eco desse cuidado nos primeiros dias da igreja, produzindo interesse e ação para que as pessoas que se rendiam a Jesus fossem assistidas em suas necessidades.

Recordamos ainda algumas experiências que vivemos como igreja no desafio de suprir as necessidades uns dos outros:

  • ajudamos irmãos que perderam renda durante a pandemia;
  • socorremos pessoas que enfrentaram crises financeiras repentinas;
  • apoiamos irmãos que precisavam de formação acadêmica para se recolocar no mercado de trabalho;
  • temos ajudado pessoas que, em alguns momentos, precisam de auxílio para o pão de cada dia;
  • socorremos uma irmã que precisava de uma cama especial;
  • ajudamos na reconstrução de uma casa destruída pelo fogo.

Fizemos isso coletivamente, e muitas outras coisas também foram realizadas individualmente.

Compreendemos que o amor de Deus nos convida a trabalhar com ele no resgate da dignidade das pessoas pobres. Somos chamados a reconhecer em cada uma delas a imago Dei, a imagem de Deus, e a vê-las como alvo do amor demonstrado na cruz do Calvário, por meio da morte de Cristo.

Pessoas idosas

Hoje, quero falar sobre outro grupo cuja dignidade humana tem sido sistematicamente ameaçada: as pessoas idosas.

Nesta reflexão, valho-me, entre outras fontes, de ideias apresentadas pelo teólogo alemão Erhard S. Gerstenberger numa palestra dirigida a responsáveis por instituições de atendimento a pessoas idosas, realizada em Gramado, no Rio Grande do Sul, em 1978.

De acordo com a legislação brasileira, uma pessoa é considerada idosa quando completa 60 anos.

Quando esta mensagem foi pregada, estimava-se que a Paraíba tivesse mais de 500 mil pessoas idosas, das quais cerca de 80 mil tinham mais de 80 anos.

No Brasil, durante a década anterior, a parcela de pessoas com 60 anos ou mais havia passado de 11,3% para 14,7% da população. Em números absolutos, esse grupo cresceu de 22,3 milhões para 31,2 milhões de pessoas.

Confirmava-se, assim, a previsão de muitos estudiosos: a população brasileira estava envelhecendo. E não era diferente no contexto de nossas igrejas.

Diversos fatores contribuíram para esse crescimento, entre eles a redução das taxas de fecundidade, o maior acesso a medicamentos e assistência médica, os avanços da medicina, a melhoria da nutrição e a maior compreensão dos problemas que afetam a pessoa idosa.

Por isso, essa realidade tem levado muita gente a pensar e repensar a maneira como tratamos quem envelhece.

Na Paraíba e em todo o Brasil, famílias, igrejas, organizações e governos criaram muitas instituições para amparar pessoas idosas nos últimos anos de suas vidas. Esse movimento procura diminuir situações de abandono e, por isso, deve ser valorizado.

Contudo, nem sempre essas iniciativas conseguem, por si mesmas, resgatar a dignidade esquecida daqueles que já não parecem relevantes para a sociedade.

Uma pergunta necessária

O que temos a ver com isso?

Há algo a ser dito por aqueles que seguem Jesus sobre a condição de vida das pessoas idosas e sobre a perda da dignidade daqueles que um dia foram ativos e considerados relevantes, mas que hoje, muitas vezes, são desconsiderados?

Para responder a essa pergunta, começaremos pensando na condição da pessoa idosa no mundo bíblico.

As pessoas daquela época eram sensíveis às necessidades de quem envelhecia? O que os textos do Antigo e do Novo Testamento dizem sobre a maneira como as pessoas idosas devem ser tratadas?

As Escrituras não nos decepcionam. Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, encontramos orientações para uma sociedade na qual a pessoa idosa seja alvo de atenção e respeito.


“Levantem-se na presença dos idosos, honrem os anciãos, temam o seu Deus. Eu sou o Senhor.” Lv 19.32 — NVI

“Honra teu pai e tua mãe, a fim de que tenhas vida longa na terra que o Senhor, o teu Deus, te dá.” Ex 20.12 — NVI

Ouça o seu pai, que o gerou; não despreze sua mãe quando ela envelhecer. Pv 23.22 — NVI

“Mesmo na sua velhice, quando tiverem cabelos brancos, sou eu aquele, aquele que os susterá. Eu os fiz e eu os levarei; eu os sustentarei e eu os salvarei.” Is 46.4 — NVI

A beleza dos jovens está na sua força; a glória dos idosos, nos seus cabelos brancos. Pv 20.29 — NVI

No Novo Testamento, também encontramos orientações sobre o tratamento respeitoso das pessoas mais velhas:

Da mesma forma, jovens, sujeitem-se aos mais velhos. Sejam todos humildes uns para com os outros, porque “Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes”. 1 Pedro 5.5 — NVI

Não repreenda asperamente o homem idoso, mas exorte-o como se ele fosse seu pai; trate os jovens como a irmãos; as mulheres idosas, como a mães; e as moças, como a irmãs, com toda a pureza. 1 Timóteo 5.1–2 — NVI

Guardiões da tradição

Uma das razões pelas quais as pessoas idosas eram tratadas com deferência estava relacionada ao seu papel educativo.

Como guardiões da tradição, os mais velhos tinham a responsabilidade de comunicar a cultura, a fé, a sabedoria e o modo como a vida deveria ser vivida. Por isso, os textos sapienciais são claros sobre a importância de ouvir as instruções dos pais e das mães:

Ouça, meu filho, a instrução de seu pai e não despreze o ensino de sua mãe. Pv 1.8 — NVI

Meu filho, se você aceitar as minhas palavras e guardar no coração os meus mandamentos... Pv 2.1 — NVI

Meu filho, não se esqueça da minha lei, mas guarde no coração os meus mandamentos. Pv 3.1 — NVI

Guardiões da memória da fé

Também cabia aos mais velhos apresentar às novas gerações o significado das experiências de fé vividas pela comunidade.

Com filhos e netos sentados ao seu redor, eles contavam e recontavam as histórias sobre o agir de Deus:

“No futuro, quando os seus filhos lhes perguntarem: ‘Que significa isto?’, digam-lhes: Com mão poderosa o Senhor nos tirou do Egito, da terra da escravidão.” Ex 13.14 — NVI

“No futuro, quando os seus filhos lhes perguntarem: ‘O que significam estes preceitos, decretos e ordenanças que o Senhor, o nosso Deus, ordenou a vocês?’, vocês lhes responderão: ‘Fomos escravos do faraó no Egito, mas o Senhor nos tirou de lá com mão poderosa’.” Dt 6.20–21 — NVI

Essas funções faziam parte de sociedades que, comparadas à nossa, passavam por mudanças mais lentas e valorizavam a conservação do modo de vida.

A experiência das gerações anteriores, já testada ao longo do tempo, servia como referência para responder às perguntas das novas gerações.

Os métodos de trabalho, as profissões, a fabricação de ferramentas, a organização familiar e os costumes podiam atravessar longos períodos sem alterações tão rápidas quanto aquelas que experimentamos atualmente.

Nesse contexto, a comunidade valorizava muito a palavra, a experiência e as decisões das pessoas idosas. Elas funcionavam como pontos de coesão para a família, a tribo e a nação.

Quanto mais uma pessoa envelhecia, maior era a experiência acumulada que poderia compartilhar com os mais novos.

Novos tempos

Esse contexto social, relativamente favorável à valorização das pessoas idosas, permaneceu de diferentes formas até o período pré-industrial.

Com as grandes transformações iniciadas a partir da Revolução Industrial, novas maneiras de pensar, pesquisar, produzir e se relacionar começaram a abalar a antiga estabilidade social.

As mudanças tornaram-se cada vez mais rápidas e constantes.

Nesse novo cenário, pessoas que antes eram vistas como fontes de sabedoria e conhecimento passaram, muitas vezes, a ser tratadas como portadoras de opiniões dispensáveis.

Alguns consideram que já não vale a pena consultar as pessoas idosas, porque as rápidas mudanças sociais e tecnológicas as teriam deixado para trás.

Suas experiências já não parecem aplicar-se plenamente às novas situações. Seus conselhos nem sempre são considerados úteis, e a antiga condição de reconhecimento pela comunidade vai se desgastando na mesma velocidade das transformações.

A riqueza da experiência de vida dos mais velhos continua relevante, mas pode deixar de inspirar o mesmo respeito e consideração.

Nesse novo tempo, a sociedade frequentemente coloca a pessoa idosa de lado.

Nem sempre ela consegue compartilhar de maneira significativa suas experiências e seus conhecimentos com filhos e netos, como fizeram seus antepassados durante muitas gerações.

As mudanças constantes podem dificultar a compreensão de alguns acontecimentos e deixá-la fora das discussões.

O antigo papel de guardiã da tradição pode até tornar-se motivo de piada. Assim, a sociedade condena muitas pessoas idosas ao silêncio e ao isolamento.

Nesse ambiente, sobra pouco espaço para falar em respeito incondicional à pessoa idosa.

Além disso, no campo da fé, a situação não é muito diferente.

Se antes os mais velhos eram considerados mestres dos quais se poderia aprender sobre a caminhada com Deus e ouvir histórias de como ele agiu no passado, hoje, em muitos contextos, a fé dos pais é vista com desconfiança.

Pode ser considerada antiquada, criticada e, por fim, abandonada.

Onde está a dignidade da pessoa idosa?

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Ao longo da história, homens e mulheres idosos foram reconhecidos como guardiões da tradição cultural e religiosa. Receberam honra por sua contribuição às gerações futuras.

Por outro lado, em diferentes épocas e culturas, pessoas idosas também foram consideradas pesadas e incômodas para a sociedade, especialmente quando deixaram de ser produtivas ou permaneceram apegadas a valores e modos de vida considerados ultrapassados pelos mais jovens.

Há, portanto, uma ambiguidade na maneira como as pessoas idosas são tratadas.

Mesmo em nossos dias, ao mesmo tempo que várias vozes se levantam em defesa de sua dignidade, a sociedade continua cultuando a juventude e se esforçando para não envelhecer.

Empresas ainda podem preferir jovens a trabalhadores mais maduros. Academias e clínicas oferecem formas de conservar ou recuperar uma aparência jovem, por meio de exercícios, tratamentos e cirurgias.

Outro aspecto dessa ambiguidade é o poder de compra.

A pessoa idosa que acumulou patrimônio, possui renda e continua sendo uma consumidora recebe tratamento muito diferente daquela que não tem renda nem patrimônio.

De modo geral, a pessoa idosa que consome é tratada com respeito. Aquela que não possui poder de compra pode tornar-se invisível.

A formação acadêmica também influencia esse tratamento.

Quem teve oportunidade de estudar e acumular diplomas e títulos costuma receber mais respeito. Já aqueles que mal tiveram acesso à leitura e à escrita podem ser tratados como se não tivessem nada a oferecer.

Onde está, então, a dignidade da pessoa idosa?

Uma dignidade que não depende da utilidade

Quando alguém envelhece, torna-se, por meio de suas experiências, guardião da cultura, da arte e da tecnologia de seu tempo.

Essa contribuição é importante, mas pode ser facilmente relativizada. Novas tecnologias surgem, a arte e a cultura tomam novos rumos e, de repente, a pessoa idosa se percebe guardiã de coisas pelas quais poucos se interessam.

Da mesma forma, pessoas idosas são importantes guardiãs das experiências de fé. A partir do que viveram com Deus, constroem significados para as gerações futuras.

Contudo, essa importância também pode ser relativizada quando a vida muda rapidamente e os padrões de espiritualidade são desfeitos e reconstruídos.

A pessoa idosa pode, então, perceber-se apresentando modelos de fé pelos quais poucas pessoas demonstram interesse.

Onde repousa sua dignidade?

Ela repousa na permanência da imagem e semelhança de Deus em nós.

Assim Deus criou o homem à sua própria imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea ele os criou. Gn 1.27 — BKJ 1611

Todos fomos criados à imagem e semelhança de Deus.

Essa marca do Criador em nós não envelhece nem se desgasta com o tempo.

Por isso, quando o texto bíblico ordena:

“Levantem-se na presença dos idosos, honrem os anciãos, temam o seu Deus. Eu sou o Senhor”, Lv 19.32 — NVI

ele reconhece a importância das pessoas idosas como guardiãs da cultura e da fé. Acima de tudo, porém, anuncia que a dignidade humana não fica velha nem antiquada.

Ela acompanha o ser humano durante toda a vida.

Resgatando a dignidade

Diante disso, uma vez que ancoramos a dignidade da pessoa idosa na Palavra de Deus, precisamos perguntar:

Que resposta podemos oferecer, como igreja de Jesus, às ameaças que as pessoas idosas sofrem contra sua dignidade?

A resposta que proponho é a mesma que apresentamos diante dos desafios relacionados à dignidade das pessoas com deficiência:

  1. confessar nosso pecado;
  2. expor nossa mente e nosso coração à Palavra de Deus;
  3. fazer algo real por pessoas reais.

1. Confessar

Confessar é reconhecer.

O apóstolo João fala sobre a importância da confissão nos seguintes termos:

Se dissermos que não temos pecados, estamos enganando a nós mesmos e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, Deus nos perdoará e nos purificará de toda injustiça, pois ele é fiel e justo. 1 Jo 1.8–9 — VFL

Os discípulos de Jesus devem ser exemplares na confissão.

Se não temos tratado as pessoas idosas com dignidade, precisamos reconhecer isso.

Se somos seletivos ao oferecer-lhes respeito, também precisamos admitir.

Devemos examinar se estamos nos tornando utilitaristas em relação às pessoas idosas, isto é, se o valor que damos a elas depende de sua capacidade de nos oferecer algo em troca.

Você pode confessar seus pecados sobre essa questão numa conversa íntima com Deus. Também pode procurar um irmão maduro na caminhada da fé e conversar com ele sobre suas lutas.

Tiago, irmão de Jesus, ensina que a confissão e a oração mútua produzem cura:

Portanto, confessem os seus pecados uns aos outros e orem uns pelos outros para serem curados. A oração de um justo é poderosa e eficaz. Tg 5.16 — NVI

Esse é o primeiro passo de nossa resposta: confessar.

2. Expor-se à Palavra

A segunda parte de nossa resposta às tentativas de negar à pessoa idosa a dignidade que lhe é inerente consiste em nos expormos ao ensino da Palavra de Deus.

Precisamos permitir que ela transforme nossa forma de pensar.

O apóstolo Paulo fala sobre essa transformação:

Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Rm 12.2 — NVI

Diante desse conselho apostólico, vale recordar algumas orientações bíblicas sobre o respeito à dignidade das pessoas idosas:

“Honra teu pai e tua mãe, a fim de que tenhas vida longa na terra que o Senhor, o teu Deus, te dá.” Ex 20.12 — NVI

Filhos, obedeçam a seus pais no Senhor, pois isso é justo. Ef 6.1 — NVI

Não repreenda asperamente o homem idoso, mas exorte-o como se ele fosse seu pai; trate os jovens como a irmãos; as mulheres idosas, como a mães; e as moças, como a irmãs, com toda a pureza. 1 Tm 5.1–2 — NVI

Da mesma forma, jovens, sujeitem-se aos mais velhos. Sejam todos humildes uns para com os outros, porque “Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes”. 1 Pe 5.5 — NVI

O ponto de partida do ensino bíblico sobre o respeito e a proteção da dignidade da pessoa idosa já se encontra nos Dez Mandamentos.

Entre as orientações fundamentais sobre nossa relação com Deus e com o próximo, há espaço para o mandamento de honrar aqueles que vieram antes de nós.

Paulo fala aos filhos que ainda estão sob a tutela dos pais, ressaltando a obediência que lhes devem. Também orienta os líderes da igreja a tratar as pessoas idosas com gentileza e cordialidade.

Pedro relaciona o reconhecimento devido aos mais velhos à humildade que deve caracterizar toda a comunidade.

Esse é o segundo passo de nossa resposta: permitir que o ensino bíblico molde nossa maneira de enxergar o mundo e viver a vida.

3. Fazer

Confessar e expor-se à Palavra são preparativos para agir.

Fazer algo real por uma pessoa real, com nome e história, é o terceiro passo de nossa resposta às ameaças contra a dignidade da pessoa idosa.

Formas concretas de honrar

Valho-me aqui de sugestões apresentadas por Eron Franciulli Coutinho Jr. e Israel Belo de Azevedo em textos sobre esse tema:

  • sirva as pessoas idosas em suas necessidades físicas, financeiras, sociais, emocionais e espirituais;
  • respeite e considere suas opiniões e vontades, sempre protegendo seu bem-estar e sua vida pessoal;
  • seja paciente com suas limitações e dificuldades;
  • valorize seus esforços, conhecimentos e sabedoria;
  • peça conselhos e orientações;
  • reconheça publicamente o bem que prestaram à família, à igreja e à sociedade;
  • procure uma pessoa idosa disposta a ensinar e torne-se alguém disposto a aprender;
  • valorize seus pais, aqueles que vieram antes de você, seus colegas de trabalho mais antigos e as pessoas investidas de autoridade.

Sempre há algo que podemos aprender com elas.

Aprenda a ouvir os mais velhos

Outra forma prática de preservar a dignidade das pessoas idosas e, ao mesmo tempo, aprender com elas é ouvi-las.

Ouça os mais velhos para aprender com os erros deles. Repetir os mesmos erros cometidos pelas gerações anteriores não é uma boa prática de vida. Ao ouvir as pessoas idosas, podemos evitar essa triste repetição.

Ouça os mais velhos para fazer como eles. Cada pessoa idosa de nossa família ou igreja possui alguma experiência, uma sabedoria própria e um jeito de viver ou fazer determinadas coisas que já demonstrou funcionar. Ao ouvi-la, podemos poupar tempo e sofrimento.

Ouça os mais velhos para fazer diferente deles. Pessoas idosas são únicas e diferentes de nós. Essas diferenças podem contribuir para a construção de nossa própria identidade. Ao ouvi-las, percebemos o que desejamos preservar e também aquilo que pretendemos fazer de outra forma.

Ouça os mais velhos para ir além deles. Um dos grandes presentes que uma geração pode oferecer à anterior é tornar-se uma versão aperfeiçoada daqueles que vieram antes. Ao ouvi-los, recebemos a oportunidade de seguir adiante a partir do caminho que percorreram.

Ouça os mais velhos como uma pausa para reflexão. Não despreze nem descarte imediatamente o aviso de uma pessoa idosa. Para você, o caminho pode ser novo; para ela, talvez não seja.

Pare, ouça, pondere, dialogue, ore e, depois, siga conforme o entendimento que receber do Senhor.

A imagem de Deus não envelhece

A dignidade humana da pessoa idosa não decorre de suas experiências de vida, por mais enriquecedoras que sejam. Sua contribuição como guardiã da tradição cultural, da arte, da técnica e da fé é muito importante, mas também não é ela que cria essa dignidade.

O patrimônio acumulado e os rendimentos alcançados podem revelar planejamento e trabalho. Títulos e graus acadêmicos também merecem reconhecimento. Nada disso, porém, torna uma pessoa mais ou menos digna.

As pessoas idosas devem ter sua dignidade humana reconhecida, preservada e defendida porque a imagem e a semelhança de Deus presentes nelas não envelhecem.

Até o fim de suas vidas, carregam a marca do Criador de todas as coisas.

Por isso, são dignas.


Quarta mensagem da série “Ser humano”, escrita por Aristarco Pereira Coelho, pregada na Igreja Batista Videira, em João Pessoa, e posteriormente revisada para publicação no blog.