09 maio 2025

Caifás: o medo de perder o controle

 




Caifás

A história da crucificação de Jesus não pode ser compreendida sem um olhar atento para os bastidores do poder religioso e político de sua época. A cruz foi instrumento da violência romana — mas também o desfecho de uma negociação sombria entre religião e conveniência. Se Pedro representa o discípulo que tropeça e volta, e Maria de Betânia, a adoradora que se entrega, Caifás representa o sistema com medo perder o controle — e disposto a sacrificar a verdade para manter seus privilégios.

Um dos personagens mais desconfortáveis dos relatos da Paixão de Cristo, ele não foi um traidor impulsivo como Judas, nem um discípulo arrependido como Pedro. Estamos falando de um sacerdote. Um líder religioso. Um homem que conhecia as Escrituras e ocupava o lugar mais sagrado do sistema judaico. Ainda assim, foi ele quem arquitetou a condenação do Messias. Mas o mais perturbador sobre nosso personagem é que ele não está tão longe de nós quanto gostaríamos de imaginar.

O Sumo Sacerdote não negou Jesus por ignorância, mas calculadamente. Ele não se afastou do Filho de Deus por medo, mas por conveniência. Sua história representa o tipo mais perigoso de negação: 
aquela que é fria, estratégica, revestida de religiosidade e desconectada da graça. E esse tipo de fé ainda resiste à cruz nos ambientes religiosos em nossos dias.

Ainda que para alguns ela pareça um nome entre outros nos Evangelhos, Caifás é o símbolo destacado de uma espiritualidade capturada, institucionalizada, interessada mais na manutenção da ordem do que na revelação da verdade. Ele encarna aquilo que acontece quando o culto é tomado pela política, o templo se rende aos cálculos e o sadio zelo religioso é vencido pelo medo da perder poder.

Sua trajetória expõe uma das tensões mais dramáticas da fé cristã: o que acontece quando a religião, em vez de conduzir a Cristo, se transforma num escudo contra a cruz? O sumo sacerdote que articulou a morte de Jesus não era um estranho ao culto, ao templo ou à Lei — ele era o guardião do sagrado institucionalizado. Mas foi esse zelo deformado que o tornou incapaz de reconhecer o Messias que ali estava. A cruz era inaceitável não porque fosse incompreensível, mas porque ameaçava o sistema que o sustentava.




27 abril 2025

 


Pedro

Pedro era intenso. Ele era daqueles que falam o que sentem, que prometem sem pensar duas vezes, que lideram com o coração. Sua história é marcada por uma série de contrastes que soam bem familiares: promessas feitas com fervor… seguidas por ações que fraquejam; intenções verdadeiras… travadas por impulsos humanos; amor sincero… ofuscado pelo medo e pela vergonha.

E caiu feio, mas não porque era fraco. A questão é que ele se achava forte demais. E sim, ele traiu Jesus, negando que o conhecesse, mas não era porque o amor dele por Jesus fosse uma farsa — ele confiava demais em si mesmo, na própria lealdade, no próprio desempenho. E isso nos ensina algo poderoso: quando nossa autoconfiança não passa pela cruz, ela vira armadilha e nos faz vestir máscaras, assumir poses que não conseguimos sustentar, e construir uma fé apoiada em areia movediça.

A gente vive pressionado a parecer forte, eficiente, resolvido, brilhante. Mas Jesus não está pedindo nada disso. A cruz aponta outro caminho — o da vulnerabilidade que se rende, da fraqueza que se entrega, da coragem de dizer: 
“Senhor, eu preciso da Tua graça. Sem Ti, eu caio.”

Quando a coragem é insuficiente

Pedro sempre se destacou entre os discípulos como aquele que tomava a dianteira. Era ousado, decidido, corajoso. Ao ouvir que Jesus iria para um lugar onde eles não poderiam segui-lo imediatamente, Pedro prontamente respondeu: “Darei a minha vida por ti!” (João 13:37). Suas palavras revelavam um coração comprometido, mas também uma confiança excessiva em sua própria disposição e força moral.

Richard Bauckham, ao analisar essa cena no capítulo 3 de Ao Pé da Cruz, destaca que Pedro, como muitos discípulos de Jesus, ainda não percebera que os passos do Mestre em direção ao seu Reino não se dariam por bravura ou pela força da lealdade emocional, mas pela entrega à cruz — algo que desconcertava até os mais próximos. Pedro, ainda preso a concepções heroicas de fidelidade, não estava preparado para enfrentar o escândalo da cruz.

Aliás, o evangelho de João mostra que, mesmo antes da negação, Pedro já revelava sua incompreensão sobre o que significava realmente seguir Jesus. No Getsêmani, quando os soldados vieram prender o Mestre (João 18:10), ele saca uma espada e fere Malco, o servo do sumo sacerdote, numa tentativa desesperada de defender Jesus, no braço mesmo. Pedro queria proteger o Salvador com sua espada, quando o  caminho do próprio Jesus era o da rendição ao plano de Deus. A fidelidade que ele imaginava oferecer a Cristo não estava enraizada na cruz, mas no heroísmo impulsivo.

Em nossos dias, essa mesma atitude se repete em outras situações. Valorizamos o desempenho, a autoconfiança e a capacidade de vencer pelos próprios méritos. É um modelo de sucesso que exige força e resiliência. E, muitas vezes, esse padrão é importado para a vida cristã. Acabamos construindo uma fé medida pelo desempenho, onde depender de Deus não é algo popular e a coragem é confundida com espiritualidade. A questão é que, como aconteceu com Pedro, esse tipo de coragem não tem fundamentos sólidos e logo desmorona quando a pressão aumenta.






 

Maria de Betânia

Entre tantos rostos que se aproximaram de Jesus nos dias que antecederam a cruz, há um que se destaca não pelos discursos, nem pelos feitos extraordinários — mas por sua adoração silenciosa e profunda. Maria de Betânia não pregou em praças, não fez milagres, nem enfrentou os religiosos do seu tempo. Mas ela esteve onde poucos tiveram coragem de estar: aos pés do Salvador.

Este volume da série 
À Sombra da Cruz é um convite para caminhar com Maria em três momentos marcantes de sua história — quando ela ouve, quando ela chora e quando ela se entrega. Em cada cena, somos levados a refletir sobre questões fundamentais da fé:

O que temos colocado no centro da nossa vida?
Estamos dispostos a derramar o que temos de mais precioso por amor a Jesus?
Continuaremos fiéis quando a cruz se aproximar?

O Valor da Presença de Cristo

A crucificação de Jesus não foi só um evento distante no tempo — foi um momento que tocou profundamente cada pessoa envolvida. Todos os que estiveram ali, de algum modo, tiveram suas vidas marcadas. Pedro sentiu o peso da culpa por ter negado seu Mestre. Pilatos e Caifás revelaram como o medo e o orgulho podem cegar a justiça. Barrabás foi o símbolo da graça que substitui o culpado pelo inocente. Simão Cirineu foi surpreendido com a missão de carregar uma cruz que não era sua. Nicodemos enfrentou o conflito interno entre sua religiosidade e a fé verdadeira.

Mas, antes que a cruz fosse levantada, há uma cena que merece atenção: a de Maria de Betânia. Ela não estava envolvida em debates teológicos ou em posições de liderança. Ela simplesmente se derramava. Maria nos mostra que a verdadeira adoração é aquela que nos leva aos pés da cruz.

Maria de Betânia não era conhecida por grandes discursos ou feitos públicos. O que a tornava especial era sua postura de entrega, sua disposição de estar aos pés de Jesus. Enquanto muitos estavam ocupados com seus interesses, dúvidas ou status, ela escolhia o lugar mais simples e mais profundo: a presença de Cristo. O exemplo dela nos provoca: o que temos colocado como prioridade na nossa vida?

Vivemos dias acelerados. São compromissos, tarefas, metas. Corremos de um lado para o outro tentando dar conta de tudo — trabalho, família, ministério, vida pessoal. E até nosso tempo com Deus, muitas vezes, entra nessa lógica de “obrigação”. Mas Maria nos ensina algo diferente: mais do que fazer coisas para Deus, Ele deseja que a gente simplesmente esteja com Ele.

Se Jesus estivesse aqui, hoje, de forma visível... onde Ele nos encontraria? Como Marta, estressados e ocupados demais para parar? Como os fariseus, apenas observando de longe, sem entregar o coração? Ou como Maria, sentados aos pés dele, com atenção, afeto e entrega total?

Neste momento, vamos olhar para o exemplo de Maria e aprender com ela o que significa adorar com profundidade, perceber os tempos espirituais e manter nossa fidelidade mesmo quando tudo ao redor parece desabar. Sua história nos convida a uma pergunta sincera: estamos realmente aos pés de Cristo... ou apenas correndo ao redor dele, sem parar para estar?


05 março 2023

Ser humano: a dignidade das pessoas em situação de pobreza


Esta é a terceira mensagem da série Ser humano, na qual refletimos sobre nossa humanidade à luz das Escrituras.

Nas duas primeiras mensagens, vimos que nossa existência resulta da ação criadora e intencional de Deus e que todo ser humano carrega a sua imagem. Agora perguntamos: o que essas verdades exigem de nós diante da pobreza?

Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Gênesis 1.27 — NVI

A partir da narrativa da criação, destacamos duas afirmações fundamentais.

A primeira é que nossa existência não é um acidente, mas resultado da ação criadora e intencional de Deus.

A segunda é que a assinatura de Deus está em nós. Deus criou homens e mulheres à sua imagem e semelhança.

Essas verdades definem nossa humanidade e fundamentam nossa dignidade. Além disso, não servem apenas para explicar nossa origem. Elas devem transformar a maneira como enxergamos a nós mesmos, tratamos as outras pessoas e organizamos nossa vida em sociedade.

Quando a dignidade humana é negada

Ao longo da história, sociedades inteiras trataram determinados grupos como se fossem menos humanos.

Esse processo é chamado de desumanização. Ele acontece quando alguém deixa de ser reconhecido como pessoa e passa a ser tratado como objeto, ameaça, estorvo, mercadoria ou vida descartável.

Muitos discursos descreveram pessoas com deficiência como se elas não possuíssem plena humanidade. Colonizadores e grupos dominantes classificaram povos negros e indígenas como inferiores para justificar sua exploração. Idosos são abandonados como se já não fossem gente. Crianças ainda no ventre podem ser reduzidas a problemas que devem ser eliminados. Criminosos são chamados de “desalmados”, como se tivessem perdido todo direito à dignidade.

Para cada forma de desumanização, criam-se explicações destinadas a justificar moralmente tratamentos desumanos.

Por isso, precisamos retornar a uma verdade simples e poderosa: todas as pessoas foram criadas intencionalmente por Deus, à sua imagem e semelhança.

O pecado corrompe nossa maneira de viver e de nos relacionar, mas não nos autoriza a apagar a imagem de Deus no próximo. Ninguém tem o direito de suprimir ou rebaixar a dignidade humana.

Não devemos aceitar que isso seja feito conosco nem permitir que façamos o mesmo com outras pessoas.

Das mensagens anteriores à pobreza

Na primeira mensagem da série, vimos que todo ser humano foi criado à imagem de Deus. Na segunda, aplicamos essa verdade às pessoas com deficiência.

As Escrituras proíbem que se explorem suas limitações ou que se coloquem obstáculos em seu caminho. Jesus as viu, acolheu e restaurou; e a igreja foi chamada a reconhecer seus dons e sua plena participação no corpo de Cristo.

Resumimos nossa resposta em três atitudes:

  1. confessar nossa indiferença;
  2. permitir que a Palavra transforme nosso olhar;
  3. realizar ações concretas que removam barreiras.

Agora aplicaremos o mesmo fundamento à dignidade das pessoas que vivem em situação de pobreza.

A pobreza e a dignidade humana

A pobreza possui causas diversas. Pode envolver desigualdade de oportunidades, desemprego, baixa escolaridade, enfermidades, crises familiares, decisões pessoais, exploração, políticas inadequadas e estruturas sociais e econômicas injustas.

Quase nunca podemos explicá-la por um único fator.

Entretanto, seja qual for sua origem, a pobreza nunca transforma alguém em uma pessoa menos digna.

Quando esta mensagem foi pregada, um levantamento da FGV Social, baseado em dados de 2021, estimava que 47,18% da população da Paraíba vivia com renda domiciliar mensal de até R$ 497 por pessoa. Na série de 2012 a 2021, essa proporção nunca havia ficado abaixo de 39,29%.

Esses dados ajudam a compreender a urgência do assunto para uma igreja localizada em João Pessoa, num estado marcado por desigualdades profundas.

Pobreza não significa apenas possuir pouco dinheiro. Também significa enfrentar dificuldades para obter alimentação adequada, moradia, saúde, educação, transporte, segurança, descanso e oportunidades.

A falta dessas condições ameaça o exercício da dignidade humana, mas não retira a dignidade da pessoa.

Quem possui pouco não vale menos.

Do desprezo ao acolhimento

Com frequência, especialmente nos centros de consumo, as pessoas são avaliadas pela quantidade de dinheiro que possuem e por sua capacidade de comprar.

Quem pode consumir muito recebe atenção, cordialidade e tratamento especial. Já quem dispõe de poucos recursos pode ser ignorado, vigiado com desconfiança ou tratado como alguém que não deveria estar naquele lugar.

A pobreza torna-se, então, uma espécie de marca social. A pessoa passa a ser vista como menos importante e menos digna de respeito.

Jesus nos chama a seguir na direção contrária.

“Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram’.” Mateus 25.34–36 — NVI

Jesus descreve pessoas que passam fome, sede, desabrigo, enfermidade, prisão e falta de roupas.

Elas não aparecem apenas como destinatárias distantes da caridade. O Rei se identifica com elas:

“Eu tive fome.”
“Eu tive sede.”
“Eu era estrangeiro.”
“Eu necessitei de roupas.”

Jesus não ensina que boas ações compram a entrada no Reino. As ações revelam, porém, a realidade de nossa relação com o Rei. Quem foi alcançado pelo amor de Cristo aprende a reconhecer sua presença naqueles que sofrem.

O cuidado com a pessoa necessitada não é um detalhe periférico da vida cristã. Ele evidencia que compreendemos o evangelho e reconhecemos a imagem de Deus no próximo.

Por isso, quem segue Jesus não deve desprezar as pessoas em situação de pobreza. Deve acolhê-las e agir para aliviar seu sofrimento.

Da humilhação à honra

Em sociedades profundamente desiguais, pessoas pobres nem sempre conseguem ocupar os mesmos espaços que aqueles que possuem mais recursos.

Há ambientes, portas, serviços e oportunidades que separam pessoas de acordo com sua condição econômica. Até mesmo expressões como “entrada de serviço” e “elevador de serviço” podem deixar de indicar apenas uma função e passar a comunicar que algumas pessoas pertencem a uma categoria inferior.

Muitos trabalhadores não podem desfrutar dos produtos e serviços que ajudam a produzir. Famílias pobres são pressionadas a limitar seus sonhos. Presentear os netos, oferecer boa formação aos filhos, viajar ou desfrutar de algum lazer podem ser tratados como se fossem ambições indevidas.

Assim, pouco a pouco, a sociedade lhes nega o reconhecimento de sua plena humanidade.

Jesus, porém, colocou os pobres em lugar de honra.

Em Nazaré, ele explicou sua missão lendo o profeta Isaías:

Jesus foi para Nazaré, onde ele tinha crescido. No sábado foi à sinagoga, como era seu costume. Ali ele se levantou para ler as Escrituras, e lhe deram o livro do profeta Isaías. Ele o abriu e achou o lugar onde estava escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim. Ele me escolheu para proclamar as Boas-Novas aos pobres e anunciar a liberdade aos presos. Ele me enviou para dar vista aos cegos, para libertar os que estão sendo maltratados e para anunciar o ano em que o Senhor vai favorecer o seu povo.” Lucas 4.16–19 — VFL

Jesus anunciaria as boas-novas aos pobres.

Aqueles que a sociedade frequentemente esquecia receberam lugar central em sua proclamação. O evangelho lhes anunciava que Deus os via, conhecia seu sofrimento e havia se aproximado para salvar.

Isso não significa que somente pessoas pobres precisam do evangelho. Significa que o Reino de Deus confronta as estruturas que transformam riqueza em sinal de superioridade e pobreza em motivo de vergonha.

Quem segue Jesus não deve humilhar pessoas por causa de sua condição econômica. Deve tratá-las com respeito e reconhecer nelas o mesmo valor que reconhece em qualquer outra pessoa.

A igreja não pode oferecer ajuda com uma mão e retirar a dignidade com a outra.

Cuidado que promove participação

Em nome da responsabilidade individual, algumas pessoas adotam uma espécie de “cada um por si”. Atribuem toda pobreza à falta de esforço e abandonam os necessitados à própria sorte.

Essa visão ignora que as pessoas não começam a vida com as mesmas oportunidades. Algumas famílias atravessam gerações sem acesso adequado à educação, ao trabalho digno, à moradia, à saúde e aos relacionamentos que abrem portas.

Contudo, um cuidado mal conduzido também pode produzir dependência, controle e humilhação.

A ajuda cristã não deve transformar a necessidade de alguém num instrumento de poder sobre sua vida. Não ajudamos para controlar, cobrar submissão ou manter uma pessoa permanentemente dependente de nós.

O socorro é necessário quando há fome, enfermidade, desemprego ou crise. Sempre que possível, porém, ele deve caminhar em direção à participação, à capacitação, ao trabalho e à autonomia.

Isso não significa abandonar quem continuará precisando de auxílio. Há pessoas cuja idade, enfermidade, deficiência ou circunstâncias exigirão apoio contínuo.

Autonomia não significa viver sem ninguém. Significa participar das decisões sobre a própria vida, exercer os próprios dons e não ser tratado como objeto passivo da vontade dos outros.

O cuidado cristão acolhe sem dominar, socorre sem humilhar e serve sem aprisionar.

Leis que protegiam as pessoas pobres

Em primeiro lugar, as leis de Israel procuravam impedir que a necessidade se transformasse numa prisão permanente.

O cancelamento das dívidas

“No final de cada sete anos as dívidas deverão ser canceladas. Isso deverá ser feito da seguinte forma: todo credor cancelará o empréstimo que fez ao seu próximo. Nenhum israelita exigirá pagamento de seu próximo ou de seu parente, porque foi proclamado o tempo do Senhor para o cancelamento das dívidas. Vocês poderão exigir pagamento do estrangeiro, mas terão que cancelar qualquer dívida de seus irmãos israelitas. Assim, não deverá haver pobre algum no meio de vocês, pois na terra que o Senhor, o seu Deus, lhes está dando como herança para que dela tomem posse, ele os abençoará ricamente, contanto que obedeçam em tudo ao Senhor, o seu Deus, e ponham em prática toda esta lei que hoje lhes estou dando.” Deuteronômio 15.1–5 — NVI

A cada sete anos, as dívidas deveriam ser canceladas. O objetivo era impedir que o endividamento se transformasse numa prisão permanente e atravessasse sucessivas gerações.

No mesmo capítulo, Deus ordena que o povo abra generosamente a mão ao necessitado. O versículo 4 apresenta o propósito — “não deverá haver pobre algum no meio de vocês” —, enquanto o versículo 11 reconhece a realidade de um mundo ainda marcado pela necessidade — “sempre haverá pobres na terra”.

A constatação de que a pobreza continuaria existindo não serve como desculpa para a indiferença. Pelo contrário, é exatamente por isso que o texto ordena:

“Abra livremente a mão para o seu irmão, para o necessitado e para o pobre da sua terra.”

O princípio que permanece

Em Levítico 25, o ano do jubileu determinava que a terra retornasse às famílias às quais havia sido atribuída. A terra pertencia ao Senhor, e nenhuma família deveria perdê-la definitivamente por causa de uma crise.

Outras leis permitiam que pobres, estrangeiros, órfãos e viúvas recolhessem parte da colheita deixada nos campos. O proprietário não deveria extrair até o último grão de sua terra. Parte da produção deveria permanecer acessível aos vulneráveis.

Essas leis pertencem à organização social do antigo Israel e não podem ser simplesmente transplantadas para nossa realidade. Seus princípios, porém, permanecem:

  • a vida humana é mais importante do que a acumulação;
  • a dívida não deve se transformar em escravidão permanente;
  • a propriedade traz responsabilidade diante de Deus;
  • uma comunidade justa cria condições para que os vulneráveis vivam com dignidade;
  • a generosidade não é opcional para o povo do Senhor.

Tudo o que temos deve servir não apenas ao nosso bem, mas também ao bem do próximo.

Os pobres no ministério de Jesus

Em seguida, o ministério de Jesus tornou visível o cuidado de Deus pelas pessoas pobres.

Jesus alimentou os famintos, curou enfermos, recebeu os desprezados, denunciou aqueles que exploravam os vulneráveis e anunciou as boas-novas aos que haviam perdido a esperança.

Jesus respondeu: “Voltem e anunciem a João o que vocês estão ouvindo e vendo:
os cegos veem, os mancos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as boas-novas são pregadas aos pobres.” Mateus 11.4–5 — NVI

Quando João Batista perguntou se Jesus era aquele que deveria vir, o Senhor apontou para os sinais de seu ministério.

Entre esses sinais estava esta declaração:

“As boas-novas são pregadas aos pobres.”

O evangelho não era um discurso reservado aos poderosos, instruídos e influentes. Alcançava aqueles que a sociedade ignorava e lhes anunciava o amor e o Reino de Deus.

Jesus não romantizou a pobreza, como se passar necessidade fosse algo desejável. Ele alimentou pessoas porque a fome é real. Curou porque a enfermidade faz sofrer. Acolheu porque a exclusão machuca.

Ao mesmo tempo, recusou-se a medir a importância de alguém por suas posses.

A igreja seguiu os passos de Jesus

Da mesma forma, a preocupação com as pessoas pobres apareceu desde os primeiros dias da igreja.

Quando Tiago, Pedro e João reconheceram o ministério de Paulo e Barnabé entre os gentios, fizeram um pedido:

Reconhecendo a graça que me fora concedida, Tiago, Pedro e João, tidos como colunas, estenderam a mão direita a mim e a Barnabé em sinal de comunhão. Eles concordaram em que devíamos nos dirigir aos gentios, e eles, aos circuncisos. Somente pediram que nos lembrássemos dos pobres, o que me esforcei por fazer. Gálatas 2.9–10 — NVI

Havia diferenças de campo missionário, cultura e prática. Entretanto, a lembrança dos pobres deveria acompanhar todos.

Uma igreja pode discutir muitos assuntos e desenvolver diferentes ministérios. Não pode, porém, esquecer aqueles que enfrentam necessidades.

Não havia necessitados entre eles

Em Jerusalém, os cristãos partilhavam seus recursos para atender às necessidades da comunidade:

Não havia pessoas necessitadas entre eles, pois os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro da venda e o colocavam aos pés dos apóstolos, que o distribuíam segundo a necessidade de cada um. Atos 4.34–35 — NVI

O texto não afirma que todos possuíam exatamente a mesma quantidade. Afirma algo mais concreto:

“Não havia pessoas necessitadas entre eles.”

A generosidade dos que tinham mais encontrava a necessidade dos que tinham menos.

A comunidade não tratava a pobreza como problema particular de quem sofria. A necessidade de um irmão tornava-se preocupação de todos.

Pobres entre o povo de Deus

As igrejas da Macedônia e da Acaia também levantaram uma oferta para socorrer os cristãos pobres de Jerusalém:

Agora, porém, estou de partida para Jerusalém, a serviço dos santos. Pois a Macedônia e a Acaia tiveram a alegria de contribuir para os pobres dentre os santos de Jerusalém. Tiveram prazer nisso, e de fato são devedores aos santos de Jerusalém. Pois, se os gentios participaram das bênçãos espirituais dos judeus, devem também servir aos judeus com seus bens materiais. Romanos 15.25–27 — NVI

A contribuição material era expressão de comunhão espiritual.

Os cristãos gentios haviam recebido o evangelho por meio do testemunho que veio de Jerusalém. Agora, diante da necessidade dos irmãos judeus, respondiam com seus bens.

A igreja compreendeu que a comunhão não existe apenas em palavras, reuniões e declarações de fé. Ela também se torna visível quando os recursos de alguns aliviam o sofrimento de outros.

Nossas experiências na Igreja Batista Videira

Temos vivido experiências importantes na Igreja Batista Videira.

Durante a pandemia, ajudamos irmãos que perderam renda. Também socorremos famílias que atravessaram crises financeiras repentinas e apoiamos pessoas que precisavam de formação acadêmica para buscar uma nova colocação no mercado de trabalho.

Em diferentes momentos, auxiliamos irmãos que precisavam de recursos para o pão de cada dia. Socorremos uma irmã que necessitava de uma cama especial e participamos da reconstrução de uma casa destruída pelo fogo.

Essas ações foram realizadas coletivamente. Certamente, muitos irmãos também têm servido de maneira pessoal, discreta e generosa.

Isso é muito bom, e devemos agradecer a Deus pelo que já conseguimos fazer.

Ainda há, porém, muito a aprender e realizar para que as pessoas em situação de pobreza percebam, por meio de nós, o amor de Cristo.

O que podemos fazer?

Nossa resposta não precisa começar com grandes projetos. Ela pode surgir de decisões concretas.

Na vida cotidiana

Algumas respostas estão ao alcance de todos. Na convivência diária, devemos recusar piadas e comentários que humilham os pobres, tratando com o mesmo respeito pessoas de diferentes profissões e condições econômicas.

Nossos recursos também podem servir ao próximo. Alimentos, roupas, tempo, conhecimentos, contatos e oportunidades podem aliviar necessidades e abrir novos caminhos.

Em alguns casos, um empréstimo pode ser transformado em doação. Em outros, apoiar a formação profissional será mais útil do que oferecer apenas auxílio imediato.

Também podemos fortalecer pequenos trabalhadores e empreendedores, contratar com justiça e compartilhar oportunidades de trabalho.

Como igreja e sociedade

Como igreja, precisamos organizar respostas sábias às necessidades reais da comunidade, sem humilhar, controlar ou produzir dependência.

Na vida pública, o amor ao próximo também nos leva a apoiar políticas responsáveis que protejam os vulneráveis, ampliem oportunidades e enfrentem estruturas injustas.

Algumas formas de pobreza ultrapassam a capacidade de indivíduos e igrejas locais. Por isso, exigem também ações coletivas e instituições comprometidas com a justiça.

A generosidade individual é indispensável, mas não substitui tudo o que uma sociedade precisa realizar para proteger seus membros mais vulneráveis.

O amor cristão não escolhe entre proclamar o evangelho e socorrer quem sofre. Jesus fez as duas coisas.

Criados à imagem de Deus

Há muito mais a dizer sobre esse assunto.

Entretanto, quem se dispõe a ouvir as Escrituras encontra um Deus que trabalha para resgatar e preservar a dignidade de sua criação, começando frequentemente pelos menos protegidos e pelos mais vulneráveis.

Encontramos esse cuidado nas leis do Antigo Testamento.

Vemos esse amor no ministério de Jesus.

Reconhecemos seus frutos nos primeiros passos da igreja.

Em cada um desses movimentos, somos alcançados pelo amor ativo de Deus pelas pessoas em situação de pobreza. E, quando esse amor nos alcança, somos convidados a trabalhar com o Senhor no resgate da dignidade das pessoas ao nosso redor.

Não ajudamos porque somos superiores nem servimos porque as pessoas pobres valem menos. Nós nos aproximamos porque reconhecemos nelas a mesma imagem de Deus que carregamos e o mesmo amor revelado na cruz de Cristo.

Deus nos criou humanos, à sua imagem e semelhança. Por isso, o saldo de uma conta bancária nunca poderá determinar o valor de alguém, e nenhuma condição econômica apagará sua humanidade.

Uma igreja que segue Jesus não pode permanecer indiferente quando alguém não possui o necessário para viver com dignidade.


Terceira mensagem da série “Ser humano”, escrita por Aristarco Pereira Coelho, pregada em 05/03/2023 na Igreja Batista Videira, em João Pessoa, e posteriormente revisada para publicação no blog.

29 janeiro 2023

Ser humano: a dignidade das pessoas com deficiência

 


Na primeira mensagem da série Ser humano, começamos a refletir sobre nossa humanidade à luz das Escrituras.

Vimos que essa humanidade é uma condição comum a todos nós, uma realidade da qual não podemos fugir. Mas que condição é essa? O que realmente nos faz humanos e nos liga uns aos outros? O que é ser humano?

Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Gn 1.27 — NVI

A partir da narrativa da criação, no primeiro capítulo de Gênesis, vimos que somos criaturas. Reconhecer essa condição é parte do reconhecimento de nossa humanidade.

Destacamos duas afirmações fundamentais para o restante de nossa conversa.

A primeira é que nossa existência não é um acidente, mas resultado da ação criadora e intencional de Deus.

A segunda é que a assinatura de Deus está em nós. Fomos criados à sua imagem e semelhança. Isso confere dignidade a todo ser humano.

Essas verdades não servem apenas para explicar nossa origem. Elas devem transformar a maneira como enxergamos a nós mesmos e tratamos as outras pessoas.

Quando a dignidade humana é negada

De muitas maneiras, a condição de ser humano tem sido negada a determinados grupos. Esse processo é chamado de desumanização: o outro deixa de ser reconhecido como pessoa e passa a ser tratado como objeto, ameaça, estorvo ou vida descartável.

Ao longo da história, pessoas negras e indígenas foram descritas como inferiores. Idosos foram abandonados como se já não fossem gente. Pessoas pobres foram tratadas como seres humanos de segunda categoria. Crianças ainda no ventre foram reduzidas a problemas a serem eliminados. Criminosos foram chamados de “desalmados”, como se tivessem perdido toda a dignidade humana.

Pessoas com deficiência também foram — e continuam sendo — vítimas desse processo.

Para cada grupo desumanizado, surgem explicações destinadas a justificar moralmente o tratamento desumano. Primeiro, diminui-se sua humanidade. Depois, torna-se mais fácil negar-lhe direitos, submetê-lo à violência ou eliminá-lo.

Não podemos permanecer calados.

Precisamos resgatar, a começar por nós mesmos, a dignidade que conecta toda a humanidade: fomos criados intencionalmente por Deus, à sua imagem e semelhança.

Ainda que o pecado tenha corrompido nossa maneira de viver e de nos relacionar, ele não nos autoriza a apagar a imagem de Deus no próximo. A dignidade humana não pode ser concedida apenas a quem consideramos útil, produtivo, saudável ou merecedor.

Não há justificativa para aceitarmos que essa dignidade seja negada a nós nem para negá-la aos outros.

Pessoas com deficiência: uma história de desumanização

Ao longo da história, a deficiência foi usada como justificativa para rebaixar pessoas, restringir seus direitos e, em determinadas circunstâncias, negar-lhes até mesmo o direito à vida.

Na Grécia antiga, Platão imaginou, na cidade ideal descrita em A República, que crianças consideradas inferiores ou nascidas com alguma deformidade fossem retiradas secretamente da comunidade. Aristóteles foi mais explícito: em Política, defendeu que a lei não permitisse que uma criança nascida com deformidade fosse criada. Esses textos não provam que todos os gregos pensassem ou agissem assim, mas mostram que pensadores importantes admitiam subordinar a vida humana a critérios de força, saúde e utilidade. (Perseus)

Sobre Esparta, Plutarco relatou que os recém-nascidos eram examinados por anciãos e que aqueles considerados frágeis ou deformados eram levados a um lugar chamado Apothetae. Como Plutarco escreveu séculos depois dos acontecimentos que descreveu e reconheceu que as tradições sobre Licurgo eram divergentes, seu relato deve ser apresentado com cautela. Ainda assim, ele registra uma mentalidade segundo a qual uma vida que não correspondesse ao ideal de força poderia ser considerada sem valor para a sociedade. (Penelope)

No mundo romano, a reconstrução da Lei das Doze Tábuas determina que uma criança considerada gravemente deformada fosse morta imediatamente. A exposição de recém-nascidos também era conhecida, embora a deficiência não fosse sua única causa. Dificuldades econômicas, ilegitimidade e decisões sobre o tamanho da família também podiam levar ao abandono. Algumas dessas crianças morriam; outras eram recolhidas e submetidas à escravidão ou criadas por outras famílias. (Avalon Project)

Na Europa medieval, as atitudes foram variadas. Algumas pessoas relacionavam deficiências ao pecado, ao castigo de Deus ou à ação de forças demoníacas. Histórias populares sobre crianças supostamente substituídas por seres sobrenaturais alimentavam medo, rejeição e violência. Ao mesmo tempo, também há registros de cuidado familiar, assistência cristã e participação de pessoas com deficiência na vida social e religiosa. A Idade Média não possuía uma única maneira de enxergar a deficiência, mas nela também encontramos exemplos claros de desumanização. (PubMed)

Um exemplo especialmente grave aparece numa conversa atribuída a Martinho Lutero. Ele contou ter conhecido um menino de doze anos que julgou não ser uma criança humana, mas um changeling — uma criatura demoníaca supostamente colocada no lugar de uma criança. Lutero afirmou aos príncipes presentes que, caso tivesse autoridade, mandaria afogá-lo. Os príncipes recusaram sua recomendação. Esse episódio revela um dos graves pontos cegos do reformador: uma crença supersticiosa levou-o a negar a humanidade daquela criança e a considerar aceitável sua morte. (Publicações AAP)

No Brasil, também existem relatos e debates sobre a morte ou o abandono de recém-nascidos em alguns povos indígenas, em circunstâncias relacionadas à deficiência, ao nascimento de gêmeos, às condições da maternidade ou a concepções específicas sobre a entrada da criança na comunidade. Uma reportagem do Fantástico, exibida em 2014, afirmou que práticas dessa natureza ocorriam em pelo menos treze etnias. Esse número deve ser atribuído à reportagem e não pode ser generalizado a todos os povos indígenas, cujas culturas são diversas e entre os quais também existem famílias e comunidades que resistem a essas práticas e protegem suas crianças. (Globoplay)

Em épocas e culturas diferentes, o mecanismo se repete: primeiro se reduz a humanidade de alguém; depois, torna-se mais fácil justificar a violência contra essa pessoa.

É exatamente esse caminho que as Escrituras nos proíbem de seguir.

Nenhuma deficiência apaga a imagem de Deus. Nenhuma limitação transforma uma pessoa em alguém menos humano.

A proteção na lei de Deus

O que encontramos nas Escrituras sobre essa questão?

Não é possível aprofundar todos os aspectos do tema numa única reflexão, mas alguns textos apontam uma direção muito clara.

“Não amaldiçoem o surdo nem ponham pedra de tropeço à frente do cego, mas temam o seu Deus. Eu sou o Senhor.” Lv 19.14 — NVI

“‘Maldito quem fizer o cego errar o caminho.’ Todo o povo dirá: ‘Amém!’” Dt 27.18 — NVI

O direito à vida foi estabelecido nos Dez Mandamentos pela ordem “não matarás”. Jesus aprofundou esse mandamento ao ensinar que a violência não começa apenas quando a vida física é retirada. O desprezo, o ódio, a humilhação e a hostilidade também ferem e destroem o próximo.

As pessoas com deficiência estão incluídas nesse amplo direito à vida apresentado nos mandamentos e explicado por Jesus.

Nos textos de Levítico e Deuteronômio, porém, há algo ainda mais específico. O direito de viver já está pressuposto. A questão é a maneira como essas pessoas devem ser tratadas.

Não amaldiçoem.

Não ponham pedras de tropeço.

Não façam o cego errar o caminho.

Em outras palavras: não explorem suas limitações, não aumentem suas dificuldades e não transformem sua vulnerabilidade em oportunidade para crueldade.

Esses mandamentos também nos ensinam algo sobre acessibilidade. Uma sociedade ou uma igreja que cria barreiras desnecessárias faz justamente o contrário daquilo que Deus ordena. Em vez de facilitar a participação, coloca pedras no caminho.

O texto de Levítico apresenta uma advertência importante:

“Temam o seu Deus. Eu sou o Senhor.”

Em vez de tornar a vida das pessoas com deficiência ainda mais difícil, devemos temer a Deus.

A pessoa com deficiência pertence ao Senhor e carrega sua imagem. Quem a humilha afronta o seu Criador. Quem se aproveita de suas limitações age como se Deus não estivesse vendo.

Deus é o Senhor de tudo e de todos. Por isso, ele mesmo se levanta em defesa daqueles que se encontram indefesos e ameaçados.

As Escrituras não deixam dúvidas de que o Senhor está ao lado dos fracos, dos oprimidos, dos esquecidos e dos desprezados. O melhor que podemos fazer é nos juntar a ele.

A esperança anunciada pelo profeta

Digam aos desalentados de coração: “Sejam fortes, não tenham medo. Eis aí está o Deus de vocês. A vingança vem, a retribuição de Deus; ele vem para salvar vocês.”
Então se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; os coxos saltarão como as corças, e a língua dos mudos cantará. Pois águas arrebentarão no deserto, e ribeiros, no ermo. Is 35.4–6 — NAA

Esse é um texto messiânico. Isaías anuncia a salvação que virá do Senhor.

Ele fala aos desalentados, àqueles que se cansaram de esperar por justiça, cuidado, respeito e restauração. O Senhor lhes diz:

“Sejam fortes. Não tenham medo. Deus vem para salvar vocês.”

O profeta descreve o Reino de Deus como uma realidade na qual a dor, a exclusão e tudo aquilo que oprime a vida não terão a palavra final.

Cegos, surdos, coxos e pessoas que não falam aparecem como representantes de uma humanidade ferida que aguarda a intervenção restauradora de Deus.

Isaías anuncia que a realidade presente será transformada. Quando o Messias estiver reinando plenamente, os cegos verão, os surdos ouvirão, os coxos saltarão e aqueles cuja fala estava impedida cantarão.

Que cena maravilhosa o profeta nos ajuda a contemplar!

Essa esperança, porém, não nos autoriza a tratar uma pessoa com deficiência como inferior no presente. Também não nos permite reduzi-la a um corpo que precisa ser consertado.

Pelo contrário: justamente porque esperamos a restauração plena de Deus, somos chamados agora a reconhecer a dignidade inteira de cada pessoa, combater a exclusão e remover as barreiras que dificultam sua participação.

Pessoas com deficiência no ministério de Jesus

Jesus respondeu: “Voltem e anunciem a João o que vocês estão ouvindo e vendo: os cegos veem, os mancos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as boas-novas são pregadas aos pobres.” Mt 11.4–5 — NVI

Quando Jesus, o Messias anunciado por Isaías, exerceu seu ministério entre nós, tornou visível uma amostra da restauração prometida.

João Batista quis saber se Jesus era aquele que deveria vir. Em resposta, Jesus apontou para o que estava acontecendo diante dos olhos de todos: pessoas eram vistas, acolhidas, curadas e reintegradas.

A esperança anunciada pelos profetas já havia começado a se realizar.

Os evangelhos registram muitos desses encontros: Bartimeu; o paralítico de Cafarnaum; o homem com a mão atrofiada; o paralítico de Betesda; o menino que não ouvia nem falava; os cegos que clamaram por misericórdia.

Jesus não tratou essas pessoas como interrupções em sua agenda. Não as transformou em espetáculo nem em objetos usados para demonstrar sua espiritualidade.

Ele as viu e ouviu.

Ele se aproximou delas e as tratou como pessoas.

Suas curas eram sinais da chegada do Reino de Deus. Apontavam para o dia em que o sofrimento, a exclusão, a doença e a morte não mais dominarão a criação.

Cada pessoa acolhida e restaurada era como uma seta apontando para o tempo em que Deus fará novas todas as coisas.

Os primeiros passos da igreja

Em Listra havia um homem paralítico dos pés, aleijado desde o nascimento, que vivia ali sentado e nunca tinha andado. Ele ouvira Paulo falar. Quando Paulo olhou diretamente para ele e viu que o homem tinha fé para ser curado, disse em alta voz: “Levante-se! Fique em pé!” Com isso, o homem deu um salto e começou a andar. At 14.8–10 — NVI

Nos primeiros passos da igreja, os sinais do Reino continuaram apontando para a restauração realizada por Deus.

Assim como acontecia no ministério de Jesus, cada corpo curado e cada vida restaurada eram sinais do futuro de Deus — o tempo em que seremos seres humanos completos, inteiros e plenamente livres de tudo aquilo que oprime a criação.

A missão da igreja, entretanto, não pode ser reduzida à expectativa de curas.

Enquanto aguardamos a restauração plena, somos chamados a acolher, ouvir, remover obstáculos e abrir espaço para a participação das pessoas com deficiência.

Elas não são apenas destinatárias de nossa compaixão. São irmãs e irmãos, membros do corpo de Cristo, portadores de dons, experiências, vocações e responsabilidades.

Uma igreja pode falar muito sobre amor e, ao mesmo tempo, manter portas, linguagens, estruturas e atitudes que impedem a participação de algumas pessoas.

Por isso, não basta perguntar se permitimos que pessoas com deficiência entrem. Precisamos perguntar se estamos construindo uma comunidade na qual elas possam pertencer, servir, ensinar, decidir e ser ouvidas.

O que nos cabe hoje?

Nós, que cremos em Jesus, fomos chamados a nos juntar a Deus na defesa e no reconhecimento da dignidade das pessoas com deficiência.

O que nos cabe fazer?

Há muitas respostas possíveis, mas podemos começar com três atitudes.

1. Confessar nossa indiferença

Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça. Se afirmarmos que não temos cometido pecado, fazemos de Deus um mentiroso, e a sua palavra não está em nós. 1 João 1.8–10 — NVI

A primeira coisa que precisamos fazer é confessar.

Precisamos reconhecer que nem sempre nos importamos tanto quanto deveríamos com as barreiras, humilhações e sofrimentos enfrentados pelas pessoas com deficiência.

Talvez nunca tenhamos cometido uma agressão deliberada. Mesmo assim, podemos ter permanecido indiferentes.

Podemos ter rido de alguma limitação, usado palavras ofensivas, ocupado indevidamente um espaço reservado e até ignorado as dificuldades que nossas estruturas, atitudes e decisões impõem.

Não adianta apresentar explicações para provar que não somos pessoas tão ruins. Como João nos ensina, quando nos justificamos o tempo todo, perdemos a oportunidade de reconhecer o pecado, receber o perdão de Deus e refazer esse capítulo de nossa história.

Precisamos nos aproximar do Senhor e confessar nossa indiferença, nosso preconceito e nossa falta de atenção, sempre que isso for verdade.

A confissão não é o fim do caminho. É o começo de uma vida transformada pela graça.

2. Mudar os óculos

Não sejam mais moldados por este mundo mas, pela nova maneira de vocês pensarem, vivam uma vida diferente. Então vão descobrir a vontade de Deus para vocês, isto é, o que é bom, agradável a ele e perfeito. Rm 12.2 — VFL

Além de confessar, precisamos mudar a maneira como enxergamos o mundo e as pessoas ao nosso redor.

Precisamos permitir que nossa mente seja transformada pela exposição à Palavra de Deus.

Na primeira mensagem e nesta reflexão, recebemos duas lentes novas para nossos óculos:

  1. A existência humana não é um acidente, mas resultado da ação intencional de Deus. Isso confere dignidade a todos.

  2. Todos fomos criados à imagem e semelhança de Deus. A assinatura do Criador está em cada ser humano.

Troque as lentes.

Deixe de lado as lentes do preconceito e do descaso.

Abandone as lentes da arrogância e da autossuficiência.

Jogue fora as lentes da falsa superioridade e da sabedoria própria.

Permita que essas verdades encharquem sua mente até moldarem seu jeito de viver.

Uma pessoa não vale menos porque precisa de ajuda para realizar determinada atividade. Também não vale mais porque consegue viver com maior autonomia.

Nossa dignidade não é medida pelo desempenho, pela produtividade, pela aparência ou pela correspondência a determinado padrão corporal.

Somos dignos porque fomos criados por Deus e carregamos sua imagem.

3. Fazer algo concreto

Meus filhinhos, o nosso amor não deve ser somente de palavras e de conversa. Deve ser um amor verdadeiro, que se mostra por meio de ações. 1 Jo 3.18 — NTLH

Por fim, precisamos fazer algo concreto.

Este mundo está cheio de palavras de amor e carente de ações que expressem esse amor.

Olhe para sua atividade profissional. O que você pode fazer para tornar menos difícil a vida das pessoas com deficiência?

Olhe para sua família e para seus amigos. Você contribui para formar atitudes de respeito, acolhimento e apoio?

Seus filhos estão sendo ensinados a respeitar, ajudar e defender pessoas com deficiência?

Há pessoas com deficiência em seus círculos reais de amizade e convivência ou elas aparecem apenas como objetos distantes de nossa compaixão?

No trânsito, você respeita as vagas reservadas? Uma vaga exclusiva não pode ser ocupada “só por um minutinho”.

Nos centros comerciais, você respeita as mesas, os banheiros e os espaços destinados a pessoas com deficiência?

Na internet e nas conversas cotidianas, você evita palavras e piadas que usam deficiências como insultos?

Olhe também para si mesmo. Você possui alguma deficiência ou limitação que procura esconder por medo da rejeição? Por que temos tanta dificuldade de falar sobre nossas próprias fragilidades?

E em nossos encontros como igreja?

O que temos feito para facilitar o acesso das pessoas com deficiência ao evangelho, à comunhão e ao serviço cristão?

Nossos espaços físicos são acessíveis? A comunicação pode ser compreendida por pessoas com diferentes necessidades? Nossas atividades incluem ou afastam?

Estamos dispostos a ouvir as próprias pessoas com deficiência antes de decidir do que elas precisam?

Não basta desejar que elas venham. Precisamos remover as pedras do caminho.

O amor verdadeiro não se limita a declarações. Ele se torna visível em atitudes, estruturas, escolhas e relacionamentos.

Inteiros diante de Deus

Quero concluir recordando a resposta de Deus a Moisés.

Quando foi chamado para voltar ao Egito e conduzir o povo à liberdade, Moisés argumentou que não era a pessoa adequada. Parecia dizer que Deus havia escolhido o irmão errado. Arão falava com desenvoltura; Moisés tinha dificuldade para se expressar.

Então o Senhor respondeu:

E o Senhor lhe disse: “Quem fez a boca do homem? Quem fez o mudo, o surdo, o que vê ou o cego? Não fiz eu, o Senhor?” Ex 4.11 — BKJ 1611

Esse texto não responde a todas as nossas perguntas sobre a origem das deficiências. Ele afirma, porém, que nenhuma limitação coloca alguém fora da soberania, da atenção ou do chamado de Deus.

Moisés tentou usar sua dificuldade como prova de que não poderia ser chamado. Deus não negou a dificuldade de Moisés, mas também não permitiu que ela se transformasse na medida de sua dignidade.

O Criador não mede nossa dignidade pelo corpo que temos, pela maneira como pensamos, pela velocidade com que aprendemos, pela clareza de nossa fala ou pelo grau de autonomia que alcançamos.

Pessoas com deficiência não são seres humanos pela metade.

Não existem apenas para despertar compaixão nem para ensinar lições às outras pessoas.

São pessoas criadas por Deus, portadoras de sua imagem, com dons, voz, vocação e lugar em sua comunidade.

Por isso, Deus nos convida a nos juntarmos a ele na restauração deste mundo: reconhecendo, preservando e defendendo a dignidade das pessoas com deficiência.

Não importa se somos tortos, se nos falta um pedaço, se somos lentos, se não enxergamos, se não ouvimos, se nossa fala encontra obstáculos ou se precisamos de ajuda para realizar aquilo que outros fazem sozinhos.

Diante de Deus, não somos pessoas pela metade.

Somos inteiros.

Seres humanos criados por ele, à sua imagem e semelhança.

Essa é a marca de nossa humanidade.


Segunda mensagem da série “Ser humano”, pregada em 29 de janeiro de 2023 e revisada para publicação no blog.