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29 janeiro 2023

Ser humano: a dignidade das pessoas com deficiência

 


Na primeira mensagem da série Ser humano, começamos a refletir sobre nossa humanidade à luz das Escrituras.

Vimos que essa humanidade é uma condição comum a todos nós, uma realidade da qual não podemos fugir. Mas que condição é essa? O que realmente nos faz humanos e nos liga uns aos outros? O que é ser humano?

Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Gn 1.27 — NVI

A partir da narrativa da criação, no primeiro capítulo de Gênesis, vimos que somos criaturas. Reconhecer essa condição é parte do reconhecimento de nossa humanidade.

Destacamos duas afirmações fundamentais para o restante de nossa conversa.

A primeira é que nossa existência não é um acidente, mas resultado da ação criadora e intencional de Deus.

A segunda é que a assinatura de Deus está em nós. Fomos criados à sua imagem e semelhança. Isso confere dignidade a todo ser humano.

Essas verdades não servem apenas para explicar nossa origem. Elas devem transformar a maneira como enxergamos a nós mesmos e tratamos as outras pessoas.

Quando a dignidade humana é negada

De muitas maneiras, a condição de ser humano tem sido negada a determinados grupos. Esse processo é chamado de desumanização: o outro deixa de ser reconhecido como pessoa e passa a ser tratado como objeto, ameaça, estorvo ou vida descartável.

Ao longo da história, pessoas negras e indígenas foram descritas como inferiores. Idosos foram abandonados como se já não fossem gente. Pessoas pobres foram tratadas como seres humanos de segunda categoria. Crianças ainda no ventre foram reduzidas a problemas a serem eliminados. Criminosos foram chamados de “desalmados”, como se tivessem perdido toda a dignidade humana.

Pessoas com deficiência também foram — e continuam sendo — vítimas desse processo.

Para cada grupo desumanizado, surgem explicações destinadas a justificar moralmente o tratamento desumano. Primeiro, diminui-se sua humanidade. Depois, torna-se mais fácil negar-lhe direitos, submetê-lo à violência ou eliminá-lo.

Não podemos permanecer calados.

Precisamos resgatar, a começar por nós mesmos, a dignidade que conecta toda a humanidade: fomos criados intencionalmente por Deus, à sua imagem e semelhança.

Ainda que o pecado tenha corrompido nossa maneira de viver e de nos relacionar, ele não nos autoriza a apagar a imagem de Deus no próximo. A dignidade humana não pode ser concedida apenas a quem consideramos útil, produtivo, saudável ou merecedor.

Não há justificativa para aceitarmos que essa dignidade seja negada a nós nem para negá-la aos outros.

Pessoas com deficiência: uma história de desumanização

Ao longo da história, a deficiência foi usada como justificativa para rebaixar pessoas, restringir seus direitos e, em determinadas circunstâncias, negar-lhes até mesmo o direito à vida.

Na Grécia antiga, Platão imaginou, na cidade ideal descrita em A República, que crianças consideradas inferiores ou nascidas com alguma deformidade fossem retiradas secretamente da comunidade. Aristóteles foi mais explícito: em Política, defendeu que a lei não permitisse que uma criança nascida com deformidade fosse criada. Esses textos não provam que todos os gregos pensassem ou agissem assim, mas mostram que pensadores importantes admitiam subordinar a vida humana a critérios de força, saúde e utilidade. (Perseus)

Sobre Esparta, Plutarco relatou que os recém-nascidos eram examinados por anciãos e que aqueles considerados frágeis ou deformados eram levados a um lugar chamado Apothetae. Como Plutarco escreveu séculos depois dos acontecimentos que descreveu e reconheceu que as tradições sobre Licurgo eram divergentes, seu relato deve ser apresentado com cautela. Ainda assim, ele registra uma mentalidade segundo a qual uma vida que não correspondesse ao ideal de força poderia ser considerada sem valor para a sociedade. (Penelope)

No mundo romano, a reconstrução da Lei das Doze Tábuas determina que uma criança considerada gravemente deformada fosse morta imediatamente. A exposição de recém-nascidos também era conhecida, embora a deficiência não fosse sua única causa. Dificuldades econômicas, ilegitimidade e decisões sobre o tamanho da família também podiam levar ao abandono. Algumas dessas crianças morriam; outras eram recolhidas e submetidas à escravidão ou criadas por outras famílias. (Avalon Project)

Na Europa medieval, as atitudes foram variadas. Algumas pessoas relacionavam deficiências ao pecado, ao castigo de Deus ou à ação de forças demoníacas. Histórias populares sobre crianças supostamente substituídas por seres sobrenaturais alimentavam medo, rejeição e violência. Ao mesmo tempo, também há registros de cuidado familiar, assistência cristã e participação de pessoas com deficiência na vida social e religiosa. A Idade Média não possuía uma única maneira de enxergar a deficiência, mas nela também encontramos exemplos claros de desumanização. (PubMed)

Um exemplo especialmente grave aparece numa conversa atribuída a Martinho Lutero. Ele contou ter conhecido um menino de doze anos que julgou não ser uma criança humana, mas um changeling — uma criatura demoníaca supostamente colocada no lugar de uma criança. Lutero afirmou aos príncipes presentes que, caso tivesse autoridade, mandaria afogá-lo. Os príncipes recusaram sua recomendação. Esse episódio revela um dos graves pontos cegos do reformador: uma crença supersticiosa levou-o a negar a humanidade daquela criança e a considerar aceitável sua morte. (Publicações AAP)

No Brasil, também existem relatos e debates sobre a morte ou o abandono de recém-nascidos em alguns povos indígenas, em circunstâncias relacionadas à deficiência, ao nascimento de gêmeos, às condições da maternidade ou a concepções específicas sobre a entrada da criança na comunidade. Uma reportagem do Fantástico, exibida em 2014, afirmou que práticas dessa natureza ocorriam em pelo menos treze etnias. Esse número deve ser atribuído à reportagem e não pode ser generalizado a todos os povos indígenas, cujas culturas são diversas e entre os quais também existem famílias e comunidades que resistem a essas práticas e protegem suas crianças. (Globoplay)

Em épocas e culturas diferentes, o mecanismo se repete: primeiro se reduz a humanidade de alguém; depois, torna-se mais fácil justificar a violência contra essa pessoa.

É exatamente esse caminho que as Escrituras nos proíbem de seguir.

Nenhuma deficiência apaga a imagem de Deus. Nenhuma limitação transforma uma pessoa em alguém menos humano.

A proteção na lei de Deus

O que encontramos nas Escrituras sobre essa questão?

Não é possível aprofundar todos os aspectos do tema numa única reflexão, mas alguns textos apontam uma direção muito clara.

“Não amaldiçoem o surdo nem ponham pedra de tropeço à frente do cego, mas temam o seu Deus. Eu sou o Senhor.” Lv 19.14 — NVI

“‘Maldito quem fizer o cego errar o caminho.’ Todo o povo dirá: ‘Amém!’” Dt 27.18 — NVI

O direito à vida foi estabelecido nos Dez Mandamentos pela ordem “não matarás”. Jesus aprofundou esse mandamento ao ensinar que a violência não começa apenas quando a vida física é retirada. O desprezo, o ódio, a humilhação e a hostilidade também ferem e destroem o próximo.

As pessoas com deficiência estão incluídas nesse amplo direito à vida apresentado nos mandamentos e explicado por Jesus.

Nos textos de Levítico e Deuteronômio, porém, há algo ainda mais específico. O direito de viver já está pressuposto. A questão é a maneira como essas pessoas devem ser tratadas.

Não amaldiçoem.

Não ponham pedras de tropeço.

Não façam o cego errar o caminho.

Em outras palavras: não explorem suas limitações, não aumentem suas dificuldades e não transformem sua vulnerabilidade em oportunidade para crueldade.

Esses mandamentos também nos ensinam algo sobre acessibilidade. Uma sociedade ou uma igreja que cria barreiras desnecessárias faz justamente o contrário daquilo que Deus ordena. Em vez de facilitar a participação, coloca pedras no caminho.

O texto de Levítico apresenta uma advertência importante:

“Temam o seu Deus. Eu sou o Senhor.”

Em vez de tornar a vida das pessoas com deficiência ainda mais difícil, devemos temer a Deus.

A pessoa com deficiência pertence ao Senhor e carrega sua imagem. Quem a humilha afronta o seu Criador. Quem se aproveita de suas limitações age como se Deus não estivesse vendo.

Deus é o Senhor de tudo e de todos. Por isso, ele mesmo se levanta em defesa daqueles que se encontram indefesos e ameaçados.

As Escrituras não deixam dúvidas de que o Senhor está ao lado dos fracos, dos oprimidos, dos esquecidos e dos desprezados. O melhor que podemos fazer é nos juntar a ele.

A esperança anunciada pelo profeta

Digam aos desalentados de coração: “Sejam fortes, não tenham medo. Eis aí está o Deus de vocês. A vingança vem, a retribuição de Deus; ele vem para salvar vocês.”
Então se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; os coxos saltarão como as corças, e a língua dos mudos cantará. Pois águas arrebentarão no deserto, e ribeiros, no ermo. Is 35.4–6 — NAA

Esse é um texto messiânico. Isaías anuncia a salvação que virá do Senhor.

Ele fala aos desalentados, àqueles que se cansaram de esperar por justiça, cuidado, respeito e restauração. O Senhor lhes diz:

“Sejam fortes. Não tenham medo. Deus vem para salvar vocês.”

O profeta descreve o Reino de Deus como uma realidade na qual a dor, a exclusão e tudo aquilo que oprime a vida não terão a palavra final.

Cegos, surdos, coxos e pessoas que não falam aparecem como representantes de uma humanidade ferida que aguarda a intervenção restauradora de Deus.

Isaías anuncia que a realidade presente será transformada. Quando o Messias estiver reinando plenamente, os cegos verão, os surdos ouvirão, os coxos saltarão e aqueles cuja fala estava impedida cantarão.

Que cena maravilhosa o profeta nos ajuda a contemplar!

Essa esperança, porém, não nos autoriza a tratar uma pessoa com deficiência como inferior no presente. Também não nos permite reduzi-la a um corpo que precisa ser consertado.

Pelo contrário: justamente porque esperamos a restauração plena de Deus, somos chamados agora a reconhecer a dignidade inteira de cada pessoa, combater a exclusão e remover as barreiras que dificultam sua participação.

Pessoas com deficiência no ministério de Jesus

Jesus respondeu: “Voltem e anunciem a João o que vocês estão ouvindo e vendo: os cegos veem, os mancos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as boas-novas são pregadas aos pobres.” Mt 11.4–5 — NVI

Quando Jesus, o Messias anunciado por Isaías, exerceu seu ministério entre nós, tornou visível uma amostra da restauração prometida.

João Batista quis saber se Jesus era aquele que deveria vir. Em resposta, Jesus apontou para o que estava acontecendo diante dos olhos de todos: pessoas eram vistas, acolhidas, curadas e reintegradas.

A esperança anunciada pelos profetas já havia começado a se realizar.

Os evangelhos registram muitos desses encontros: Bartimeu; o paralítico de Cafarnaum; o homem com a mão atrofiada; o paralítico de Betesda; o menino que não ouvia nem falava; os cegos que clamaram por misericórdia.

Jesus não tratou essas pessoas como interrupções em sua agenda. Não as transformou em espetáculo nem em objetos usados para demonstrar sua espiritualidade.

Ele as viu e ouviu.

Ele se aproximou delas e as tratou como pessoas.

Suas curas eram sinais da chegada do Reino de Deus. Apontavam para o dia em que o sofrimento, a exclusão, a doença e a morte não mais dominarão a criação.

Cada pessoa acolhida e restaurada era como uma seta apontando para o tempo em que Deus fará novas todas as coisas.

Os primeiros passos da igreja

Em Listra havia um homem paralítico dos pés, aleijado desde o nascimento, que vivia ali sentado e nunca tinha andado. Ele ouvira Paulo falar. Quando Paulo olhou diretamente para ele e viu que o homem tinha fé para ser curado, disse em alta voz: “Levante-se! Fique em pé!” Com isso, o homem deu um salto e começou a andar. At 14.8–10 — NVI

Nos primeiros passos da igreja, os sinais do Reino continuaram apontando para a restauração realizada por Deus.

Assim como acontecia no ministério de Jesus, cada corpo curado e cada vida restaurada eram sinais do futuro de Deus — o tempo em que seremos seres humanos completos, inteiros e plenamente livres de tudo aquilo que oprime a criação.

A missão da igreja, entretanto, não pode ser reduzida à expectativa de curas.

Enquanto aguardamos a restauração plena, somos chamados a acolher, ouvir, remover obstáculos e abrir espaço para a participação das pessoas com deficiência.

Elas não são apenas destinatárias de nossa compaixão. São irmãs e irmãos, membros do corpo de Cristo, portadores de dons, experiências, vocações e responsabilidades.

Uma igreja pode falar muito sobre amor e, ao mesmo tempo, manter portas, linguagens, estruturas e atitudes que impedem a participação de algumas pessoas.

Por isso, não basta perguntar se permitimos que pessoas com deficiência entrem. Precisamos perguntar se estamos construindo uma comunidade na qual elas possam pertencer, servir, ensinar, decidir e ser ouvidas.

O que nos cabe hoje?

Nós, que cremos em Jesus, fomos chamados a nos juntar a Deus na defesa e no reconhecimento da dignidade das pessoas com deficiência.

O que nos cabe fazer?

Há muitas respostas possíveis, mas podemos começar com três atitudes.

1. Confessar nossa indiferença

Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça. Se afirmarmos que não temos cometido pecado, fazemos de Deus um mentiroso, e a sua palavra não está em nós. 1 João 1.8–10 — NVI

A primeira coisa que precisamos fazer é confessar.

Precisamos reconhecer que nem sempre nos importamos tanto quanto deveríamos com as barreiras, humilhações e sofrimentos enfrentados pelas pessoas com deficiência.

Talvez nunca tenhamos cometido uma agressão deliberada. Mesmo assim, podemos ter permanecido indiferentes.

Podemos ter rido de alguma limitação, usado palavras ofensivas, ocupado indevidamente um espaço reservado e até ignorado as dificuldades que nossas estruturas, atitudes e decisões impõem.

Não adianta apresentar explicações para provar que não somos pessoas tão ruins. Como João nos ensina, quando nos justificamos o tempo todo, perdemos a oportunidade de reconhecer o pecado, receber o perdão de Deus e refazer esse capítulo de nossa história.

Precisamos nos aproximar do Senhor e confessar nossa indiferença, nosso preconceito e nossa falta de atenção, sempre que isso for verdade.

A confissão não é o fim do caminho. É o começo de uma vida transformada pela graça.

2. Mudar os óculos

Não sejam mais moldados por este mundo mas, pela nova maneira de vocês pensarem, vivam uma vida diferente. Então vão descobrir a vontade de Deus para vocês, isto é, o que é bom, agradável a ele e perfeito. Rm 12.2 — VFL

Além de confessar, precisamos mudar a maneira como enxergamos o mundo e as pessoas ao nosso redor.

Precisamos permitir que nossa mente seja transformada pela exposição à Palavra de Deus.

Na primeira mensagem e nesta reflexão, recebemos duas lentes novas para nossos óculos:

  1. A existência humana não é um acidente, mas resultado da ação intencional de Deus. Isso confere dignidade a todos.

  2. Todos fomos criados à imagem e semelhança de Deus. A assinatura do Criador está em cada ser humano.

Troque as lentes.

Deixe de lado as lentes do preconceito e do descaso.

Abandone as lentes da arrogância e da autossuficiência.

Jogue fora as lentes da falsa superioridade e da sabedoria própria.

Permita que essas verdades encharquem sua mente até moldarem seu jeito de viver.

Uma pessoa não vale menos porque precisa de ajuda para realizar determinada atividade. Também não vale mais porque consegue viver com maior autonomia.

Nossa dignidade não é medida pelo desempenho, pela produtividade, pela aparência ou pela correspondência a determinado padrão corporal.

Somos dignos porque fomos criados por Deus e carregamos sua imagem.

3. Fazer algo concreto

Meus filhinhos, o nosso amor não deve ser somente de palavras e de conversa. Deve ser um amor verdadeiro, que se mostra por meio de ações. 1 Jo 3.18 — NTLH

Por fim, precisamos fazer algo concreto.

Este mundo está cheio de palavras de amor e carente de ações que expressem esse amor.

Olhe para sua atividade profissional. O que você pode fazer para tornar menos difícil a vida das pessoas com deficiência?

Olhe para sua família e para seus amigos. Você contribui para formar atitudes de respeito, acolhimento e apoio?

Seus filhos estão sendo ensinados a respeitar, ajudar e defender pessoas com deficiência?

Há pessoas com deficiência em seus círculos reais de amizade e convivência ou elas aparecem apenas como objetos distantes de nossa compaixão?

No trânsito, você respeita as vagas reservadas? Uma vaga exclusiva não pode ser ocupada “só por um minutinho”.

Nos centros comerciais, você respeita as mesas, os banheiros e os espaços destinados a pessoas com deficiência?

Na internet e nas conversas cotidianas, você evita palavras e piadas que usam deficiências como insultos?

Olhe também para si mesmo. Você possui alguma deficiência ou limitação que procura esconder por medo da rejeição? Por que temos tanta dificuldade de falar sobre nossas próprias fragilidades?

E em nossos encontros como igreja?

O que temos feito para facilitar o acesso das pessoas com deficiência ao evangelho, à comunhão e ao serviço cristão?

Nossos espaços físicos são acessíveis? A comunicação pode ser compreendida por pessoas com diferentes necessidades? Nossas atividades incluem ou afastam?

Estamos dispostos a ouvir as próprias pessoas com deficiência antes de decidir do que elas precisam?

Não basta desejar que elas venham. Precisamos remover as pedras do caminho.

O amor verdadeiro não se limita a declarações. Ele se torna visível em atitudes, estruturas, escolhas e relacionamentos.

Inteiros diante de Deus

Quero concluir recordando a resposta de Deus a Moisés.

Quando foi chamado para voltar ao Egito e conduzir o povo à liberdade, Moisés argumentou que não era a pessoa adequada. Parecia dizer que Deus havia escolhido o irmão errado. Arão falava com desenvoltura; Moisés tinha dificuldade para se expressar.

Então o Senhor respondeu:

E o Senhor lhe disse: “Quem fez a boca do homem? Quem fez o mudo, o surdo, o que vê ou o cego? Não fiz eu, o Senhor?” Ex 4.11 — BKJ 1611

Esse texto não responde a todas as nossas perguntas sobre a origem das deficiências. Ele afirma, porém, que nenhuma limitação coloca alguém fora da soberania, da atenção ou do chamado de Deus.

Moisés tentou usar sua dificuldade como prova de que não poderia ser chamado. Deus não negou a dificuldade de Moisés, mas também não permitiu que ela se transformasse na medida de sua dignidade.

O Criador não mede nossa dignidade pelo corpo que temos, pela maneira como pensamos, pela velocidade com que aprendemos, pela clareza de nossa fala ou pelo grau de autonomia que alcançamos.

Pessoas com deficiência não são seres humanos pela metade.

Não existem apenas para despertar compaixão nem para ensinar lições às outras pessoas.

São pessoas criadas por Deus, portadoras de sua imagem, com dons, voz, vocação e lugar em sua comunidade.

Por isso, Deus nos convida a nos juntarmos a ele na restauração deste mundo: reconhecendo, preservando e defendendo a dignidade das pessoas com deficiência.

Não importa se somos tortos, se nos falta um pedaço, se somos lentos, se não enxergamos, se não ouvimos, se nossa fala encontra obstáculos ou se precisamos de ajuda para realizar aquilo que outros fazem sozinhos.

Diante de Deus, não somos pessoas pela metade.

Somos inteiros.

Seres humanos criados por ele, à sua imagem e semelhança.

Essa é a marca de nossa humanidade.


Segunda mensagem da série “Ser humano”, pregada em 29 de janeiro de 2023 e revisada para publicação no blog.

22 janeiro 2023

Ser humano: criados à imagem de Deus




Numa manhã de janeiro, ouvi Dani contar que ela e o irmão Eraldo haviam retirado a decoração de fim de ano. Pensei: “Pronto! Agora o ano começou!”

Na verdade, o ano já havia começado há mais de três semanas. O primeiro mês avançava rapidamente. O tempo segue numa carreira desembestada. Talvez seja por isso que, a cada 365 dias, zeramos a contagem e começamos um novo ano, como quem abre uma página cheia de possibilidades.

A passagem de um ano para outro é celebrada em muitas culturas. No Brasil, a Lei nº 108, de 1935, consagrou o dia 1º de janeiro à comemoração da Fraternidade Universal. Anos depois, o papa Paulo VI propôs que o primeiro dia do ano também fosse celebrado como Dia Mundial da Paz, cuja primeira observância ocorreu em 1º de janeiro de 1968.

De certa forma, começamos o ano lembrando que somos todos humanos. Temos culturas diferentes, falamos línguas distintas, professamos crenças diversas e vivemos realidades muito desiguais. Ainda assim, há algo que nos antecede e nos aproxima: compartilhamos a mesma condição humana. É a partir dessa consciência que a reflexão se volta para uma pergunta essencial.

Mas o que significa ser humano? O que nos une uns aos outros? O que as Escrituras revelam sobre a nossa condição?

Esta reflexão inicia uma série de quatro mensagens sobre a condição humana que compartilhamos. Pode parecer um assunto apenas teórico, mas não é. Aquilo que cremos sobre o ser humano interfere diretamente na maneira como enxergamos a nós mesmos, tratamos as outras pessoas e encaramos a vida diante de Deus e do próximo.

Somos criaturas

Uma das primeiras afirmações da Bíblia a nosso respeito é que fomos criados. Somos criaturas.

Então disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os grandes animais de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão”. Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Gênesis 1.26–27 — NVI

Criação e dignidade

O texto afirma que homens e mulheres existem por uma decisão livre e intencional de Deus. Nossa existência não é apresentada como acidente, descuido ou sobra do universo, mas como resultado da ação deliberada do Criador.

Imagine-se sentado confortavelmente numa bela praia de sua propriedade, plenamente satisfeito, sem que nada lhe falte. O que o faria sair dessa condição?

Talvez a resposta fosse:

— Nada, pastor!

Deus, porém, não criou porque lhe faltava alguma coisa. Ele não precisava do universo nem da humanidade para se completar. Criou livremente, segundo sua vontade e seu propósito. Trouxe à existência o universo, a vida e, entre todas as criaturas, homens e mulheres.

Ainda não respondemos a todas as perguntas sobre o propósito da criação, mas já sabemos algo essencial: a vida humana é intencional. Fomos desejados pelo Criador, e isso confere dignidade à nossa existência.

Meu sogro tem uma caixa na qual guarda todo tipo de objeto que encontra pelo caminho: um pedaço de metal, um parafuso diferente, uma pequena peça com algum encaixe. Minha sogra costuma dizer que aquilo é apenas uma caixa de tranqueiras, mas ele continua guardando tudo. Mais de uma vez, eu o vi recorrer àquela caixa e encontrar exatamente a peça de que precisava.

Aquelas peças não foram produzidas por acaso. Cada uma foi fabricada com alguma finalidade, mesmo quando já não sabemos qual era. De modo semelhante, ainda que a vida nos tenha lançado ao chão, ainda que nos sintamos desprezados, esquecidos ou deixados de lado, nossa existência não perde seu sentido: fomos criados por Deus.

Isso não significa que compreenderemos imediatamente tudo o que acontece conosco, nem que encontraremos uma explicação simples para cada sofrimento. Significa, porém, que nossa dignidade não depende da utilidade que os outros enxergam em nós, do lugar que ocupamos ou do quanto conseguimos produzir.

Há uma razão para a sua vida. Por isso, você não deve renunciar à dignidade que recebeu do Criador.

Essa verdade também muda a maneira como tratamos as outras pessoas. Elas igualmente foram criadas por Deus. Quando encontramos alguém caído à beira da estrada, convencido de que não tem valor, somos chamados a nos aproximar e recordar:

Sua vida tem significado. Você é importante. Sua existência não é um acaso.

Como diz uma antiga canção:

Deus tem um plano em cada criatura;

aos astros, ele dá um céu;

a cada rio, ele dá um leito;

e um caminho para mim traçou.

— Richard D. Baker

Assim, a dignidade que nasce da criação intencional de Deus é comum a toda a humanidade. Ser humano é reconhecer a si mesmo e aos outros como criaturas desejadas por Deus, cuja existência não depende da utilidade que alguém lhes atribui.

Essa primeira afirmação prepara a segunda: não apenas fomos criados por Deus, mas fomos criados de modo singular. A dignidade humana nasce da criação e se aprofunda quando Gênesis afirma que carregamos a imagem do Criador.

Imagem e dignidade

Gênesis acrescenta uma afirmação ainda mais profunda: homens e mulheres foram criados à imagem e semelhança de Deus.

Isso não significa que sejamos divinos. Continuamos sendo criaturas, dependentes daquele que nos deu a vida. Significa, porém, que fomos criados para representar Deus no mundo e refletir algo de seu caráter, de sua vontade e de seu governo. Entre todas as criaturas, o ser humano recebe essa vocação singular.

Pense numa obra de arte esquecida por muitos anos. Ela pode estar encostada numa parede, coberta de poeira e tratada como algo sem valor. Quando, porém, a assinatura do artista é reconhecida, todos passam a olhar para a mesma obra de outra maneira. A assinatura revela sua origem.

A imagem de Deus é como a assinatura do Criador gravada em nossa humanidade.

Por isso, não importa se alguém foi esquecido, desprezado ou deixado de lado. Não importa há quanto tempo está “encostado numa parede” da vida. Todo ser humano carrega a marca de seu Criador e, por isso, deve ser tratado com respeito, cordialidade e consideração.

Nossa existência não é um acidente. Fomos criados intencionalmente por Deus.

A assinatura do Criador está em nós. Isso é parte inseparável de nossa humanidade.

Quando a dignidade é negada

Se todos os seres humanos foram criados por Deus e carregam sua imagem, ninguém pode ser tratado como menos humano. No entanto, ao longo da história, a dignidade e os direitos de muitos grupos foram negados.

Esse processo é chamado de desumanização. Ele acontece quando alguém deixa de ser visto como pessoa e passa a ser tratado como objeto, ameaça, estorvo, mercadoria ou vida descartável.

Pessoas com deficiência já foram tratadas como se não possuíssem plena humanidade. Povos negros e indígenas foram escravizados, explorados e descritos como inferiores. Crianças ainda no ventre são, por vezes, reduzidas a um problema a ser eliminado. Criminosos podem ser tratados como se tivessem perdido todo direito à dignidade. Idosos são abandonados como se já não fossem gente. Pessoas pobres são tratadas como seres humanos de segunda categoria.

Para cada forma de desumanização, são criadas explicações, teorias e justificativas. Mas nenhuma delas pode apagar o que Deus declarou na criação.

Embora o pecado desfigure nossa humanidade e corrompa nossos relacionamentos, a imagem de Deus continua sendo o fundamento da dignidade humana. Essa dignidade não deve ser concedida apenas a quem julgamos merecedor. Ela deve ser reconhecida, protegida e jamais violada.

Não há justificativa para tratarmos uns aos outros como menos humanos.

Pessoas com deficiência: dignidade, cuidado e participação

Em diferentes épocas, pessoas com deficiência foram submetidas ao abandono, à ridicularização, à exclusão e até à morte. É preciso, contudo, evitar generalizações históricas simplistas: pesquisas mais recentes mostram que as atitudes das sociedades antigas eram mais variadas do que muitas narrativas populares sugerem. Ainda assim, há registros reais de práticas cruéis e de discursos que negavam a plena humanidade dessas pessoas.

Até mesmo Martinho Lutero, em um de seus graves pontos cegos, reproduziu crenças desumanizantes de seu tempo ao falar sobre uma criança que ele considerava um changeling — uma suposta criatura demoníaca colocada no lugar de uma criança — e sugerir que fosse afogada. O episódio nos lembra que nenhuma tradição, instituição ou liderança está dispensada de examinar criticamente suas próprias atitudes.

O que encontramos nas Escrituras sobre essa questão? Não é possível aprofundar todos os aspectos do tema em uma única reflexão, mas alguns textos apontam uma direção clara.

A partir daqui, a reflexão seguirá um percurso simples: primeiro, a proteção que aparece na lei de Deus; depois, a esperança anunciada pelos profetas; em seguida, o ministério de Jesus; por fim, os passos da igreja. Esse caminho mostra que a dignidade das pessoas com deficiência não é um detalhe periférico, mas atravessa o testemunho bíblico.

A proteção na lei de Deus

“Não amaldiçoem o surdo nem ponham pedra de tropeço à frente do cego, mas temam o seu Deus. Eu sou o Senhor.” Levítico 19.14 — NVI

“‘Maldito quem fizer o cego errar o caminho.’ Todo o povo dirá: ‘Amém!’” Deuteronômio 27.18 — NVI

O mandamento “não matarás” protege a vida humana. Jesus aprofundou esse mandamento ao mostrar que a violência contra o próximo começa antes do ato de tirar-lhe a vida: ela também se manifesta no desprezo, no ódio e na humilhação.

Nos textos do Levítico e do Deuteronômio, pessoas com deficiência são mencionadas especificamente. Não basta reconhecer seu direito de existir. O povo de Deus é proibido de explorar suas limitações, dificultar sua caminhada ou transformar sua vulnerabilidade em ocasião para crueldade.

“Não amaldiçoem.”

“Não ponham pedra de tropeço.”

“Não façam errar o caminho.”

Em linguagem contemporânea, poderíamos dizer: não criem barreiras; não explorem limitações; não transformem a vulnerabilidade de alguém em ocasião para abuso; não façam da vida de uma pessoa uma caminhada ainda mais difícil.

Levítico acrescenta uma razão decisiva:

“Temam o seu Deus. Eu sou o Senhor.”

A pessoa com deficiência pertence a Deus e carrega sua imagem. Quem a humilha afronta o seu Criador. Quem cria obstáculos deliberados diante dela age como se Deus não estivesse vendo. Por isso, em vez de tornar sua vida mais difícil, o povo é chamado a temer o Senhor.

Deus se apresenta nas Escrituras como defensor dos fracos, dos oprimidos, dos esquecidos e dos desprezados. O melhor que podemos fazer é nos juntar a ele.

A esperança anunciada pelos profetas

Digam aos desalentados de coração: “Sejam fortes, não tenham medo. Eis aí está o Deus de vocês. A vingança vem, a retribuição de Deus; ele vem para salvar vocês.” Isaías 35.4–6 — NAA

Então se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; os coxos saltarão como as corças, e a língua dos mudos cantará. Pois águas arrebentarão no deserto, e ribeiros, no ermo.

Isaías anuncia a salvação que virá do Senhor. Sua palavra é dirigida aos desalentados, àqueles que já se cansaram de esperar por justiça, acolhimento e restauração.

O profeta descreve o Reino de Deus como uma realidade na qual o sofrimento, a exclusão e tudo aquilo que limita a vida não terão a palavra final. Cegos, surdos, coxos e mudos aparecem como representantes de uma humanidade que espera pela ação restauradora de Deus.

Essa esperança, porém, nunca deve ser usada para tratar o corpo de uma pessoa com deficiência como inferior no presente. Pelo contrário: justamente porque esperamos a restauração plena de Deus, somos chamados desde agora a combater toda forma de exclusão, remover barreiras concretas e reconhecer a dignidade inteira de cada pessoa.

O ministério de Jesus

Jesus respondeu: “Voltem e anunciem a João o que vocês estão ouvindo e vendo: os cegos veem, os mancos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as boas-novas são pregadas aos pobres.” Mateus 11.4–5 — NVI

Quando Jesus exerceu seu ministério entre nós, tornou visível uma amostra da restauração prometida por Isaías. João Batista quis saber se Jesus era aquele que deveria vir. Em resposta, Jesus apontou para o que estava acontecendo diante dos olhos de todos: pessoas eram vistas, acolhidas, curadas e reintegradas.

Os evangelhos registram muitos desses encontros: Bartimeu; o paralítico de Cafarnaum; o homem com a mão atrofiada; o paralítico de Betesda; o menino que não ouvia nem falava; os cegos que clamaram por misericórdia.

Jesus não tratou essas pessoas como interrupções em sua agenda nem como objetos de curiosidade. Ele as viu, ouviu e recebeu. Suas curas eram sinais de que o Reino de Deus havia se aproximado e apontavam para a restauração plena da humanidade.

Os passos da igreja

Em Listra havia um homem paralítico dos pés, aleijado desde o nascimento, que vivia ali sentado e nunca tinha andado. Ele ouvira Paulo falar. Quando Paulo olhou diretamente para ele e viu que o homem tinha fé para ser curado, disse em alta voz: “Levante-se! Fique em pé!” Com isso, o homem deu um salto e começou a andar. Atos 14.8–10 — NVI

Nos primeiros passos da igreja, os sinais do Reino continuaram apontando para a restauração realizada por Deus. Cada corpo curado e cada vida reintegrada funcionavam como uma seta voltada para o futuro de Deus.

A missão da igreja, no entanto, não se resume à expectativa de milagres. Enquanto aguardamos a restauração plena, somos chamados a remover barreiras, promover acessibilidade, ouvir as pessoas com deficiência e garantir que participem da vida comunitária com seus dons, sua voz e sua autonomia. Não se trata apenas de compaixão, mas de reconhecimento: elas são irmãs e irmãos, participantes plenos do corpo de Cristo.

Pessoas pobres: a dignidade que não pode ser comprada

A dignidade humana também é violada quando a pobreza se torna motivo de desprezo. Embora tenha causas diversas e produza limitações concretas, nenhuma condição econômica justifica diminuir o valor de alguém. A dignidade não aumenta com o saldo bancário nem desaparece quando faltam recursos.

A pessoa pobre não pode ser menosprezada porque tem pouco. Ainda assim, isso acontece com frequência, especialmente em ambientes nos quais o valor das pessoas é medido por sua capacidade de consumir.

Quem segue Jesus toma o caminho inverso: considera, respeita e honra a pessoa pobre — inclusive quando o próprio cristão também vive em pobreza.

Quem dispõe de poucos recursos não pode ser humilhado por essa condição. No entanto, pessoas pobres muitas vezes são impedidas de conviver nos mesmos espaços, entrar pelas mesmas portas, partilhar a mesma mesa ou alimentar os mesmos sonhos. Aos poucos, sua humanidade lhes é negada. Quem segue Jesus toma o caminho inverso: reconhece, respeita e honra aqueles que vivem com pouco.

Quem enfrenta necessidades não pode ser abandonado. Mesmo assim, é comum que o sofrimento dos pobres seja justificado por discursos que os classificam, indistintamente, como preguiçosos, irresponsáveis ou culpados por toda a própria situação. Algumas pessoas chegam a usar textos bíblicos para legitimar a indiferença.

Quem segue Jesus toma o caminho inverso: acolhe, reparte e socorre conforme suas possibilidades.

Quem passa necessidade não pode ser transformado em motivo de pilhéria. Mas as lutas, limitações e dificuldades dos pobres são frequentemente banalizadas e convertidas em piada.

Quem segue Jesus toma o caminho inverso: recusa o escárnio e reconhece a dignidade que Deus concedeu a cada pessoa.

A proteção dos pobres no Antigo Testamento

Várias leis do Antigo Testamento tinham o propósito de impedir que a pobreza se transformasse numa sentença permanente de exclusão.

“No final de cada sete anos, as dívidas deverão ser canceladas. Isso deverá ser feito da seguinte forma: todo credor cancelará o empréstimo que fez ao seu próximo. Nenhum israelita exigirá pagamento de seu próximo ou de seu parente, porque foi proclamado o tempo do Senhor para o cancelamento das dívidas. Vocês poderão exigir pagamento do estrangeiro, mas terão que cancelar qualquer dívida de seus irmãos israelitas. Assim, não deverá haver pobre algum no meio de vocês, pois na terra que o Senhor, o seu Deus, lhes está dando como herança para que dela tomem posse, ele os abençoará ricamente, contanto que obedeçam em tudo ao Senhor, o seu Deus, e ponham em prática toda esta lei que hoje lhes estou dando.” Deuteronômio 15.1–5 — NVI

A lei impedia que dívidas se acumulassem indefinidamente e destruíssem famílias por sucessivas gerações. O alvo declarado era que a pobreza não se tornasse uma estrutura permanente no meio do povo.

A legislação bíblica não romantiza a necessidade. Ela chama a comunidade a organizar a vida de modo que os vulneráveis sejam protegidos e tenham a possibilidade de recomeçar.

Os pobres no ministério de Jesus

Jesus deu atenção especial aos pobres. Alimentou os famintos, curou os enfermos, denunciou exploradores e anunciou as boas-novas do Reino àqueles que costumavam ser ignorados.

Quando respondeu a João Batista, Jesus incluiu entre os sinais de seu ministério esta declaração:

“As boas-novas são pregadas aos pobres.”

Isso não era um detalhe. O evangelho alcançava pessoas que a sociedade havia colocado à margem e lhes anunciava que o Reino de Deus também lhes pertencia.

Os passos da igreja

A igreja seguiu os passos de Jesus. Em uma reunião que envolveu Tiago, Pedro, João, Paulo e Barnabé, a lembrança dos pobres apareceu como compromisso indispensável da missão cristã.

“Reconhecendo a graça que me fora concedida, Tiago, Pedro e João, tidos como colunas, estenderam a mão direita a mim e a Barnabé em sinal de comunhão. Eles concordaram em que devíamos nos dirigir aos gentios, e eles, aos circuncisos. Somente pediram que nos lembrássemos dos pobres, o que me esforcei por fazer.” Gálatas 2.9–10 — NVI

A comunhão entre os apóstolos não foi expressa apenas por concordância doutrinária ou divisão de campos missionários. Ela também incluiu uma responsabilidade concreta: lembrar-se dos pobres.

Uma igreja que se esquece dos pobres pode preservar muitas atividades religiosas, mas se afasta dos passos de Jesus. Lembrar-se deles não é um acréscimo opcional à missão cristã; é uma expressão concreta do evangelho que anuncia a dignidade de toda pessoa diante de Deus.

Criados humanos

O que significa ser humano?

Segundo as Escrituras, ser humano significa, antes de tudo, reconhecer que somos criaturas. Não temos vida em nós mesmos. Tudo o que temos e somos recebemos daquele que nos criou. Deus é a fonte da vida; nós dependemos dele.

Também significa abraçar a convicção de que nossa existência é intencional e de que nossa dignidade está fundamentada na imagem e semelhança de Deus. Essa dignidade não pode ser medida pela saúde, pela capacidade física, pela origem étnica, pela idade, pela história pessoal, pela condição moral ou pela situação econômica.

No mundo caído, continuaremos encontrando tentativas de dividir a humanidade entre vidas valiosas e vidas descartáveis, pessoas dignas e indignas, gente que merece ser vista e gente que pode ser abandonada.

As Escrituras, porém, nos colocam diante de um Deus que vê, protege, acolhe e restaura. Ele chama seu povo a participar dessa obra.

Podemos perceber isso nas leis dadas a Israel, no anúncio dos profetas, no ministério de Jesus e nos primeiros passos da igreja. Em todos esses testemunhos, somos alcançados pelo amor de Deus e convocados a reconhecer, proteger e honrar a dignidade do próximo.

Deus nos criou à sua imagem e semelhança. Não somos deuses; somos humanos — criaturas dependentes, limitadas e, ao mesmo tempo, revestidas de uma dignidade que vem do Criador.

Por isso, ser humano também é reconhecer a humanidade do outro.

Onde alguém estiver sendo tratado como menos humano, o povo de Deus deve aproximar-se, remover as pedras do caminho e afirmar, com palavras e atitudes:

Sua vida tem significado. Você carrega a imagem do Criador. Sua dignidade não pode ser apagada.