Na primeira mensagem da série Ser humano, começamos a refletir sobre nossa humanidade à luz das Escrituras.
Vimos que essa humanidade é uma condição comum a todos nós, uma realidade da qual não podemos fugir. Mas que condição é essa? O que realmente nos faz humanos e nos liga uns aos outros? O que é ser humano?
Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Gn 1.27 — NVI
A partir da narrativa da criação, no primeiro capítulo de Gênesis, vimos que somos criaturas. Reconhecer essa condição é parte do reconhecimento de nossa humanidade.
Destacamos duas afirmações fundamentais para o restante de nossa conversa.
A primeira é que nossa existência não é um acidente, mas resultado da ação criadora e intencional de Deus.
A segunda é que a assinatura de Deus está em nós. Fomos criados à sua imagem e semelhança. Isso confere dignidade a todo ser humano.
Essas verdades não servem apenas para explicar nossa origem. Elas devem transformar a maneira como enxergamos a nós mesmos e tratamos as outras pessoas.
Quando a dignidade humana é negada
De muitas maneiras, a condição de ser humano tem sido negada a determinados grupos. Esse processo é chamado de desumanização: o outro deixa de ser reconhecido como pessoa e passa a ser tratado como objeto, ameaça, estorvo ou vida descartável.
Ao longo da história, pessoas negras e indígenas foram descritas como inferiores. Idosos foram abandonados como se já não fossem gente. Pessoas pobres foram tratadas como seres humanos de segunda categoria. Crianças ainda no ventre foram reduzidas a problemas a serem eliminados. Criminosos foram chamados de “desalmados”, como se tivessem perdido toda a dignidade humana.
Pessoas com deficiência também foram — e continuam sendo — vítimas desse processo.
Para cada grupo desumanizado, surgem explicações destinadas a justificar moralmente o tratamento desumano. Primeiro, diminui-se sua humanidade. Depois, torna-se mais fácil negar-lhe direitos, submetê-lo à violência ou eliminá-lo.
Não podemos permanecer calados.
Precisamos resgatar, a começar por nós mesmos, a dignidade que conecta toda a humanidade: fomos criados intencionalmente por Deus, à sua imagem e semelhança.
Ainda que o pecado tenha corrompido nossa maneira de viver e de nos relacionar, ele não nos autoriza a apagar a imagem de Deus no próximo. A dignidade humana não pode ser concedida apenas a quem consideramos útil, produtivo, saudável ou merecedor.
Não há justificativa para aceitarmos que essa dignidade seja negada a nós nem para negá-la aos outros.
Pessoas com deficiência: uma história de desumanização
Ao longo da história, a deficiência foi usada como justificativa para rebaixar pessoas, restringir seus direitos e, em determinadas circunstâncias, negar-lhes até mesmo o direito à vida.
Na Grécia antiga, Platão imaginou, na cidade ideal descrita em A República, que crianças consideradas inferiores ou nascidas com alguma deformidade fossem retiradas secretamente da comunidade. Aristóteles foi mais explícito: em Política, defendeu que a lei não permitisse que uma criança nascida com deformidade fosse criada. Esses textos não provam que todos os gregos pensassem ou agissem assim, mas mostram que pensadores importantes admitiam subordinar a vida humana a critérios de força, saúde e utilidade. (Perseus)
Sobre Esparta, Plutarco relatou que os recém-nascidos eram examinados por anciãos e que aqueles considerados frágeis ou deformados eram levados a um lugar chamado Apothetae. Como Plutarco escreveu séculos depois dos acontecimentos que descreveu e reconheceu que as tradições sobre Licurgo eram divergentes, seu relato deve ser apresentado com cautela. Ainda assim, ele registra uma mentalidade segundo a qual uma vida que não correspondesse ao ideal de força poderia ser considerada sem valor para a sociedade. (Penelope)
No mundo romano, a reconstrução da Lei das Doze Tábuas determina que uma criança considerada gravemente deformada fosse morta imediatamente. A exposição de recém-nascidos também era conhecida, embora a deficiência não fosse sua única causa. Dificuldades econômicas, ilegitimidade e decisões sobre o tamanho da família também podiam levar ao abandono. Algumas dessas crianças morriam; outras eram recolhidas e submetidas à escravidão ou criadas por outras famílias. (Avalon Project)
Na Europa medieval, as atitudes foram variadas. Algumas pessoas relacionavam deficiências ao pecado, ao castigo de Deus ou à ação de forças demoníacas. Histórias populares sobre crianças supostamente substituídas por seres sobrenaturais alimentavam medo, rejeição e violência. Ao mesmo tempo, também há registros de cuidado familiar, assistência cristã e participação de pessoas com deficiência na vida social e religiosa. A Idade Média não possuía uma única maneira de enxergar a deficiência, mas nela também encontramos exemplos claros de desumanização. (PubMed)
Um exemplo especialmente grave aparece numa conversa atribuída a Martinho Lutero. Ele contou ter conhecido um menino de doze anos que julgou não ser uma criança humana, mas um changeling — uma criatura demoníaca supostamente colocada no lugar de uma criança. Lutero afirmou aos príncipes presentes que, caso tivesse autoridade, mandaria afogá-lo. Os príncipes recusaram sua recomendação. Esse episódio revela um dos graves pontos cegos do reformador: uma crença supersticiosa levou-o a negar a humanidade daquela criança e a considerar aceitável sua morte. (Publicações AAP)
No Brasil, também existem relatos e debates sobre a morte ou o abandono de recém-nascidos em alguns povos indígenas, em circunstâncias relacionadas à deficiência, ao nascimento de gêmeos, às condições da maternidade ou a concepções específicas sobre a entrada da criança na comunidade. Uma reportagem do Fantástico, exibida em 2014, afirmou que práticas dessa natureza ocorriam em pelo menos treze etnias. Esse número deve ser atribuído à reportagem e não pode ser generalizado a todos os povos indígenas, cujas culturas são diversas e entre os quais também existem famílias e comunidades que resistem a essas práticas e protegem suas crianças. (Globoplay)
Em épocas e culturas diferentes, o mecanismo se repete: primeiro se reduz a humanidade de alguém; depois, torna-se mais fácil justificar a violência contra essa pessoa.
É exatamente esse caminho que as Escrituras nos proíbem de seguir.
Nenhuma deficiência apaga a imagem de Deus. Nenhuma limitação transforma uma pessoa em alguém menos humano.
A proteção na lei de Deus
O que encontramos nas Escrituras sobre essa questão?
Não é possível aprofundar todos os aspectos do tema numa única reflexão, mas alguns textos apontam uma direção muito clara.
“Não amaldiçoem o surdo nem ponham pedra de tropeço à frente do cego, mas temam o seu Deus. Eu sou o Senhor.” Lv 19.14 — NVI
“‘Maldito quem fizer o cego errar o caminho.’ Todo o povo dirá: ‘Amém!’” Dt 27.18 — NVI
O direito à vida foi estabelecido nos Dez Mandamentos pela ordem “não matarás”. Jesus aprofundou esse mandamento ao ensinar que a violência não começa apenas quando a vida física é retirada. O desprezo, o ódio, a humilhação e a hostilidade também ferem e destroem o próximo.
As pessoas com deficiência estão incluídas nesse amplo direito à vida apresentado nos mandamentos e explicado por Jesus.
Nos textos de Levítico e Deuteronômio, porém, há algo ainda mais específico. O direito de viver já está pressuposto. A questão é a maneira como essas pessoas devem ser tratadas.
Não amaldiçoem.
Não ponham pedras de tropeço.
Não façam o cego errar o caminho.
Em outras palavras: não explorem suas limitações, não aumentem suas dificuldades e não transformem sua vulnerabilidade em oportunidade para crueldade.
Esses mandamentos também nos ensinam algo sobre acessibilidade. Uma sociedade ou uma igreja que cria barreiras desnecessárias faz justamente o contrário daquilo que Deus ordena. Em vez de facilitar a participação, coloca pedras no caminho.
O texto de Levítico apresenta uma advertência importante:
“Temam o seu Deus. Eu sou o Senhor.”
Em vez de tornar a vida das pessoas com deficiência ainda mais difícil, devemos temer a Deus.
A pessoa com deficiência pertence ao Senhor e carrega sua imagem. Quem a humilha afronta o seu Criador. Quem se aproveita de suas limitações age como se Deus não estivesse vendo.
Deus é o Senhor de tudo e de todos. Por isso, ele mesmo se levanta em defesa daqueles que se encontram indefesos e ameaçados.
As Escrituras não deixam dúvidas de que o Senhor está ao lado dos fracos, dos oprimidos, dos esquecidos e dos desprezados. O melhor que podemos fazer é nos juntar a ele.
A esperança anunciada pelo profeta
Digam aos desalentados de coração: “Sejam fortes, não tenham medo. Eis aí está o Deus de vocês. A vingança vem, a retribuição de Deus; ele vem para salvar vocês.”
Então se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; os coxos saltarão como as corças, e a língua dos mudos cantará. Pois águas arrebentarão no deserto, e ribeiros, no ermo. Is 35.4–6 — NAA
Esse é um texto messiânico. Isaías anuncia a salvação que virá do Senhor.
Ele fala aos desalentados, àqueles que se cansaram de esperar por justiça, cuidado, respeito e restauração. O Senhor lhes diz:
“Sejam fortes. Não tenham medo. Deus vem para salvar vocês.”
O profeta descreve o Reino de Deus como uma realidade na qual a dor, a exclusão e tudo aquilo que oprime a vida não terão a palavra final.
Cegos, surdos, coxos e pessoas que não falam aparecem como representantes de uma humanidade ferida que aguarda a intervenção restauradora de Deus.
Isaías anuncia que a realidade presente será transformada. Quando o Messias estiver reinando plenamente, os cegos verão, os surdos ouvirão, os coxos saltarão e aqueles cuja fala estava impedida cantarão.
Que cena maravilhosa o profeta nos ajuda a contemplar!
Essa esperança, porém, não nos autoriza a tratar uma pessoa com deficiência como inferior no presente. Também não nos permite reduzi-la a um corpo que precisa ser consertado.
Pelo contrário: justamente porque esperamos a restauração plena de Deus, somos chamados agora a reconhecer a dignidade inteira de cada pessoa, combater a exclusão e remover as barreiras que dificultam sua participação.
Pessoas com deficiência no ministério de Jesus
Jesus respondeu: “Voltem e anunciem a João o que vocês estão ouvindo e vendo: os cegos veem, os mancos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as boas-novas são pregadas aos pobres.” Mt 11.4–5 — NVI
Quando Jesus, o Messias anunciado por Isaías, exerceu seu ministério entre nós, tornou visível uma amostra da restauração prometida.
João Batista quis saber se Jesus era aquele que deveria vir. Em resposta, Jesus apontou para o que estava acontecendo diante dos olhos de todos: pessoas eram vistas, acolhidas, curadas e reintegradas.
A esperança anunciada pelos profetas já havia começado a se realizar.
Os evangelhos registram muitos desses encontros: Bartimeu; o paralítico de Cafarnaum; o homem com a mão atrofiada; o paralítico de Betesda; o menino que não ouvia nem falava; os cegos que clamaram por misericórdia.
Jesus não tratou essas pessoas como interrupções em sua agenda. Não as transformou em espetáculo nem em objetos usados para demonstrar sua espiritualidade.
Ele as viu e ouviu.
Ele se aproximou delas e as tratou como pessoas.
Suas curas eram sinais da chegada do Reino de Deus. Apontavam para o dia em que o sofrimento, a exclusão, a doença e a morte não mais dominarão a criação.
Cada pessoa acolhida e restaurada era como uma seta apontando para o tempo em que Deus fará novas todas as coisas.
Os primeiros passos da igreja
Em Listra havia um homem paralítico dos pés, aleijado desde o nascimento, que vivia ali sentado e nunca tinha andado. Ele ouvira Paulo falar. Quando Paulo olhou diretamente para ele e viu que o homem tinha fé para ser curado, disse em alta voz: “Levante-se! Fique em pé!” Com isso, o homem deu um salto e começou a andar. At 14.8–10 — NVI
Nos primeiros passos da igreja, os sinais do Reino continuaram apontando para a restauração realizada por Deus.
Assim como acontecia no ministério de Jesus, cada corpo curado e cada vida restaurada eram sinais do futuro de Deus — o tempo em que seremos seres humanos completos, inteiros e plenamente livres de tudo aquilo que oprime a criação.
A missão da igreja, entretanto, não pode ser reduzida à expectativa de curas.
Enquanto aguardamos a restauração plena, somos chamados a acolher, ouvir, remover obstáculos e abrir espaço para a participação das pessoas com deficiência.
Elas não são apenas destinatárias de nossa compaixão. São irmãs e irmãos, membros do corpo de Cristo, portadores de dons, experiências, vocações e responsabilidades.
Uma igreja pode falar muito sobre amor e, ao mesmo tempo, manter portas, linguagens, estruturas e atitudes que impedem a participação de algumas pessoas.
Por isso, não basta perguntar se permitimos que pessoas com deficiência entrem. Precisamos perguntar se estamos construindo uma comunidade na qual elas possam pertencer, servir, ensinar, decidir e ser ouvidas.
O que nos cabe hoje?
Nós, que cremos em Jesus, fomos chamados a nos juntar a Deus na defesa e no reconhecimento da dignidade das pessoas com deficiência.
O que nos cabe fazer?
Há muitas respostas possíveis, mas podemos começar com três atitudes.
1. Confessar nossa indiferença
Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça. Se afirmarmos que não temos cometido pecado, fazemos de Deus um mentiroso, e a sua palavra não está em nós. 1 João 1.8–10 — NVI
A primeira coisa que precisamos fazer é confessar.
Precisamos reconhecer que nem sempre nos importamos tanto quanto deveríamos com as barreiras, humilhações e sofrimentos enfrentados pelas pessoas com deficiência.
Talvez nunca tenhamos cometido uma agressão deliberada. Mesmo assim, podemos ter permanecido indiferentes.
Podemos ter rido de alguma limitação, usado palavras ofensivas, ocupado indevidamente um espaço reservado e até ignorado as dificuldades que nossas estruturas, atitudes e decisões impõem.
Não adianta apresentar explicações para provar que não somos pessoas tão ruins. Como João nos ensina, quando nos justificamos o tempo todo, perdemos a oportunidade de reconhecer o pecado, receber o perdão de Deus e refazer esse capítulo de nossa história.
Precisamos nos aproximar do Senhor e confessar nossa indiferença, nosso preconceito e nossa falta de atenção, sempre que isso for verdade.
A confissão não é o fim do caminho. É o começo de uma vida transformada pela graça.
2. Mudar os óculos
Não sejam mais moldados por este mundo mas, pela nova maneira de vocês pensarem, vivam uma vida diferente. Então vão descobrir a vontade de Deus para vocês, isto é, o que é bom, agradável a ele e perfeito. Rm 12.2 — VFL
Além de confessar, precisamos mudar a maneira como enxergamos o mundo e as pessoas ao nosso redor.
Precisamos permitir que nossa mente seja transformada pela exposição à Palavra de Deus.
Na primeira mensagem e nesta reflexão, recebemos duas lentes novas para nossos óculos:
A existência humana não é um acidente, mas resultado da ação intencional de Deus. Isso confere dignidade a todos.
Todos fomos criados à imagem e semelhança de Deus. A assinatura do Criador está em cada ser humano.
Troque as lentes.
Deixe de lado as lentes do preconceito e do descaso.
Abandone as lentes da arrogância e da autossuficiência.
Jogue fora as lentes da falsa superioridade e da sabedoria própria.
Permita que essas verdades encharquem sua mente até moldarem seu jeito de viver.
Uma pessoa não vale menos porque precisa de ajuda para realizar determinada atividade. Também não vale mais porque consegue viver com maior autonomia.
Nossa dignidade não é medida pelo desempenho, pela produtividade, pela aparência ou pela correspondência a determinado padrão corporal.
Somos dignos porque fomos criados por Deus e carregamos sua imagem.
3. Fazer algo concreto
Meus filhinhos, o nosso amor não deve ser somente de palavras e de conversa. Deve ser um amor verdadeiro, que se mostra por meio de ações. 1 Jo 3.18 — NTLH
Por fim, precisamos fazer algo concreto.
Este mundo está cheio de palavras de amor e carente de ações que expressem esse amor.
Olhe para sua atividade profissional. O que você pode fazer para tornar menos difícil a vida das pessoas com deficiência?
Olhe para sua família e para seus amigos. Você contribui para formar atitudes de respeito, acolhimento e apoio?
Seus filhos estão sendo ensinados a respeitar, ajudar e defender pessoas com deficiência?
Há pessoas com deficiência em seus círculos reais de amizade e convivência ou elas aparecem apenas como objetos distantes de nossa compaixão?
No trânsito, você respeita as vagas reservadas? Uma vaga exclusiva não pode ser ocupada “só por um minutinho”.
Nos centros comerciais, você respeita as mesas, os banheiros e os espaços destinados a pessoas com deficiência?
Na internet e nas conversas cotidianas, você evita palavras e piadas que usam deficiências como insultos?
Olhe também para si mesmo. Você possui alguma deficiência ou limitação que procura esconder por medo da rejeição? Por que temos tanta dificuldade de falar sobre nossas próprias fragilidades?
E em nossos encontros como igreja?
O que temos feito para facilitar o acesso das pessoas com deficiência ao evangelho, à comunhão e ao serviço cristão?
Nossos espaços físicos são acessíveis? A comunicação pode ser compreendida por pessoas com diferentes necessidades? Nossas atividades incluem ou afastam?
Estamos dispostos a ouvir as próprias pessoas com deficiência antes de decidir do que elas precisam?
Não basta desejar que elas venham. Precisamos remover as pedras do caminho.
O amor verdadeiro não se limita a declarações. Ele se torna visível em atitudes, estruturas, escolhas e relacionamentos.
Inteiros diante de Deus
Quero concluir recordando a resposta de Deus a Moisés.
Quando foi chamado para voltar ao Egito e conduzir o povo à liberdade, Moisés argumentou que não era a pessoa adequada. Parecia dizer que Deus havia escolhido o irmão errado. Arão falava com desenvoltura; Moisés tinha dificuldade para se expressar.
Então o Senhor respondeu:
E o Senhor lhe disse: “Quem fez a boca do homem? Quem fez o mudo, o surdo, o que vê ou o cego? Não fiz eu, o Senhor?” Ex 4.11 — BKJ 1611
Esse texto não responde a todas as nossas perguntas sobre a origem das deficiências. Ele afirma, porém, que nenhuma limitação coloca alguém fora da soberania, da atenção ou do chamado de Deus.
Moisés tentou usar sua dificuldade como prova de que não poderia ser chamado. Deus não negou a dificuldade de Moisés, mas também não permitiu que ela se transformasse na medida de sua dignidade.
O Criador não mede nossa dignidade pelo corpo que temos, pela maneira como pensamos, pela velocidade com que aprendemos, pela clareza de nossa fala ou pelo grau de autonomia que alcançamos.
Pessoas com deficiência não são seres humanos pela metade.
Não existem apenas para despertar compaixão nem para ensinar lições às outras pessoas.
São pessoas criadas por Deus, portadoras de sua imagem, com dons, voz, vocação e lugar em sua comunidade.
Por isso, Deus nos convida a nos juntarmos a ele na restauração deste mundo: reconhecendo, preservando e defendendo a dignidade das pessoas com deficiência.
Não importa se somos tortos, se nos falta um pedaço, se somos lentos, se não enxergamos, se não ouvimos, se nossa fala encontra obstáculos ou se precisamos de ajuda para realizar aquilo que outros fazem sozinhos.
Diante de Deus, não somos pessoas pela metade.
Somos inteiros.
Seres humanos criados por ele, à sua imagem e semelhança.
Essa é a marca de nossa humanidade.
Segunda mensagem da série “Ser humano”, pregada em 29 de janeiro de 2023 e revisada para publicação no blog.
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