Certo dia Jesus estava orando em determinado lugar. Tendo terminado, um dos seus discípulos lhe disse: “Senhor, ensina-nos a orar, como João ensinou aos discípulos dele”.Ele lhes disse: “Quando vocês orarem, digam: “Pai! Santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino.Dá-nos cada dia o nosso pão cotidiano.Perdoa-nos os nossos pecados, pois também perdoamos a todos os que nos devem. E não nos deixes cair em tentação”. Lucas 11.3–4
Abertura
Até aqui, Jesus nos mostrou onde a oração começa. Ela começa quando somos recebidos por Deus como filhos e aprendemos a chamá-lo de Pai.
Em seguida, ele ensinou que, antes de apresentar aquilo que desejamos, nosso coração precisa aprender a desejar aquilo que diz respeito ao Pai: que o seu nome seja honrado e que o seu Reino venha.
Agora, a oração de Jesus nos conduz à vida e somos levados para as coisas básicas, vividas todos os dias. Ele falará do pão que falta, do perdão de que precisamos e das tentações que enfrentamos. E como filhos que somos, podemos levar tudo isso ao Pai.
A forma de oração registrada por Lucas é mais breve do que aquela que muitos de nós aprendemos em Mateus. Em Mateus, depois de “venha o teu Reino”, Jesus também diz: “Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”.
As duas formas caminham na mesma direção. Quando pedimos que venha o Reino de Deus, desejamos que a vontade do Pai alcance a nossa vida, a nossa casa, a igreja e o mundo.
E é dentro desse Reino que temos a liberdade de falar com o Pai sobre aquilo de que precisamos. Ao ensinar sobre oração, Jesus nos mergulha na realidade da mesa, da consciência, dos relacionamentos e das lutas que enfrentamos.
Dá-nos cada dia o nosso pão cotidiano. Perdoa-nos os nossos pecados, pois também perdoamos a todos os que nos devem. E não nos deixes cair em tentação”.
Jesus coloca diante de nós três dimensões muito reais da vida: aquilo de que precisamos, aquilo que fizemos e aquilo que ainda podemos fazer.
Jesus fala do pão
“Dá-nos cada dia o nosso pão cotidiano.”
Pedir pão pode parecer um assunto pequeno demais para levar a Deus. Afinal, para muitos de nós, a geladeira já está cheia e o salário cai todo mês. Ainda assim, somos ensinados a tratar a oração como uma oportunidade para reconhecermos que o sustento vem da mão do Pai — mesmo quando ele chega por meio do nosso próprio esforço.
Pão é comida na mesa. É trabalho. É saúde para continuar. É sabedoria para administrar uma casa. É provisão para a família. É cuidado para quem já não consegue cuidar de si.
Jesus nos ensina a pedir o pão de cada dia porque nossa vida depende de Deus todos os dias. Não há preocupação com pão da semana ou com o pão de um mês, mas apenas com o pão de hoje.
Quando a oração nasce de um coração autossuficiente, perde seu sentido; já não é oração, mas uma demonstração de capacidade.
Timothy Keller escreveu que orar “é aceitar que somos, e sempre seremos, completamente dependentes de Deus para tudo”. Essa dependência precisa ser reconhecida antes das grandes crises. Ela está presente no pão de cada dia, no trabalho de cada dia e na saúde de cada dia.
Por isso, a oração se torna um caminho que precisa ser percorrido diariamente, para enfrentarmos, a cada dia, as lutas daquele dia. Como Jesus disse em outro momento: “Basta a cada dia o seu mal”. O dia de hoje está diante de nós, e podemos nos aproximar do Pai em oração para pedir o pão de que precisamos.
Pedir também nos ensina a aprender gratidão. Assim, uma oração honesta pelo pão nos afasta tanto da ansiedade de quem teme não ter o suficiente quanto da indiferença de quem já não percebe mais o quanto tem recebido.
Por outro lado, Jesus nos ensina a dizer: “Dá-nos” e não "dá-me". Porque o pão não é só para mim. Assim, a oração se converte nas lentes que nos ajudam a enxergar melhor os que estão sem pão perto da gente: uma família que perdeu renda, uma pessoa enferma, alguém que está sem trabalho ou apenas os que estão exaustos, porque tem que fazer tudo sozinho.
Ao nos ensinar sobre oração, Jesus abre nossos olhos e movimenta nossas mãos. Pedimos provisão ao Pai e, ao mesmo tempo nos dispomos a ser a resposta de Deus pelas pessoas à nossa volta.
Jesus fala do perdão
“Perdoa-nos os nossos pecados…”
Por que pedir perdão?
Em nossa cultura, essa pergunta pode parecer estranha para algumas pessoas. A verdade é que a gente até percebe quando alguém nos ofende, nos decepciona ou nos trata com injustiça. Mas a ideia de pecado tem sido deixada de lado. Preferimos pensar em termos de escolhas pessoais, falhas até certo ponto compreensíveis e explicadas ou maneiras diferentes de viver.
Jesus, porém, considera o pecado uma realidade sobre a qual precisamos falar com Deus. Por quê?
Quando mentimos, traímos, agimos com egoísmo, guardamos rancor, usamos as pessoas em vez de amá-las ou deixamos de fazer o bem que poderíamos fazer, antes de tudo estamos indo contra Deus.
Além disso, quando nossa maneira de viver se tornar um caminho de autodestruição e coopera para que o mundo criado por Deus se torne menos um lugar de paz e mais um lugar de caos. Isso também é ir contra ele.
Por isso, precisamos de perdão.
Jesus nos ensina a reconhecer a realidade do pecado. Ele explica que não precisamos fugir quando formos flagrados ou nos flagramos cometendo pecado. Podemos levar tudo isso ao Pai em oração.
Veja só: o Deus revelado por Jesus é um Pai a quem podemos nos chegar mesmo quando formos desleais, injustos e egoístas. O filhos de Deus podem se voltar para ele quando percebem que erraram. Podem falar a verdade. Podem confessar o pecado e receber perdão.
E a oração é o lugar para tudo isso acontecer.
Jesus acrescenta
“…pois também perdoamos a todos os que nos devem.”
Jesus une essas duas coisas. “Perdoa-nos” é a oração de quem também está aprendendo a perdoar.
Quem reconhece o próprio pecado e recebe um perdão que não merece não pode continuar usando a dívida do outro como uma arma para controlar, ferir e aprisionar, como se estivesse sempre do lado do bem e o outro carregasse todo o mal.
É justamente essa separação que Miroslav Volf denuncia:
“O perdão fracassa quando excluo o inimigo da comunidade dos seres humanos e a mim mesmo da comunidade dos pecadores.”
Diante do Pai, essa separação não se sustenta. Nós também somos devedores. Recebemos misericórdia antes de oferecê-la.
Jesus nos ensina a olhar para as pessoas que nos feriram, nos decepcionaram ou nos prejudicaram e perguntar: o que estou fazendo com isso? Por que estou alimentando o desejo de fazer o outro pagar quando eu mesmo fui perdoado?
Perdoar não é abrir mão da verdade, da justiça ou dos limites. Perdoar é recusar-se a deixar que a dor ou o prejuízo que sofremos passe a guiar o nosso coração, as nossas palavras e as nossas escolhas.
A oração que Jesus ensina é abre caminho para um tipo de perdão que alcança a maneira como tratamos uns aos outros. Nós nos achegamos ao Pai como pessoas perdoadas e, por isso, abrimos mão de viver como cobradores implacáveis das dívidas dos outros.
Jesus fala sobre nossa fragilidade
“E não nos deixes cair em tentação.”
Aqui reconhecemos algo simples e sério: somos frágeis. Apenas a nossa vontade de acertar não é suficiente e há forças dentro de nós e fora de nós que são poderosas. Por isso precisamos de ajuda.
Tentação é outra palavra que caiu em descrédito. Há quem faça pouco caso e transforme em piada e também quem normalize como meras circunstâncias comportamentais.
Mas, como Jesus reconhece a realidade do pecado e sua capacidade de destruição em nossas vidas, ele nos ensina a pedir ajuda para não cedermos aos apelos de fora e de dentro.
A tentação chega na conversa que pode sair do controle quando alguém nos provoca. Vem na escolha que parece vantajosa, mas exige fechar os olhos para o que é certo. Vem na resposta dada por impulso, antes de pensarmos no que estamos dizendo. Vem no momento em que teríamos a chance de devolver o mal na mesma moeda — bem depois de termos acabado de pedir perdão pelos nossos próprios pecados.
Vem também nas horas mais silenciosas: o cansaço que abre espaço para nossos vícios, a solidão que nos deixa vulnerável a escolhas que depois nos arrependemos, a pressão que nos convida a cortar caminho pela desonestidade.
Precisamos da ajuda.
Jesus nos ensina a não confiar na nossa própria força de vontade, a pedir ajuda antes de a provação chegar — porque, quando ela já está diante de nós, e nos pega despreparados, resistir é muito mais difícil.
Lutero afirmou que pedimos a Deus que “nos proteja e nos salve”, para que não sejamos enganados ou seduzidos pela tentação. Assim reconhecemos que há forças que nos ameaçam, mas também reconhece que não precisamos enfrentá-las sozinhos.
Também nesse trecho da oração é coletiva; menos solitária e mais solidária. Jesus ensina a orarmo "não nos deixes", no plural — a mesma forma usada no pedido de perdão.
Isso significa que também somos chamados a vigiar uns pelos outros: a perceber quando um irmão está cansado demais, isolado demais ou perto demais de uma escolha da qual se arrependerá, e a orar por ele antes que a queda aconteça.
Orar assim é dizer:
“Pai, guarda meus passos. Ajuda-me a perceber o que está acontecendo em mim. Não me deixe seguir por um caminho que vai me afastar de ti e ferir as pessoas ao meu redor.”
Pão, perdão e tentação: aquilo de que precisamos, aquilo que fizemos e aquilo que ainda podemos fazer.
Conclusão
A oração ensinada por Jesus alcança a vida inteira. Não existe parte da nossa rotina que fique de fora da conversa com o Pai — nem a mesa, nem a consciência, nem a fraqueza que só nós conhecemos.
Hoje, podemos nos aproximar dele com aquilo que nos falta, com aquilo que precisamos confessar e com as lutas nas quais precisamos de proteção.
Vamos permanecer alguns instantes diante de Deus.
Se hoje você reconhece uma necessidade que não confessou a ninguém, leve-a ao Pai — ele já conhece, mas quer ouvir de você.
Se existe alguém que você ainda não perdoou, peça ao Pai que comece esse trabalho em você. Não é preciso fingir que está tudo bem; perdoar desarma a amargura e o ressentimento e cicatriza a ferida da ofensa recebida.
E se hoje você reconhece uma tentação diante da qual se sente fraco, não espere a hora da queda para orar. Peça agora: "Pai, guarda meus passos."
Vamos pedir pelo nosso pão, confessar nossos pecados e pedir ajuda para as tentações — porque a vida inteira cabe na oração.3 Dá-nos cada dia o nosso pão cotidiano. 4 Perdoa-nos os nossos pecados, pois também perdoamos a todos os que nos devem. E não nos deixes cair em tentação”.