Numa manhã de janeiro, ouvi Dani contar que ela e o irmão Eraldo haviam retirado a decoração de fim de ano. Pensei: “Pronto! Agora o ano começou!”
Na verdade, o ano já havia começado há mais de três semanas. O primeiro mês avançava rapidamente. O tempo segue numa carreira desembestada. Talvez seja por isso que, a cada 365 dias, zeramos a contagem e começamos um novo ano, como quem abre uma página cheia de possibilidades.
A passagem de um ano para outro é celebrada em muitas culturas. No Brasil, a Lei nº 108, de 1935, consagrou o dia 1º de janeiro à comemoração da Fraternidade Universal. Anos depois, o papa Paulo VI propôs que o primeiro dia do ano também fosse celebrado como Dia Mundial da Paz, cuja primeira observância ocorreu em 1º de janeiro de 1968.
De certa forma, começamos o ano lembrando que somos todos humanos. Temos culturas diferentes, falamos línguas distintas, professamos crenças diversas e vivemos realidades muito desiguais. Ainda assim, há algo que nos antecede e nos aproxima: compartilhamos a mesma condição humana. É a partir dessa consciência que a reflexão se volta para uma pergunta essencial.
Mas o que significa ser humano? O que nos une uns aos outros? O que as Escrituras revelam sobre a nossa condição?
Esta reflexão inicia uma série de quatro mensagens sobre a condição humana que compartilhamos. Pode parecer um assunto apenas teórico, mas não é. Aquilo que cremos sobre o ser humano interfere diretamente na maneira como enxergamos a nós mesmos, tratamos as outras pessoas e encaramos a vida diante de Deus e do próximo.
Somos criaturas
Uma das primeiras afirmações da Bíblia a nosso respeito é que fomos criados. Somos criaturas.
Então disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os grandes animais de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão”. Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Gênesis 1.26–27 — NVI
Criação e dignidade
O texto afirma que homens e mulheres existem por uma decisão livre e intencional de Deus. Nossa existência não é apresentada como acidente, descuido ou sobra do universo, mas como resultado da ação deliberada do Criador.
Imagine-se sentado confortavelmente numa bela praia de sua propriedade, plenamente satisfeito, sem que nada lhe falte. O que o faria sair dessa condição?
Talvez a resposta fosse:
— Nada, pastor!
Deus, porém, não criou porque lhe faltava alguma coisa. Ele não precisava do universo nem da humanidade para se completar. Criou livremente, segundo sua vontade e seu propósito. Trouxe à existência o universo, a vida e, entre todas as criaturas, homens e mulheres.
Ainda não respondemos a todas as perguntas sobre o propósito da criação, mas já sabemos algo essencial: a vida humana é intencional. Fomos desejados pelo Criador, e isso confere dignidade à nossa existência.
Meu sogro tem uma caixa na qual guarda todo tipo de objeto que encontra pelo caminho: um pedaço de metal, um parafuso diferente, uma pequena peça com algum encaixe. Minha sogra costuma dizer que aquilo é apenas uma caixa de tranqueiras, mas ele continua guardando tudo. Mais de uma vez, eu o vi recorrer àquela caixa e encontrar exatamente a peça de que precisava.
Aquelas peças não foram produzidas por acaso. Cada uma foi fabricada com alguma finalidade, mesmo quando já não sabemos qual era. De modo semelhante, ainda que a vida nos tenha lançado ao chão, ainda que nos sintamos desprezados, esquecidos ou deixados de lado, nossa existência não perde seu sentido: fomos criados por Deus.
Isso não significa que compreenderemos imediatamente tudo o que acontece conosco, nem que encontraremos uma explicação simples para cada sofrimento. Significa, porém, que nossa dignidade não depende da utilidade que os outros enxergam em nós, do lugar que ocupamos ou do quanto conseguimos produzir.
Há uma razão para a sua vida. Por isso, você não deve renunciar à dignidade que recebeu do Criador.
Essa verdade também muda a maneira como tratamos as outras pessoas. Elas igualmente foram criadas por Deus. Quando encontramos alguém caído à beira da estrada, convencido de que não tem valor, somos chamados a nos aproximar e recordar:
Sua vida tem significado. Você é importante. Sua existência não é um acaso.
Como diz uma antiga canção:
Deus tem um plano em cada criatura;
aos astros, ele dá um céu;
a cada rio, ele dá um leito;
e um caminho para mim traçou.
— Richard D. Baker
Assim, a dignidade que nasce da criação intencional de Deus é comum a toda a humanidade. Ser humano é reconhecer a si mesmo e aos outros como criaturas desejadas por Deus, cuja existência não depende da utilidade que alguém lhes atribui.
Essa primeira afirmação prepara a segunda: não apenas fomos criados por Deus, mas fomos criados de modo singular. A dignidade humana nasce da criação e se aprofunda quando Gênesis afirma que carregamos a imagem do Criador.
Imagem e dignidade
Gênesis acrescenta uma afirmação ainda mais profunda: homens e mulheres foram criados à imagem e semelhança de Deus.
Isso não significa que sejamos divinos. Continuamos sendo criaturas, dependentes daquele que nos deu a vida. Significa, porém, que fomos criados para representar Deus no mundo e refletir algo de seu caráter, de sua vontade e de seu governo. Entre todas as criaturas, o ser humano recebe essa vocação singular.
Pense numa obra de arte esquecida por muitos anos. Ela pode estar encostada numa parede, coberta de poeira e tratada como algo sem valor. Quando, porém, a assinatura do artista é reconhecida, todos passam a olhar para a mesma obra de outra maneira. A assinatura revela sua origem.
A imagem de Deus é como a assinatura do Criador gravada em nossa humanidade.
Por isso, não importa se alguém foi esquecido, desprezado ou deixado de lado. Não importa há quanto tempo está “encostado numa parede” da vida. Todo ser humano carrega a marca de seu Criador e, por isso, deve ser tratado com respeito, cordialidade e consideração.
Nossa existência não é um acidente. Fomos criados intencionalmente por Deus.
A assinatura do Criador está em nós. Isso é parte inseparável de nossa humanidade.
Quando a dignidade é negada
Se todos os seres humanos foram criados por Deus e carregam sua imagem, ninguém pode ser tratado como menos humano. No entanto, ao longo da história, a dignidade e os direitos de muitos grupos foram negados.
Esse processo é chamado de desumanização. Ele acontece quando alguém deixa de ser visto como pessoa e passa a ser tratado como objeto, ameaça, estorvo, mercadoria ou vida descartável.
Pessoas com deficiência já foram tratadas como se não possuíssem plena humanidade. Povos negros e indígenas foram escravizados, explorados e descritos como inferiores. Crianças ainda no ventre são, por vezes, reduzidas a um problema a ser eliminado. Criminosos podem ser tratados como se tivessem perdido todo direito à dignidade. Idosos são abandonados como se já não fossem gente. Pessoas pobres são tratadas como seres humanos de segunda categoria.
Para cada forma de desumanização, são criadas explicações, teorias e justificativas. Mas nenhuma delas pode apagar o que Deus declarou na criação.
Embora o pecado desfigure nossa humanidade e corrompa nossos relacionamentos, a imagem de Deus continua sendo o fundamento da dignidade humana. Essa dignidade não deve ser concedida apenas a quem julgamos merecedor. Ela deve ser reconhecida, protegida e jamais violada.
Não há justificativa para tratarmos uns aos outros como menos humanos.
Pessoas com deficiência: dignidade, cuidado e participação
Em diferentes épocas, pessoas com deficiência foram submetidas ao abandono, à ridicularização, à exclusão e até à morte. É preciso, contudo, evitar generalizações históricas simplistas: pesquisas mais recentes mostram que as atitudes das sociedades antigas eram mais variadas do que muitas narrativas populares sugerem. Ainda assim, há registros reais de práticas cruéis e de discursos que negavam a plena humanidade dessas pessoas.
Até mesmo Martinho Lutero, em um de seus graves pontos cegos, reproduziu crenças desumanizantes de seu tempo ao falar sobre uma criança que ele considerava um changeling — uma suposta criatura demoníaca colocada no lugar de uma criança — e sugerir que fosse afogada. O episódio nos lembra que nenhuma tradição, instituição ou liderança está dispensada de examinar criticamente suas próprias atitudes.
O que encontramos nas Escrituras sobre essa questão? Não é possível aprofundar todos os aspectos do tema em uma única reflexão, mas alguns textos apontam uma direção clara.
A partir daqui, a reflexão seguirá um percurso simples: primeiro, a proteção que aparece na lei de Deus; depois, a esperança anunciada pelos profetas; em seguida, o ministério de Jesus; por fim, os passos da igreja. Esse caminho mostra que a dignidade das pessoas com deficiência não é um detalhe periférico, mas atravessa o testemunho bíblico.
A proteção na lei de Deus
“Não amaldiçoem o surdo nem ponham pedra de tropeço à frente do cego, mas temam o seu Deus. Eu sou o Senhor.” Levítico 19.14 — NVI
“‘Maldito quem fizer o cego errar o caminho.’ Todo o povo dirá: ‘Amém!’” Deuteronômio 27.18 — NVI
O mandamento “não matarás” protege a vida humana. Jesus aprofundou esse mandamento ao mostrar que a violência contra o próximo começa antes do ato de tirar-lhe a vida: ela também se manifesta no desprezo, no ódio e na humilhação.
Nos textos do Levítico e do Deuteronômio, pessoas com deficiência são mencionadas especificamente. Não basta reconhecer seu direito de existir. O povo de Deus é proibido de explorar suas limitações, dificultar sua caminhada ou transformar sua vulnerabilidade em ocasião para crueldade.
“Não amaldiçoem.”
“Não ponham pedra de tropeço.”
“Não façam errar o caminho.”
Em linguagem contemporânea, poderíamos dizer: não criem barreiras; não explorem limitações; não transformem a vulnerabilidade de alguém em ocasião para abuso; não façam da vida de uma pessoa uma caminhada ainda mais difícil.
Levítico acrescenta uma razão decisiva:
“Temam o seu Deus. Eu sou o Senhor.”
A pessoa com deficiência pertence a Deus e carrega sua imagem. Quem a humilha afronta o seu Criador. Quem cria obstáculos deliberados diante dela age como se Deus não estivesse vendo. Por isso, em vez de tornar sua vida mais difícil, o povo é chamado a temer o Senhor.
Deus se apresenta nas Escrituras como defensor dos fracos, dos oprimidos, dos esquecidos e dos desprezados. O melhor que podemos fazer é nos juntar a ele.
A esperança anunciada pelos profetas
Digam aos desalentados de coração: “Sejam fortes, não tenham medo. Eis aí está o Deus de vocês. A vingança vem, a retribuição de Deus; ele vem para salvar vocês.” Isaías 35.4–6 — NAA
Então se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; os coxos saltarão como as corças, e a língua dos mudos cantará. Pois águas arrebentarão no deserto, e ribeiros, no ermo.
Isaías anuncia a salvação que virá do Senhor. Sua palavra é dirigida aos desalentados, àqueles que já se cansaram de esperar por justiça, acolhimento e restauração.
O profeta descreve o Reino de Deus como uma realidade na qual o sofrimento, a exclusão e tudo aquilo que limita a vida não terão a palavra final. Cegos, surdos, coxos e mudos aparecem como representantes de uma humanidade que espera pela ação restauradora de Deus.
Essa esperança, porém, nunca deve ser usada para tratar o corpo de uma pessoa com deficiência como inferior no presente. Pelo contrário: justamente porque esperamos a restauração plena de Deus, somos chamados desde agora a combater toda forma de exclusão, remover barreiras concretas e reconhecer a dignidade inteira de cada pessoa.
O ministério de Jesus
Jesus respondeu: “Voltem e anunciem a João o que vocês estão ouvindo e vendo: os cegos veem, os mancos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as boas-novas são pregadas aos pobres.” Mateus 11.4–5 — NVI
Quando Jesus exerceu seu ministério entre nós, tornou visível uma amostra da restauração prometida por Isaías. João Batista quis saber se Jesus era aquele que deveria vir. Em resposta, Jesus apontou para o que estava acontecendo diante dos olhos de todos: pessoas eram vistas, acolhidas, curadas e reintegradas.
Os evangelhos registram muitos desses encontros: Bartimeu; o paralítico de Cafarnaum; o homem com a mão atrofiada; o paralítico de Betesda; o menino que não ouvia nem falava; os cegos que clamaram por misericórdia.
Jesus não tratou essas pessoas como interrupções em sua agenda nem como objetos de curiosidade. Ele as viu, ouviu e recebeu. Suas curas eram sinais de que o Reino de Deus havia se aproximado e apontavam para a restauração plena da humanidade.
Os passos da igreja
Em Listra havia um homem paralítico dos pés, aleijado desde o nascimento, que vivia ali sentado e nunca tinha andado. Ele ouvira Paulo falar. Quando Paulo olhou diretamente para ele e viu que o homem tinha fé para ser curado, disse em alta voz: “Levante-se! Fique em pé!” Com isso, o homem deu um salto e começou a andar. Atos 14.8–10 — NVI
Nos primeiros passos da igreja, os sinais do Reino continuaram apontando para a restauração realizada por Deus. Cada corpo curado e cada vida reintegrada funcionavam como uma seta voltada para o futuro de Deus.
A missão da igreja, no entanto, não se resume à expectativa de milagres. Enquanto aguardamos a restauração plena, somos chamados a remover barreiras, promover acessibilidade, ouvir as pessoas com deficiência e garantir que participem da vida comunitária com seus dons, sua voz e sua autonomia. Não se trata apenas de compaixão, mas de reconhecimento: elas são irmãs e irmãos, participantes plenos do corpo de Cristo.
Pessoas pobres: a dignidade que não pode ser comprada
A dignidade humana também é violada quando a pobreza se torna motivo de desprezo. Embora tenha causas diversas e produza limitações concretas, nenhuma condição econômica justifica diminuir o valor de alguém. A dignidade não aumenta com o saldo bancário nem desaparece quando faltam recursos.
A pessoa pobre não pode ser menosprezada porque tem pouco. Ainda assim, isso acontece com frequência, especialmente em ambientes nos quais o valor das pessoas é medido por sua capacidade de consumir.
Quem segue Jesus toma o caminho inverso: considera, respeita e honra a pessoa pobre — inclusive quando o próprio cristão também vive em pobreza.
Quem dispõe de poucos recursos não pode ser humilhado por essa condição. No entanto, pessoas pobres muitas vezes são impedidas de conviver nos mesmos espaços, entrar pelas mesmas portas, partilhar a mesma mesa ou alimentar os mesmos sonhos. Aos poucos, sua humanidade lhes é negada. Quem segue Jesus toma o caminho inverso: reconhece, respeita e honra aqueles que vivem com pouco.
Quem enfrenta necessidades não pode ser abandonado. Mesmo assim, é comum que o sofrimento dos pobres seja justificado por discursos que os classificam, indistintamente, como preguiçosos, irresponsáveis ou culpados por toda a própria situação. Algumas pessoas chegam a usar textos bíblicos para legitimar a indiferença.
Quem segue Jesus toma o caminho inverso: acolhe, reparte e socorre conforme suas possibilidades.
Quem passa necessidade não pode ser transformado em motivo de pilhéria. Mas as lutas, limitações e dificuldades dos pobres são frequentemente banalizadas e convertidas em piada.
Quem segue Jesus toma o caminho inverso: recusa o escárnio e reconhece a dignidade que Deus concedeu a cada pessoa.
A proteção dos pobres no Antigo Testamento
Várias leis do Antigo Testamento tinham o propósito de impedir que a pobreza se transformasse numa sentença permanente de exclusão.
“No final de cada sete anos, as dívidas deverão ser canceladas. Isso deverá ser feito da seguinte forma: todo credor cancelará o empréstimo que fez ao seu próximo. Nenhum israelita exigirá pagamento de seu próximo ou de seu parente, porque foi proclamado o tempo do Senhor para o cancelamento das dívidas. Vocês poderão exigir pagamento do estrangeiro, mas terão que cancelar qualquer dívida de seus irmãos israelitas. Assim, não deverá haver pobre algum no meio de vocês, pois na terra que o Senhor, o seu Deus, lhes está dando como herança para que dela tomem posse, ele os abençoará ricamente, contanto que obedeçam em tudo ao Senhor, o seu Deus, e ponham em prática toda esta lei que hoje lhes estou dando.” Deuteronômio 15.1–5 — NVI
A lei impedia que dívidas se acumulassem indefinidamente e destruíssem famílias por sucessivas gerações. O alvo declarado era que a pobreza não se tornasse uma estrutura permanente no meio do povo.
A legislação bíblica não romantiza a necessidade. Ela chama a comunidade a organizar a vida de modo que os vulneráveis sejam protegidos e tenham a possibilidade de recomeçar.
Os pobres no ministério de Jesus
Jesus deu atenção especial aos pobres. Alimentou os famintos, curou os enfermos, denunciou exploradores e anunciou as boas-novas do Reino àqueles que costumavam ser ignorados.
Quando respondeu a João Batista, Jesus incluiu entre os sinais de seu ministério esta declaração:
“As boas-novas são pregadas aos pobres.”
Isso não era um detalhe. O evangelho alcançava pessoas que a sociedade havia colocado à margem e lhes anunciava que o Reino de Deus também lhes pertencia.
Os passos da igreja
A igreja seguiu os passos de Jesus. Em uma reunião que envolveu Tiago, Pedro, João, Paulo e Barnabé, a lembrança dos pobres apareceu como compromisso indispensável da missão cristã.
“Reconhecendo a graça que me fora concedida, Tiago, Pedro e João, tidos como colunas, estenderam a mão direita a mim e a Barnabé em sinal de comunhão. Eles concordaram em que devíamos nos dirigir aos gentios, e eles, aos circuncisos. Somente pediram que nos lembrássemos dos pobres, o que me esforcei por fazer.” Gálatas 2.9–10 — NVI
A comunhão entre os apóstolos não foi expressa apenas por concordância doutrinária ou divisão de campos missionários. Ela também incluiu uma responsabilidade concreta: lembrar-se dos pobres.
Uma igreja que se esquece dos pobres pode preservar muitas atividades religiosas, mas se afasta dos passos de Jesus. Lembrar-se deles não é um acréscimo opcional à missão cristã; é uma expressão concreta do evangelho que anuncia a dignidade de toda pessoa diante de Deus.
Criados humanos
O que significa ser humano?
Segundo as Escrituras, ser humano significa, antes de tudo, reconhecer que somos criaturas. Não temos vida em nós mesmos. Tudo o que temos e somos recebemos daquele que nos criou. Deus é a fonte da vida; nós dependemos dele.
Também significa abraçar a convicção de que nossa existência é intencional e de que nossa dignidade está fundamentada na imagem e semelhança de Deus. Essa dignidade não pode ser medida pela saúde, pela capacidade física, pela origem étnica, pela idade, pela história pessoal, pela condição moral ou pela situação econômica.
No mundo caído, continuaremos encontrando tentativas de dividir a humanidade entre vidas valiosas e vidas descartáveis, pessoas dignas e indignas, gente que merece ser vista e gente que pode ser abandonada.
As Escrituras, porém, nos colocam diante de um Deus que vê, protege, acolhe e restaura. Ele chama seu povo a participar dessa obra.
Podemos perceber isso nas leis dadas a Israel, no anúncio dos profetas, no ministério de Jesus e nos primeiros passos da igreja. Em todos esses testemunhos, somos alcançados pelo amor de Deus e convocados a reconhecer, proteger e honrar a dignidade do próximo.
Deus nos criou à sua imagem e semelhança. Não somos deuses; somos humanos — criaturas dependentes, limitadas e, ao mesmo tempo, revestidas de uma dignidade que vem do Criador.
Por isso, ser humano também é reconhecer a humanidade do outro.
Onde alguém estiver sendo tratado como menos humano, o povo de Deus deve aproximar-se, remover as pedras do caminho e afirmar, com palavras e atitudes:
Sua vida tem significado. Você carrega a imagem do Criador. Sua dignidade não pode ser apagada.
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