11 julho 2010

A parábola do rico insensato





Texto principal: Lucas 12.13–21

Mensagem originalmente pregada em 11 de julho de 2010, na Igreja Batista do Caminho; texto recuperado, reconstruído e ampliado a partir de anotações de pregação.

Uma multidão se aglomerava ao redor de Jesus enquanto ele ensinava seus discípulos. Em meio àquela fala, alguém interrompe:

"Mestre, diz ao meu irmão que divida a herança comigo." — Lucas 12.13

Não sabemos exatamente o que havia acontecido entre aqueles irmãos. O homem pode ter tido razões legítimas para considerar injusta a maneira como a herança estava sendo tratada. Jesus não entra no mérito da disputa, e Lucas também não nos fornece elementos suficientes para decidir qual dos dois irmãos tinha razão.

O que o texto nos permite perceber é a maneira como aquele homem se aproxima de Jesus.

1. A parábola e o contexto em que foi contada

Ao chamá-lo de Mestre, o homem se aproxima de Jesus como alguém cuja autoridade de ensino poderia alcançar também uma disputa como aquela. Questões de herança eram reguladas pela lei judaica e podiam ser submetidas à apreciação de mestres religiosos. Havia, portanto, motivo para esperar que Jesus se pronunciasse sobre a questão.

Mas o homem não pede ajuda para discernir o problema. Ele chega com o problema definido, o responsável identificado e a solução pronta: seu irmão deve dividir a herança, e Jesus deve usar sua autoridade para fazê-lo agir.

Mas a fala de Jesus frustra essa expectativa.

Não adianta escrever um roteiro para Jesus interpretar. Ele tem sua própria maneira de enxergar a vida, e a enxerga através dos valores do Reino de Deus.

Também é significativo que, na fala daquele homem, o problema esteja localizado no irmão. É o irmão que precisa agir. Ele próprio aparece apenas como aquele que espera receber aquilo que considera seu.

Jesus, porém, conduz a conversa para outro lugar.

"Homem, quem me designou juiz ou árbitro entre vocês?" — Lucas 12.14

Depois de responder diretamente ao homem, Jesus se volta aos demais e transforma aquela situação particular numa advertência dirigida a todos.

2. Jesus responde

"Cuidado! Protejam-se contra todo tipo de ganância, porque a vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens." — Lucas 12.15

O homem falou de herança. Jesus transforma aquela disputa numa oportunidade para falar sobre ganância e sobre a relação entre bens e vida.

É a partir dessa afirmação que devemos ouvir a parábola: a vida não consiste na quantidade dos bens.

Jesus não está declarando que os bens sejam inúteis. Eles alimentam, vestem, oferecem moradia, permitem planejar, enfrentar imprevistos e cuidar de outras pessoas. O problema surge quando esperamos deles algo que não podem oferecer, especialmente quando aquilo que possuímos passa a definir nossa compreensão da vida e do futuro.

É então que Jesus conta uma história:

"A terra de certo homem rico produziu muito."

O personagem já era rico e agora recebe uma colheita extraordinária. Jesus não diz que ele roubou, fraudou ou adquiriu sua riqueza de maneira injusta. Seu problema aparece justamente diante da abundância.

Ele pergunta:

"O que vou fazer? Não tenho onde armazenar a minha colheita."

A pergunta é razoável. Uma colheita precisa ser armazenada, e planejar o que fazer com os recursos disponíveis faz parte da responsabilidade humana.

A questão está no caminho que seu pensamento percorre.

Ele pergunta o que fará e responde a si mesmo. Seus planos giram em torno de sua produção, seus celeiros, sua safra e seus bens. No raciocínio que Jesus nos deixa ouvir, não aparece o próximo nem qualquer referência a Deus. Toda a abundância que chegou às suas mãos encontra, em seus planos, um único destino: ele mesmo.

Depois de decidir construir celeiros maiores, o homem diz:

"Você tem grande quantidade de bens, armazenados para muitos anos. Descanse, coma, beba e alegre-se."

Ele começa falando de muitos bens e termina falando de muitos anos. Como possui recursos suficientes para um longo período, passa a tratar esse período como se também estivesse garantido.

Ele conseguiu armazenar a colheita. Não conseguiu armazenar a própria vida.

É então que Deus fala:

"Insensato! Esta mesma noite a sua vida será exigida."

A palavra "insensato" não descreve um homem incapaz. Ele demonstrou competência para produzir, planejar e administrar. Sua insensatez está em interpretar a vida como se o futuro também pudesse ser colocado dentro de seus celeiros.

Ele havia pensado em "muitos anos".

Deus diz:

"Esta mesma noite."

Planejar continua sendo parte da sabedoria. O problema está em esquecer que planejamento e domínio sobre o futuro não são a mesma coisa.

Então vem a pergunta:

"Então, quem ficará com o que você preparou?"

E a parábola nos leva de volta ao lugar onde tudo começou.

A conversa começou com uma herança. Um homem estava preocupado com aquilo que receberia dos bens de outra pessoa. Agora Jesus conta a história de alguém que deixará para outros tudo o que acumulou.

A herança que parecia ocupar todo o horizonte daquele primeiro homem é recolocada dentro de uma realidade maior: chegará o momento em que aquilo que acumulamos passará para outras mãos.

3. Uma recomendação

Jesus encerra dizendo:

"Assim é com aquele que acumula tesouros para si, mas não é rico em relação a Deus." — Lucas 12.21

A parábola aponta para outra maneira de viver:

Ser rico em relação a Deus.

A continuação do capítulo ajuda a compreender essa expressão. Logo depois, Jesus se volta aos discípulos e fala sobre preocupação, provisão, confiança no Pai, busca do Reino, generosidade e tesouro. Ser rico em relação a Deus envolve aprender a confiar no Pai, orientar a vida pelo Reino e reconhecer que os recursos que possuímos também podem participar do cuidado de outras pessoas.

Nesse ensino, aparecem lado a lado duas situações diferentes. O rico olha para sua abundância e conclui que possui bastante para muitos anos; os discípulos podem olhar para suas necessidades e perguntar se terão o suficiente.

A ganância pode dizer: "Preciso ter mais para estar seguro". A ansiedade pode dizer: "Se eu não tiver o suficiente, não estarei seguro". Em ambos os casos, Jesus conduz seus ouvintes a confiar no Pai e a buscar o Reino.

Por isso, o perigo da parábola não pertence apenas a pessoas extraordinariamente ricas. Jesus advertiu toda a multidão contra todo tipo de ganância.

A questão é o lugar que aquilo que possuímos ocupa em nossa compreensão da vida. Podemos ter pouco e viver dominados pelo desejo de ter mais; podemos ter muito e viver presos ao medo de perder. Podemos também administrar responsavelmente nossos recursos e, ainda assim, começar a esperar deles uma garantia que não podem oferecer.

A parábola nos deixa com perguntas bastante concretas:

Quanto da minha esperança para o futuro depende dos recursos que consigo controlar?

E, quando recebo mais do que necessito imediatamente, consigo perguntar também para que essa abundância pode servir?

Conclusão

Tudo começou com um homem que queria que Jesus resolvesse uma disputa de herança. Ele chegou com o problema definido, a solução pronta e o papel que esperava que Jesus desempenhasse.

Jesus o levou a uma questão maior:

"A vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens."

O homem da parábola tinha recursos para muitos anos. O que ele não tinha eram muitos anos garantidos.

Por isso, a recomendação de Jesus continua atual: não faça daquilo que você possui a medida da sua vida nem a garantia do seu futuro.

Aprenda a ser rico em relação a Deus.