Semana passada, a revista Veja publicou uma matéria de capa sobre as igrejas evangélicas no Brasil. A reportagem falava do novo perfil adotado por várias igrejas neopentecostais. Breves informações sobre a origem de algumas dessas igrejas acompanharam pequenas biografias e várias fotos de seus respectivos pastores.
A reportagem credita o crescimento continuado dos evangélicos no país ao surgimento de uma nova geração de líderes que reduziu algumas das ênfases sobrenaturais de seus predecessores e municiou-se da psicologia para aconselhar, da sociologia para lidar com as massas, do marketing para identificar seu público-alvo e da administração para gerir suas organizações.
O abandono das superstições e invencionices religiosas realmente é uma boa notícia. Chega de alimentar o povo de Deus com aquilo que não encontra fundamento nas Escrituras! Precisamos da saudável Palavra de Deus, alimento sólido capaz de nos nutrir para a vida.
A despeito disso, é um engano achar que o cristianismo faça sentido sem a ação sobrenatural de Deus. O evangelho é sobrenatural, a igreja nasce da ação de Deus e sua existência não pode ser explicada apenas pelas capacidades humanas. Podemos realizar muita coisa que pareça progresso e, ainda assim, tenha pouco valor diante de Deus.
Não há motivo para os pastores abrirem mão das ferramentas que o conhecimento humano tem produzido. O que não se pode perder de vista é que pastorear pessoas está diretamente ligado ao conhecimento de Deus. Muitas vezes, a ciência é excelente ferramenta de diagnóstico, mas é o Espírito de Deus que molda o caráter do crente e conduz o rebanho à semelhança de Cristo. Somente líderes sensíveis e submissos a esse Espírito poderão realizar a obra para a qual Deus os chamou.
Na reportagem, os títulos acadêmicos foram apresentados entre as credenciais que ajudam a explicar o sucesso de cada líder e de sua igreja. Fiquei impressionado! Mas acho que Deus não se impressiona muito com isso. Absolutamente nada contra o estudo dedicado, principalmente da Bíblia, mas fazer coleção de diplomas não aparece na lista de recomendações que o apóstolo Paulo fez a Timóteo sobre o perfil daqueles que devem cuidar do rebanho de Deus.
Na revista, e fora dela, as imagens são marcantes e falam por si mesmas. Nada de posar ao lado da Bíblia ou acompanhado da família — aliás, pouco se falou sobre a família dos líderes. Enquanto um malha, outro pratica esporte e um terceiro vende Bíblias, outros se esmeram em apresentar um estilo pessoal capaz de marcar visualmente. Verdadeiros ícones! Como os ídolos da televisão, capazes de atrair multidões por seu carisma pessoal.
Carisma e caráter! Em qual deles os líderes do século XXI apoiarão seu ministério?
O carisma encanta e deslumbra a muitos. Pode abrir portas, atrair pessoas e produzir visibilidade. Mas, quando ocupa o lugar do caráter, transforma-se numa credencial perigosa. O caráter, por sua vez, é formado no caminho da fidelidade, da obediência e da confiança em Deus.
Aos líderes da Igreja no Brasil permanece o desafio do Filho de Deus. Embora sendo Deus, Cristo não fez de sua condição um instrumento de autoexaltação. Antes, esvaziou-se, assumindo a forma de servo. Não buscava glorificar a si mesmo, mas o Pai; não buscava realizar uma vontade independente, mas fazer aquilo que agradava ao Pai. Por fim, submeteu sua vontade e entregou sua vida pelo rebanho (Fp 2.6–8).
Esse continua sendo o critério que nenhum diploma, técnica de administração, estratégia de marketing ou capacidade pessoal pode substituir.
Aos pastores permanece o exemplo do Bom Pastor, que dá a vida por suas ovelhas (Jo 10.11).
Nota editorial: Este texto foi escrito originalmente em julho de 2006, em reação à reportagem de capa “Os novos pastores”, publicada pela revista Veja naquele mês. Recuperado de arquivos pessoais, recebeu nesta publicação apenas ajustes de redação, atualização ortográfica e pequenas correções de precisão bíblica e teológica.
2 comentários:
Olá! gostei muito do artigo escrito! no entanto gostaria de alertar o irmao que (5º parágrafo)nao devemos nos esquecer que a preparaçao e estudo sao muito importantes para um bom pastor. Isso evita que aqueles que falam mais alto, sao eloquentes ou mais poderosos ($$) tomem conta de uma igreja sem nenhuma preparaçao. acabam pregando eresias em nome de Deus! Eis o perigo dos pregadores empiricos!
Deus abençoe!
Caro anônimo,
Obrigado por visitar o Idéia de Reflexão. Certamente alguém que almeja ser usado por Deus no pastoreio de vidas não deve se descuidar do preparo acadêmico (seu alerta procede!). No entanto, em alguns grupos essa preparação assume um posição de quase exclusividade na lista dos requisitos desejado pela comunidade para um pastor; isso não me parece nem saudável, nem bíblico.
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