02 julho 2006

Existe vida depois da França?

Zidane


A semana começou calma, quase silenciosa. Na verdade o silêncio começou ontem à tarde depois da derrota da seleção brasileira de futebol na copa do mundo. Ao final do jogo, talvez por questões ligadas à validade dos fogos de artifício, ouvi alguns estampidos e depois um silencio.

Passado o desconforto da derrota, penso que o desfecho, aparentemente trágico, na verdade será muito benéfico para o país. Voltamos à realidade! Embora seja uma realidade dura e difícil de enfrentar, ainda é a realidade e apenas se for encarada de frente é que poderá ser mudada.

Observando a reação das pessoas nesse domingo, fui bombardeado de perguntas para as quais ainda não tenho respostas.

Porque canalizamos nossas mais sublimes expressões de patriotismo para os esportes? Porque o coro “Eu sou brasileiro. Com muito orgulho, com muito amor” só é cantado com entusiasmo nos estádios de futebol? Porque só em eventos com a copa do mundo o sujeito resolve colocar uma bandeira de três metros na varanda do apartamento. Será possível corrigir esse viés de compreensão a respeito do amor à pátria e libertar o patriotismo do mundo dos esportes?

Porque a derrota para a França causou tanta indignação, mas a prostituição que submete milhares de brasileiras a derrotas muito maiores, dentro e fora do Brasil, não provoca um arroubo de indignação que seja?

Seria possível transportar o desejo de participar desses milhões de brasileiros que acompanharam cada movimento dos jogos em ações voluntárias para mudar a realidade dessa nação?

Seria possível que a educação (ou a falta dela) de milhões de brasileirinhos se tornasse motivo de conversas acaloradas e bate papos animados nos bares e restaurantes? Todos trocariam idéias sobre o assunto fariam sugestões mil sobre como melhorar o ensino nos próximos quatro anos!

Por que a ética e a preocupação com o bem comum não são enfrentados em espécies de campeonatos em que cada equipe treina (durante quatro anos) solidariedade, respeito pelo meio ambiente e pela vida humana? Os competidores disputariam para chegarmos à conclusão sobre quem proporcionou mais bem à sociedade.

Seria possível que o desejo por uma vida marcada pelo caráter de Cristo tomasse conta das igrejas, enfeitadas de bandeirolas e faixas, levando milhares a rever o egoísmo, as disputas irrelevantes, o farisaísmo, a falta de compromisso com os valores do Reino de Deus, o preconceito, a ambição e tantos outros pecados que assolam os templos e seus freqüentadores?

Porque não examinamos as propostas políticas, o currículo dos candidatos e história dos partidos com tanto esmero e cuidado como são examinadas as tabelas da copa? Seria possível marcar os placares dos movimentos políticos a exemplo do que fazemos na copa e acompanhar se os times vencedores a cada pleito cumprem o que prometeram?

Seria possível que em outros dias, sem jogo do Brasil, a família se reunisse, se abraçasse e festejasse cada avanço na construção de uma nação responsável, feita de homens e mulheres (e não de crianças) comprometidos sucesso uns dos outros? Talvez assim caminhássemos rumo à formação de um povo em que cada um abandonasse a lei do Gérson, que aliás era jogador.

Não tenho qualquer esperança de achar respostas fáceis para essas perguntas, nem acho que juntos somos capazes de tudo. Desconfio que haja uma falha estrutural em todos os seres humanos. Uma falha que tem nos prejudicado há milênios: uma terrível desconfiança a respeito do caráter do Doador da Vida nos deixou sem lenço e sem documento, em um universo sem propósito e vivendo uma vida sem destino. E talvez por isso estejamos tão confusos e procurando propósitos elevados em partidas de futebol.

Imagino que haja resposta para todas as perguntas, mas cansei de perguntar! Hoje é domingo. Amanhã, vou por o pé na estrada e fazer a minha parte nessa busca.

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