01 fevereiro 2006

Família - Parte 1

A Família do Século XXI e como Chegamos até Aqui

Aristarco Coelho

As Mutações Históricas da Família

A noção que hoje temos sobre família não foi sempre preponderante no decorrer da história. O que hoje compreendemos como família (pai, mãe e filhos) era, no passado, uma pequena unidade de uma estrutura maior que poderia ser caracterizada como tribo ou família tribal.

Ela era formada por grupos de pessoas que viviam em um mesmo lugar ou sob um mesmo teto, por grupos genealógicos, como relações de parentesco ou de associação, ou ainda por grupos de pessoas com os mesmos interesses e obrigações. É claro que os núcleos familiares estavam presentes na Antigüidade, mas não eram o foco principal da estrutura familiar.

É fácil ver isso na Bíblia. No Antigo testamento não existe palavra que corresponda precisamente ao moderno termo família, composta de pai, mãe e filhos. A melhor aproximação é o vocábulo Bayith (casa), traduzido como família em I Cr 13:14, II Cr 35:5, 12 e Sl 68:6.

O relato sobre a descoberta do pecado de Acã, em Js 7:16 a 18 pode nos dá uma boa perspectiva sobre as estruturas familiares existentes na época do antigo testamento.

16 - Então, Josué se levantou de madrugada e fez chegar a Israel, segundo as suas tribos; e caiu a sorte sobre a tribo de Judá. 17 - Fazendo chegar a tribo (shêbheth) de Judá, caiu sobre a família (mishpachath) dos zeraítas; fazendo chegar a família dos zeraítas, homem por homem, caiu sobre Zabdi; 18 - e, fazendo chegar a sua casa (bayith), homem por homem, caiu sobre Acã, filho de Carmi, filho de Zabdi, filho de Zera, da tribo de Judá.

O fato de Acã ser casado e pai de filhos e ainda ser considerado como da casa de seu avô, ajuda-nos a compreender melhor o conceito de Família Tribal.

Pode-se conceber os membros de uma família tribal como se formassem um cone, tendo o ancestral fundador no cume, enquanto que a geração viva seria a base.

A família tribal tinha pelo menos cinco funções básicas: reprodução, por meio da qual a tribo se perpetuava; educação, que possibilitava conservar e transmitir crenças e valores, além das aptidões necessárias à sobrevivência; segurança, que propiciava os meio de proteção de seus membros; cooperação, que promovia os meios de produção básicos e uma divisão do trabalho e apoio, que permitia atender às diversas necessidades psicossociais do ser humano.

Na verdade as funções básicas da família tribal não surgiram do nada. O próprio Senhor instituiu a família como resposta às necessidade humanas.

Em Gênesis 1:27, 28 podemos ver a orientação do Senhor para que a humanidade se perpetuasse e enchesse a Terra, cumprindo assim a função reprodutiva da família.

27 Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. 28 E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra.

Em Deuteronômio 6:6-7, o Senhor orienta seu povo, naquele momento uma grande família tribal, a ensinarem os preceitos do Senhor a seus filhos, assumindo assim sua função educativa.

6 Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; 7 tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te.
Em Gênesis 3:21, Deus revela seu cuidado com relação à segurança do casal Adão e Eva e providencia para eles vestimentas de pele para protegê-los do frio e do calor e com isso ensina-lhes sobre proteção como uma das funções da família.

21 Fez o SENHOR Deus vestimenta de peles para Adão e sua mulher e os vestiu.

Em Gênesis 2:15, Deus orienta a Adão para que cultive e guarde o jardim, oferecendo à primeira família o caminho para a obtenção de seu sustento e ensinando-lhe sobre sua função cooperativa.

15 Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar.

Em Gênesis 2:20-24, vemos o cuidado de Deus com a necessidade humana de intimidade e identificação. Vemos também como de uma forma especial Ele constitui o estabeleceu o relacionamento homem – mulher como resposta a essas necessidades, revelando assim a função de apoio a ser exercida pela família.

20 Deu nome o homem a todos os animais domésticos, às aves dos céus e a todos os animais selváticos; para o homem, todavia, não se achava uma auxiliadora que lhe fosse idônea. 21 Então, o SENHOR Deus fez cair pesado sono sobre o homem, e este adormeceu; tomou uma das suas costelas e fechou o lugar com carne. 22 E a costela que o SENHOR Deus tomara ao homem, transformou-a numa mulher e lha trouxe. 23 E disse o homem: Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada. 24 Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.

Com a maior complexidade da vida humana, a família tribal teve que se dividir passando a funcionar como uma família extensa, composta de três ou quatro gerações. Nessa passagem, aqueles que ficaram de fora no novo modelo ficaram sob responsabilidade de instituições sociais secundárias, um prenúncio do Estado.

Mais recentemente, com a chegada da economia industrial e de uma sociedade urbana, surgiu a família nuclear, ainda menor que a família extensa. Isso porque diante das novas demandas produtivas havia a necessidade de que a família pudesse dispor de grande mobilidade.

Com a redução das famílias, as funções básicas exercidas anteriormente tanto pela família extensa quanto pela família tribal, foram gradualmente sendo incorporadas por instituições políticas, sociais e econômicas.

Assim a educação dos filhos está cada dia mais sob a responsabilidade de creches, escolas e meios de comunicação; da segurança, estão encarregados corpo de bombeiros, polícias, hospitais, companhias de seguro e centros para idosos; O comércio e a indústria assumiram as funções de cooperação; O apoio, cada dia mais tem sido oferecido por clubes, associações, terapeutas profissionais e conselheiros.

De uma forma lamentável a família tem sido saqueada de suas principais funções e por isso é vista por um número cada vez maior de pessoas como desnecessária ao avanço da sociedade. O lugar que a família ocupa na sociedade, sua imagem e as expectativas que suscita têm mudado radicalmente ao longo da história e principalmente nas últimas décadas. Temos presenciado uma profunda transformação na vida familiar
.

Diferentes Faces da Família

A família do século XXI, que sofre com perda de suas funções apresenta muitas faces. Entre essas faces, gostaria de destacar as famílias ampliadas, as famílias nucleares, famílias com um só cônjuge, famílias sem filhos e as propostas homossexuais de relacionamentos estáveis sem filhos e também com filhos.

Famílias ampliadas

As famílias ampliadas se caracterizam por agregar ao núcleo familiar principal as gerações anteriores e posteriores. Algumas vezes, a geração anterior ao núcleo familiar se agrega quando seu envelhecimento não foi planejado resultando em uma relação de dependência econômico-financeira. Outro motivo que leva a essa ampliação da família com as gerações anteriores é que,
com o envelhecimento, pais e avós se tornam mais frágeis física e emocionalmente, carecendo de amparo e cuidado.

Um indício de que a família vem perdendo alguma de suas funções, como o apoio, é a tendência atual de se entregarem os velhos para serem cuidados por instituições sociais secundárias como abrigos e asilos em vez de lhes oferecer uma ambiente familiar mais apropriado e saudável para seu envelhecimento.

A ampliação da família para as gerações seguintes é comum como resposta à paternidade ou maternidade irresponsáveis, sobre as quais vamos falar ainda hoje. Pais e mães adolescentes, imaturos emocionalmente, são agregados ao núcleo familiar principal em uma tentativa de reparar os erros cometidos em relacionamento sexual precoce.

Vale ressaltar que embora não seja comum em nossos dias, é possível a constituição intencional de uma família ampliada com vistas ao bem estar de todos. Famílias ampliadas podem ser ambientes saudáveis para o desenvolvimento de um sentido de corpo e de pertencimento.


Famílias nucleares

Embora em decréscimo vertiginoso, as famílias nucleares ainda se constituem maioria no cenário familiar brasileiro. Pai, mãe e filhos. Onde o pai é o principal mantenedor da casa, a mãe a principal responsável pelo equilíbrio doméstico e os filhos são prole exclusiva do casal.

Em virtude da elevação do número de divórcios e novos casamentos é comum que algumas dessas famílias abriguem filhos do casal juntamente com outros filhos de apenas dos cônjuges.

Famílias com um só cônjuge

Essa é uma configuração cada dia mais comum em nossa sociedade. Além da perda do cônjuge por morte, as famílias com um só cônjuge têm-se formado a partir de algumas configurações sociais como a paternidade e maternidade irresponsáveis, divórcio e separação sem novo casamento e mesmo a decisão pela produção independente.

Famílias sem filhos

A busca pela realização pessoal ligada ao sucesso profissional e ao aperfeiçoamento acadêmico tem adiado, senão eliminado, a idéia de filhos em muitos casais jovens. Para muitos desses casais, a idéia de gerar filhos, e as responsabilidades que isso implicariam, não os convence a abrir mão de suas conquistas de bem-estar e prazer. Forma-se assim um contingente de famílias sem filhos. Jovens adultos que não passaram pela experiência de se doar por outra pessoa à custa de algo que lhe fosse precioso.

Propostas Homossexuais

Nas últimas décadas tem-se tornado muito presente nos meios de comunicação a idéia de que parceiros homossexuais também têm direito a constituir família através da legalização de uniões estáveis e também com a possibilidade de adotarem crianças para educá-las. A questão é controversa. No entanto a cada dia mais vozes se levantam em defesa desse pretenso direito.

*Palestra proferida em evento promovido pela Convenção Batista Cearense e realizado no auditório do Colégio Batista Santos Dumont, contando com a participação dos pastores ligados àquela denominação e suas respectivas esposas

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