03 junho 2007

O Caminho da Cruz - Parte 2

Introdução

Vimos pela manhã que o caminho da cruz começa onde estamos. Precisamos reconhecer o quanto estamos distantes do centro do cristianismo. Mas onde fica o centro?

(41) Respondeu-lhe o Senhor: Marta! Marta! Andas inquieta e te preocupas com muitas coisas. (42) Entretanto, pouco é necessário ou mesmo uma só coisa; Maria, pois, escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada. (Lucas 10:38-42)

Marta não tinha dúvida de que estava fazendo a coisa certa. Jesus havia chegado a sua casa e era preciso tomar as providencias necessárias para recebê-lo bem. Marta concentrou-se nas necessidades de Jesus, mas o centro da sua vida era ela mesma e sua capacidade de fazer a coisa certa. Ela queria agradá-lo com seu esforço pessoal.

Maria não tinha dúvida de que estava fazendo a coisa certa. Jesus havia chegado a sua casa e ela podia perder a oportunidade de ouvir as palavras do Mestre. Maria concentrou-se em suas próprias necessidades, mas o centro da sua vida era o sustento que vinha das palavras de Jesus. Ela queria alimentar-se das palavras Dele.

Marta escolheu a si mesma; Maria escolheu Jesus.

Maria escolheu a boa parte. Ela não perdeu tempo com os enfeites da gaiola e foi direto ao que era necessário para que sua alma sobrevivesse. Sentou-se aos pés de Jesus.

O centro é Cristo

Na carta que escreveu aos colossenses, o apóstolo Paulo procura explicar a dimensão da centralidade de Cristo.

(13) Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, (14) no qual temos a redenção, a remissão dos pecados. (15) Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; (16) pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. (17) Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste. (18) Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia, (19) porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude (20) e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus. (Colossenses 1:13-20)

Se você tinha alguma dúvida sobre onde está o centro do evangelho, saiba que ele fica na pessoa, palavra e obra do Senhor Jesus Cristo. O caminho da cruz começa onde você está e vai até a morte de Cristo na Cruz.

O evangelho de Jesus, a boa notícia da parte de Deus é esta: nossa inimizade com Deus foi apaziguada pelo sangue de Cristo derramado na cruz. Fomos reconciliados com Deus através da morte de Cristo. O centro do evangelho é a cruz de Cristo.

A questão é: como eu saio de onde eu estou e me volto para cruz de Cristo. Qual o caminho da cruz? Quais são os passos que eu devo dar para trilhar o caminho da cruz?

Bem, seria muito bom que as coisas fossem assim. Alguns passos, algumas regrinhas e tudo resolvido. Na verdade o caminho da cruz é pessoal, porque cada um de nós se encontra em um lugar diferente. O destino é o mesmo, mas o ponto de partida é diferente. Por isso não há fórmulas mágicas, o cristianismo é uma caminhada pessoal de relacionamento cotidiano com o Cristo Ressurreto.

Então, o que estamos fazendo aqui?

Quando olhamos para o passado e observamos a caminhada de outros discípulos de Cristo é fácil ver que há desvios muito parecidos que desafiaram todos eles. Apesar de estarmos em lugares diferentes, em épocas diferentes, somos todos humanos, temos falhas comuns, a mesma tendência pecaminosa que encontrou lugar na raça humana desde Adão tenta hoje nos seduzir e desviar da cruz de Cristo.

Mas o caminho da cruz não pode ter desvios. Quando isso acontece é porque nos esquecemos de que a direção é o centro: a pessoa, palavra e obra de Jesus Cristo.

Durante esses dias vamos refletir sobre três desvios que são capazes de nos levar para longe da cruz de Cristo: o legalismo, a culpa e o domínio dos sentimentos.

LEGALISMO

Algumas Definições

Legalismo é um sistema de regras, expectativas ou regulamentos que prometem o amor de Deus em troca do esforço e da obediência humana.

Legalismo é qualquer tentativa de apoiar-se no esforço próprio para obter ou manter nossa justificação diante de Deus.

Legalismo é pretender alcançar o perdão de Deus e sua aceitação por meio da obediência a Ele.

O legalismo é um dos mais terríveis inimigos da graça de Deus porque ele é fruto de um coração que se julga capaz de obter a justificação de seu pecado. O legalismo é fruto de um coração enfatuado e arrogante.

O legalista não consegue admitir sua condição de pecador irrecuperável. Ele acha que basta um pouco mais de esforço próprio para que Deus o considere justo.

Como surgem os legalistas?

O legalismo é uma doença dos crentes, não dos incrédulos. Ele surge do meio de pessoas que têm a intenção de agradar a Deus. São pessoas dedicadas e cheias de fervor religioso e que gostam de cumprir regras. Não há nada de errado em cumprir regras, mas os legalistas tentam transformam as regras no caminho da salvação.

Alexandre é um cristão novinho em folhas. Ele tem muito para aprender sobre a vida com cristo, mas já tem um amor genuíno por Jesus Cristo.

Foi aí que o amigo Miguel, percebendo que Alexandre tinha dificuldades para ler a Bíblia, ofereceu um plano de leitura das Escrituras em um ano. Alexandre ficou maravilhado e começou imediatamente. Alexandre era uma alegria só com a leitura da Palavra de Deus.

Avançando seis meses, Alexandre agora é um crente muito ocupado. Depois de Miguel ter apresentado o plano de leitura da Bíblia, Joel o incentivou a meditar nas escrituras, André ressaltou as maravilhas de participar de um grupo de prestação de conta de homens e, em um sermão, o seu pastor falou da grande importância das reuniões de oração.

Então Alexandre participou de uma conferência sobre evangelização, afinal ele precisa testemunhar de evangelho todos os dias. Depois ouviu em um programa de rádio sobre o jejum e em outro sobre a santidade do viver.

Aos poucos Alexandre foi acrescentando mais e mais atividades espirituais à sua agenda. Todas elas muito boas e algumas imprescindíveis ao seu crescimento.

Ora, mas se são coisas boas e imprescindíveis, onde surge o legalismo? Ele aparece quando Alexandre, o novo convertido, permite um desvio perigoso em sua mente.

Oração, leitura da Bíblica, jejum, comunhão e testemunho são presentes de Deus através do qual podemos experimentar sua inclinação em nosso favor. Através da prática de cada uma dessas disciplinas podemos perceber o quanto Deus nos ama e como Ele cuida de nós. O desvio acontece quando Alexandre passa a usar essas disciplinas para obter a graça de Deus.

Quais são os sintomas desse desvio?

Como o legalismo é uma doença dos crentes, o desvio se torna perceptível nas manhãs e tardes de domingo. A alegria e o prazer de Alexandre que antes eram espontâneos passam a depender dos acontecimentos da semana.

Se a reunião de oração foi legal, a reunião do grupo pequeno foi uma benção, se ele conseguir ler a bíblia todos os dias e cumpriu o jejum da semana, então ele se alegra e se sente pronto para adorar a Deus.

Mas se ele faltou o culto de oração na semana, se teve dificuldade em ler a palavra todos os dias, se fracassou no jejum ou se o grupo pequeno foi um desastre, então ele se sente culpado, pensa que esse negócio de servir ao Senhor não vale a pena e acha que Deus está gostando menos dele do que na semana passada. Em suma, ele se sente desaprovado pelo Senhor quando não faz tudo certinho como ele acha deve ser feito.

Alexandre deixou de confiar no evangelho da Cruz e passou a confiar na sua própria performance das disciplinas espirituais. Como Marta, ele deixou de prestar atenção nas palavras de Jesus para gastar energias em buscar reconhecimento por seu desempenho operacional.

Gálatas insensatos

O apóstolo Paulo escreveu uma carta inteira para orientar os crentes da Galácia sobre os riscos do legalismo. Os crentes dessa região da Ásia estavam sendo pressionados pelos judeus a observarem todos os rituais e cerimônias da lei judaica.

Segundo os judaizantes não seria possível alguém ser alcançado pela salvação sem que essa pessoa cumprisse com todos os rituais e cerimônias da lei. Em outras palavras, a Cruz de Cristo não era suficiente. Era preciso fazer algo mais.

(1) Ó gálatas insensatos! Quem vos fascinou a vós outros, ante cujos olhos foi Jesus Cristo exposto como crucificado? (2) Quero apenas saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? (3) Sois assim insensatos que, tendo começado no Espírito, estejais, agora, vos aperfeiçoando na carne? (4) Terá sido em vão que tantas coisas sofrestes? Se, na verdade, foram em vão. (5) Aquele, pois, que vos concede o Espírito e que opera milagres entre vós, porventura, o faz pelas obras da lei ou pela pregação da fé? (Gálatas 3:1-5)

Pode ser que você hoje tenha compreendido o quanto tem agido de forma insensata, tentando acrescentar seu esforço próprio à fé salvadora que vem de Cristo. Não se entristeça, hoje é começo da sua plena libertação! Confie no Senhor, ele vai quebrar as algemas do legalismo, que tem lhe afastado do caminho da cruz.

A verdade liberta

Certa vez Jesus afirmou: conhecereis a verdade e ela vos libertará. A libertação do legalismo é obra do Espírito de Deus. Porque é o Espírito que convence. É Ele quem revela a verdade.

como está escrito: Não há justo, nem um sequer, (Romanos 3:10)

A citação do apóstolo é do salmo xx. Ninguém tem direitos diante de Deus por causa de sua própria justiça. Não há um só que seja justo por si mesmo! E Não é preciso ser muito perspicaz para descobrir isso. Basta que sua consciência não esteja cauterizada para você ter que admitir o que diz o profeta Isaías e apóstolo Paulo.

Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniqüidades, como um vento, nos arrebatam. (Isaías 64:6)

(23) pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, (Romanos 3:23)

Se não somos justos, precisamos ser justificados. Como poderia ser possível que Deus nos considerasse justos quando na verdade não somos? Muitos judeus acreditavam que poderiam alcançar essa posição diante de Deus, caso se esforçassem muito para fazer as coisas da maneira certa.

No entanto o apóstolo Paulo escrevendo tanto aos Gálatas quanto aos Romanos explica que a justificação é uma obra de Deus por meio da fé no sacrifício de Jesus.

sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois, por obras da lei, ninguém será justificado. (Gálatas 2:16)

(24) sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, (Romanos 3:23-24)

Aí está o poder da Cruz de Cristo! Deus lhe entrega as credencias de justo não pelo seu esforço em fazer as coisas certinha, mas por causa da sua fé em Cristo Jesus, o justo.

A salvação não para aí. Depois de justificados, entramos em uma processo santificação através do qual o Espírito de Deus vai moldando em nós o caráter de Jesus Cristo. Assim a justiça de Cristo vai sendo aplicada à minha vida a cada dia.

Na primeira vez em que você se arrependeu de seu pecados e colocou sua confiança em Jesus Cristo, você foi justificado, declarado justo por causa de sua fé em Jesus. No dias que se seguiram até hoje você tem se aperfeiçoado (feito justo) pela obra do Espírito Santo em você.

A justificação é um ato soberano de Deus, não depende em nada de você. Até a fé para crer em Jesus é um presente Dele. Já a santificação é um processo no qual a nossa vontade tem interferência. Uma vez justificados estamos livres para buscar o aperfeiçoamento. A nossa posição de justos pela fé em Jesus é o pré-requisito da santificação.

O legalista mistura as coisas e faz diferença entre justificação e santificação. Ele acha que se tentar ser santo pelo seu próprio esforço, Deus irá considerá-lo justo. Ele não compreende que preciso primeiro Deus o declare justo pela fé em Cristo, para em seguida ele poder buscar a santidade.

Conclusão

Se você entrou pelo desvio do legalismo e perdeu o caminho da cruz, hoje você está sendo desafiado a voltar para a Cruz. Confie no sacrifício de Cristo, não no seu esforço em fazer tudo certinho. Quebre as algemas do legalismo com o martelo da confiança na cruz de Cristo.
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