05 março 2023

Ser humano: a dignidade das pessoas em situação de pobreza


Esta é a terceira mensagem da série Ser humano, na qual refletimos sobre nossa humanidade à luz das Escrituras.

Nas duas primeiras mensagens, vimos que nossa existência resulta da ação criadora e intencional de Deus e que todo ser humano carrega a sua imagem. Agora perguntamos: o que essas verdades exigem de nós diante da pobreza?

Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Gênesis 1.27 — NVI

A partir da narrativa da criação, destacamos duas afirmações fundamentais.

A primeira é que nossa existência não é um acidente, mas resultado da ação criadora e intencional de Deus.

A segunda é que a assinatura de Deus está em nós. Deus criou homens e mulheres à sua imagem e semelhança.

Essas verdades definem nossa humanidade e fundamentam nossa dignidade. Além disso, não servem apenas para explicar nossa origem. Elas devem transformar a maneira como enxergamos a nós mesmos, tratamos as outras pessoas e organizamos nossa vida em sociedade.

Quando a dignidade humana é negada

Ao longo da história, sociedades inteiras trataram determinados grupos como se fossem menos humanos.

Esse processo é chamado de desumanização. Ele acontece quando alguém deixa de ser reconhecido como pessoa e passa a ser tratado como objeto, ameaça, estorvo, mercadoria ou vida descartável.

Muitos discursos descreveram pessoas com deficiência como se elas não possuíssem plena humanidade. Colonizadores e grupos dominantes classificaram povos negros e indígenas como inferiores para justificar sua exploração. Idosos são abandonados como se já não fossem gente. Crianças ainda no ventre podem ser reduzidas a problemas que devem ser eliminados. Criminosos são chamados de “desalmados”, como se tivessem perdido todo direito à dignidade.

Para cada forma de desumanização, criam-se explicações destinadas a justificar moralmente tratamentos desumanos.

Por isso, precisamos retornar a uma verdade simples e poderosa: todas as pessoas foram criadas intencionalmente por Deus, à sua imagem e semelhança.

O pecado corrompe nossa maneira de viver e de nos relacionar, mas não nos autoriza a apagar a imagem de Deus no próximo. Ninguém tem o direito de suprimir ou rebaixar a dignidade humana.

Não devemos aceitar que isso seja feito conosco nem permitir que façamos o mesmo com outras pessoas.

Das mensagens anteriores à pobreza

Na primeira mensagem da série, vimos que todo ser humano foi criado à imagem de Deus. Na segunda, aplicamos essa verdade às pessoas com deficiência.

As Escrituras proíbem que se explorem suas limitações ou que se coloquem obstáculos em seu caminho. Jesus as viu, acolheu e restaurou; e a igreja foi chamada a reconhecer seus dons e sua plena participação no corpo de Cristo.

Resumimos nossa resposta em três atitudes:

  1. confessar nossa indiferença;
  2. permitir que a Palavra transforme nosso olhar;
  3. realizar ações concretas que removam barreiras.

Agora aplicaremos o mesmo fundamento à dignidade das pessoas que vivem em situação de pobreza.

A pobreza e a dignidade humana

A pobreza possui causas diversas. Pode envolver desigualdade de oportunidades, desemprego, baixa escolaridade, enfermidades, crises familiares, decisões pessoais, exploração, políticas inadequadas e estruturas sociais e econômicas injustas.

Quase nunca podemos explicá-la por um único fator.

Entretanto, seja qual for sua origem, a pobreza nunca transforma alguém em uma pessoa menos digna.

Quando esta mensagem foi pregada, um levantamento da FGV Social, baseado em dados de 2021, estimava que 47,18% da população da Paraíba vivia com renda domiciliar mensal de até R$ 497 por pessoa. Na série de 2012 a 2021, essa proporção nunca havia ficado abaixo de 39,29%.

Esses dados ajudam a compreender a urgência do assunto para uma igreja localizada em João Pessoa, num estado marcado por desigualdades profundas.

Pobreza não significa apenas possuir pouco dinheiro. Também significa enfrentar dificuldades para obter alimentação adequada, moradia, saúde, educação, transporte, segurança, descanso e oportunidades.

A falta dessas condições ameaça o exercício da dignidade humana, mas não retira a dignidade da pessoa.

Quem possui pouco não vale menos.

Do desprezo ao acolhimento

Com frequência, especialmente nos centros de consumo, as pessoas são avaliadas pela quantidade de dinheiro que possuem e por sua capacidade de comprar.

Quem pode consumir muito recebe atenção, cordialidade e tratamento especial. Já quem dispõe de poucos recursos pode ser ignorado, vigiado com desconfiança ou tratado como alguém que não deveria estar naquele lugar.

A pobreza torna-se, então, uma espécie de marca social. A pessoa passa a ser vista como menos importante e menos digna de respeito.

Jesus nos chama a seguir na direção contrária.

“Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram’.” Mateus 25.34–36 — NVI

Jesus descreve pessoas que passam fome, sede, desabrigo, enfermidade, prisão e falta de roupas.

Elas não aparecem apenas como destinatárias distantes da caridade. O Rei se identifica com elas:

“Eu tive fome.”
“Eu tive sede.”
“Eu era estrangeiro.”
“Eu necessitei de roupas.”

Jesus não ensina que boas ações compram a entrada no Reino. As ações revelam, porém, a realidade de nossa relação com o Rei. Quem foi alcançado pelo amor de Cristo aprende a reconhecer sua presença naqueles que sofrem.

O cuidado com a pessoa necessitada não é um detalhe periférico da vida cristã. Ele evidencia que compreendemos o evangelho e reconhecemos a imagem de Deus no próximo.

Por isso, quem segue Jesus não deve desprezar as pessoas em situação de pobreza. Deve acolhê-las e agir para aliviar seu sofrimento.

Da humilhação à honra

Em sociedades profundamente desiguais, pessoas pobres nem sempre conseguem ocupar os mesmos espaços que aqueles que possuem mais recursos.

Há ambientes, portas, serviços e oportunidades que separam pessoas de acordo com sua condição econômica. Até mesmo expressões como “entrada de serviço” e “elevador de serviço” podem deixar de indicar apenas uma função e passar a comunicar que algumas pessoas pertencem a uma categoria inferior.

Muitos trabalhadores não podem desfrutar dos produtos e serviços que ajudam a produzir. Famílias pobres são pressionadas a limitar seus sonhos. Presentear os netos, oferecer boa formação aos filhos, viajar ou desfrutar de algum lazer podem ser tratados como se fossem ambições indevidas.

Assim, pouco a pouco, a sociedade lhes nega o reconhecimento de sua plena humanidade.

Jesus, porém, colocou os pobres em lugar de honra.

Em Nazaré, ele explicou sua missão lendo o profeta Isaías:

Jesus foi para Nazaré, onde ele tinha crescido. No sábado foi à sinagoga, como era seu costume. Ali ele se levantou para ler as Escrituras, e lhe deram o livro do profeta Isaías. Ele o abriu e achou o lugar onde estava escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim. Ele me escolheu para proclamar as Boas-Novas aos pobres e anunciar a liberdade aos presos. Ele me enviou para dar vista aos cegos, para libertar os que estão sendo maltratados e para anunciar o ano em que o Senhor vai favorecer o seu povo.” Lucas 4.16–19 — VFL

Jesus anunciaria as boas-novas aos pobres.

Aqueles que a sociedade frequentemente esquecia receberam lugar central em sua proclamação. O evangelho lhes anunciava que Deus os via, conhecia seu sofrimento e havia se aproximado para salvar.

Isso não significa que somente pessoas pobres precisam do evangelho. Significa que o Reino de Deus confronta as estruturas que transformam riqueza em sinal de superioridade e pobreza em motivo de vergonha.

Quem segue Jesus não deve humilhar pessoas por causa de sua condição econômica. Deve tratá-las com respeito e reconhecer nelas o mesmo valor que reconhece em qualquer outra pessoa.

A igreja não pode oferecer ajuda com uma mão e retirar a dignidade com a outra.

Cuidado que promove participação

Em nome da responsabilidade individual, algumas pessoas adotam uma espécie de “cada um por si”. Atribuem toda pobreza à falta de esforço e abandonam os necessitados à própria sorte.

Essa visão ignora que as pessoas não começam a vida com as mesmas oportunidades. Algumas famílias atravessam gerações sem acesso adequado à educação, ao trabalho digno, à moradia, à saúde e aos relacionamentos que abrem portas.

Contudo, um cuidado mal conduzido também pode produzir dependência, controle e humilhação.

A ajuda cristã não deve transformar a necessidade de alguém num instrumento de poder sobre sua vida. Não ajudamos para controlar, cobrar submissão ou manter uma pessoa permanentemente dependente de nós.

O socorro é necessário quando há fome, enfermidade, desemprego ou crise. Sempre que possível, porém, ele deve caminhar em direção à participação, à capacitação, ao trabalho e à autonomia.

Isso não significa abandonar quem continuará precisando de auxílio. Há pessoas cuja idade, enfermidade, deficiência ou circunstâncias exigirão apoio contínuo.

Autonomia não significa viver sem ninguém. Significa participar das decisões sobre a própria vida, exercer os próprios dons e não ser tratado como objeto passivo da vontade dos outros.

O cuidado cristão acolhe sem dominar, socorre sem humilhar e serve sem aprisionar.

Leis que protegiam as pessoas pobres

Em primeiro lugar, as leis de Israel procuravam impedir que a necessidade se transformasse numa prisão permanente.

O cancelamento das dívidas

“No final de cada sete anos as dívidas deverão ser canceladas. Isso deverá ser feito da seguinte forma: todo credor cancelará o empréstimo que fez ao seu próximo. Nenhum israelita exigirá pagamento de seu próximo ou de seu parente, porque foi proclamado o tempo do Senhor para o cancelamento das dívidas. Vocês poderão exigir pagamento do estrangeiro, mas terão que cancelar qualquer dívida de seus irmãos israelitas. Assim, não deverá haver pobre algum no meio de vocês, pois na terra que o Senhor, o seu Deus, lhes está dando como herança para que dela tomem posse, ele os abençoará ricamente, contanto que obedeçam em tudo ao Senhor, o seu Deus, e ponham em prática toda esta lei que hoje lhes estou dando.” Deuteronômio 15.1–5 — NVI

A cada sete anos, as dívidas deveriam ser canceladas. O objetivo era impedir que o endividamento se transformasse numa prisão permanente e atravessasse sucessivas gerações.

No mesmo capítulo, Deus ordena que o povo abra generosamente a mão ao necessitado. O versículo 4 apresenta o propósito — “não deverá haver pobre algum no meio de vocês” —, enquanto o versículo 11 reconhece a realidade de um mundo ainda marcado pela necessidade — “sempre haverá pobres na terra”.

A constatação de que a pobreza continuaria existindo não serve como desculpa para a indiferença. Pelo contrário, é exatamente por isso que o texto ordena:

“Abra livremente a mão para o seu irmão, para o necessitado e para o pobre da sua terra.”

O princípio que permanece

Em Levítico 25, o ano do jubileu determinava que a terra retornasse às famílias às quais havia sido atribuída. A terra pertencia ao Senhor, e nenhuma família deveria perdê-la definitivamente por causa de uma crise.

Outras leis permitiam que pobres, estrangeiros, órfãos e viúvas recolhessem parte da colheita deixada nos campos. O proprietário não deveria extrair até o último grão de sua terra. Parte da produção deveria permanecer acessível aos vulneráveis.

Essas leis pertencem à organização social do antigo Israel e não podem ser simplesmente transplantadas para nossa realidade. Seus princípios, porém, permanecem:

  • a vida humana é mais importante do que a acumulação;
  • a dívida não deve se transformar em escravidão permanente;
  • a propriedade traz responsabilidade diante de Deus;
  • uma comunidade justa cria condições para que os vulneráveis vivam com dignidade;
  • a generosidade não é opcional para o povo do Senhor.

Tudo o que temos deve servir não apenas ao nosso bem, mas também ao bem do próximo.

Os pobres no ministério de Jesus

Em seguida, o ministério de Jesus tornou visível o cuidado de Deus pelas pessoas pobres.

Jesus alimentou os famintos, curou enfermos, recebeu os desprezados, denunciou aqueles que exploravam os vulneráveis e anunciou as boas-novas aos que haviam perdido a esperança.

Jesus respondeu: “Voltem e anunciem a João o que vocês estão ouvindo e vendo:
os cegos veem, os mancos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as boas-novas são pregadas aos pobres.” Mateus 11.4–5 — NVI

Quando João Batista perguntou se Jesus era aquele que deveria vir, o Senhor apontou para os sinais de seu ministério.

Entre esses sinais estava esta declaração:

“As boas-novas são pregadas aos pobres.”

O evangelho não era um discurso reservado aos poderosos, instruídos e influentes. Alcançava aqueles que a sociedade ignorava e lhes anunciava o amor e o Reino de Deus.

Jesus não romantizou a pobreza, como se passar necessidade fosse algo desejável. Ele alimentou pessoas porque a fome é real. Curou porque a enfermidade faz sofrer. Acolheu porque a exclusão machuca.

Ao mesmo tempo, recusou-se a medir a importância de alguém por suas posses.

A igreja seguiu os passos de Jesus

Da mesma forma, a preocupação com as pessoas pobres apareceu desde os primeiros dias da igreja.

Quando Tiago, Pedro e João reconheceram o ministério de Paulo e Barnabé entre os gentios, fizeram um pedido:

Reconhecendo a graça que me fora concedida, Tiago, Pedro e João, tidos como colunas, estenderam a mão direita a mim e a Barnabé em sinal de comunhão. Eles concordaram em que devíamos nos dirigir aos gentios, e eles, aos circuncisos. Somente pediram que nos lembrássemos dos pobres, o que me esforcei por fazer. Gálatas 2.9–10 — NVI

Havia diferenças de campo missionário, cultura e prática. Entretanto, a lembrança dos pobres deveria acompanhar todos.

Uma igreja pode discutir muitos assuntos e desenvolver diferentes ministérios. Não pode, porém, esquecer aqueles que enfrentam necessidades.

Não havia necessitados entre eles

Em Jerusalém, os cristãos partilhavam seus recursos para atender às necessidades da comunidade:

Não havia pessoas necessitadas entre eles, pois os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro da venda e o colocavam aos pés dos apóstolos, que o distribuíam segundo a necessidade de cada um. Atos 4.34–35 — NVI

O texto não afirma que todos possuíam exatamente a mesma quantidade. Afirma algo mais concreto:

“Não havia pessoas necessitadas entre eles.”

A generosidade dos que tinham mais encontrava a necessidade dos que tinham menos.

A comunidade não tratava a pobreza como problema particular de quem sofria. A necessidade de um irmão tornava-se preocupação de todos.

Pobres entre o povo de Deus

As igrejas da Macedônia e da Acaia também levantaram uma oferta para socorrer os cristãos pobres de Jerusalém:

Agora, porém, estou de partida para Jerusalém, a serviço dos santos. Pois a Macedônia e a Acaia tiveram a alegria de contribuir para os pobres dentre os santos de Jerusalém. Tiveram prazer nisso, e de fato são devedores aos santos de Jerusalém. Pois, se os gentios participaram das bênçãos espirituais dos judeus, devem também servir aos judeus com seus bens materiais. Romanos 15.25–27 — NVI

A contribuição material era expressão de comunhão espiritual.

Os cristãos gentios haviam recebido o evangelho por meio do testemunho que veio de Jerusalém. Agora, diante da necessidade dos irmãos judeus, respondiam com seus bens.

A igreja compreendeu que a comunhão não existe apenas em palavras, reuniões e declarações de fé. Ela também se torna visível quando os recursos de alguns aliviam o sofrimento de outros.

Nossas experiências na Igreja Batista Videira

Temos vivido experiências importantes na Igreja Batista Videira.

Durante a pandemia, ajudamos irmãos que perderam renda. Também socorremos famílias que atravessaram crises financeiras repentinas e apoiamos pessoas que precisavam de formação acadêmica para buscar uma nova colocação no mercado de trabalho.

Em diferentes momentos, auxiliamos irmãos que precisavam de recursos para o pão de cada dia. Socorremos uma irmã que necessitava de uma cama especial e participamos da reconstrução de uma casa destruída pelo fogo.

Essas ações foram realizadas coletivamente. Certamente, muitos irmãos também têm servido de maneira pessoal, discreta e generosa.

Isso é muito bom, e devemos agradecer a Deus pelo que já conseguimos fazer.

Ainda há, porém, muito a aprender e realizar para que as pessoas em situação de pobreza percebam, por meio de nós, o amor de Cristo.

O que podemos fazer?

Nossa resposta não precisa começar com grandes projetos. Ela pode surgir de decisões concretas.

Na vida cotidiana

Algumas respostas estão ao alcance de todos. Na convivência diária, devemos recusar piadas e comentários que humilham os pobres, tratando com o mesmo respeito pessoas de diferentes profissões e condições econômicas.

Nossos recursos também podem servir ao próximo. Alimentos, roupas, tempo, conhecimentos, contatos e oportunidades podem aliviar necessidades e abrir novos caminhos.

Em alguns casos, um empréstimo pode ser transformado em doação. Em outros, apoiar a formação profissional será mais útil do que oferecer apenas auxílio imediato.

Também podemos fortalecer pequenos trabalhadores e empreendedores, contratar com justiça e compartilhar oportunidades de trabalho.

Como igreja e sociedade

Como igreja, precisamos organizar respostas sábias às necessidades reais da comunidade, sem humilhar, controlar ou produzir dependência.

Na vida pública, o amor ao próximo também nos leva a apoiar políticas responsáveis que protejam os vulneráveis, ampliem oportunidades e enfrentem estruturas injustas.

Algumas formas de pobreza ultrapassam a capacidade de indivíduos e igrejas locais. Por isso, exigem também ações coletivas e instituições comprometidas com a justiça.

A generosidade individual é indispensável, mas não substitui tudo o que uma sociedade precisa realizar para proteger seus membros mais vulneráveis.

O amor cristão não escolhe entre proclamar o evangelho e socorrer quem sofre. Jesus fez as duas coisas.

Criados à imagem de Deus

Há muito mais a dizer sobre esse assunto.

Entretanto, quem se dispõe a ouvir as Escrituras encontra um Deus que trabalha para resgatar e preservar a dignidade de sua criação, começando frequentemente pelos menos protegidos e pelos mais vulneráveis.

Encontramos esse cuidado nas leis do Antigo Testamento.

Vemos esse amor no ministério de Jesus.

Reconhecemos seus frutos nos primeiros passos da igreja.

Em cada um desses movimentos, somos alcançados pelo amor ativo de Deus pelas pessoas em situação de pobreza. E, quando esse amor nos alcança, somos convidados a trabalhar com o Senhor no resgate da dignidade das pessoas ao nosso redor.

Não ajudamos porque somos superiores nem servimos porque as pessoas pobres valem menos. Nós nos aproximamos porque reconhecemos nelas a mesma imagem de Deus que carregamos e o mesmo amor revelado na cruz de Cristo.

Deus nos criou humanos, à sua imagem e semelhança. Por isso, o saldo de uma conta bancária nunca poderá determinar o valor de alguém, e nenhuma condição econômica apagará sua humanidade.

Uma igreja que segue Jesus não pode permanecer indiferente quando alguém não possui o necessário para viver com dignidade.


Terceira mensagem da série “Ser humano”, escrita por Aristarco Pereira Coelho, pregada em 05/03/2023 na Igreja Batista Videira, em João Pessoa, e posteriormente revisada para publicação no blog.

12 fevereiro 2023

 


Ser humano: a dignidade da pessoa idosa

Estamos percorrendo a série de mensagens "Ser humano" e refletindo sobre nossa humanidade à luz das Escrituras.

Vimos que essa humanidade é uma condição comum a todos nós. Mas que condição é essa? O que realmente nos faz humanos e nos liga uns aos outros?

Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Gn 1.27 — NVI

A partir da narrativa da criação, no primeiro capítulo de Gênesis, vimos que somos criaturas. Reconhecer essa condição é reconhecer um aspecto importante de nossa humanidade.

Também destacamos duas ideias fundamentais para nossa conversa:

  1. Nossa existência não é um acidente, mas resultado da ação criadora e intencional de Deus.
  2. A assinatura de Deus está em nós, isto é, fomos criados à sua imagem.

Portanto, esses são dois aspectos fundamentais para compreendermos o que significa ser humano e a dignidade que essa condição confere a todas as pessoas, em todos os lugares e épocas.

A dignidade que precisa ser resgatada

De diversas maneiras, sociedades e grupos têm negado a plena humanidade de determinadas pessoas. Esse processo de desumanização considera o outro inferior e menos digno de respeito. No decorrer da história, isso levou sociedades inteiras a tratar diferentes grupos como subumanos.

Vimos que a dignidade humana precisa ser resgatada. Isso começa com o reconhecimento de uma verdade simples e poderosa: todas as pessoas foram criadas intencionalmente por Deus, à sua imagem e semelhança.

Embora o pecado tenha turvado essa imagem em nós, ela permanece como fundamento da dignidade que recebemos por causa de nossa condição humana. Essa dignidade não pode ser suprimida nem rebaixada.

Recordando a dignidade das pessoas em situação de pobreza

Na mensagem anterior, vimos que as Escrituras nos apresentam um Deus que age para resgatar e preservar a dignidade de sua criação, começando pelos mais vulneráveis. As pessoas que não conseguem prover o mínimo necessário para sua sobrevivência fazem parte desse grupo.

Observamos algumas leis do Antigo Testamento, olhamos para o ministério de Jesus e acompanhamos os passos da igreja, procurando identificar os movimentos produzidos pelo amor ativo de Deus pelas pessoas pobres.

Encontramos leis que determinavam o perdão das dívidas. Vimos Jesus agindo com completa empatia em favor dos necessitados. Também ouvimos o eco desse cuidado nos primeiros dias da igreja, produzindo interesse e ação para que as pessoas que se rendiam a Jesus fossem assistidas em suas necessidades.

Recordamos ainda algumas experiências que vivemos como igreja no desafio de suprir as necessidades uns dos outros:

  • ajudamos irmãos que perderam renda durante a pandemia;
  • socorremos pessoas que enfrentaram crises financeiras repentinas;
  • apoiamos irmãos que precisavam de formação acadêmica para se recolocar no mercado de trabalho;
  • temos ajudado pessoas que, em alguns momentos, precisam de auxílio para o pão de cada dia;
  • socorremos uma irmã que precisava de uma cama especial;
  • ajudamos na reconstrução de uma casa destruída pelo fogo.

Fizemos isso coletivamente, e muitas outras coisas também foram realizadas individualmente.

Compreendemos que o amor de Deus nos convida a trabalhar com ele no resgate da dignidade das pessoas pobres. Somos chamados a reconhecer em cada uma delas a imago Dei, a imagem de Deus, e a vê-las como alvo do amor demonstrado na cruz do Calvário, por meio da morte de Cristo.

Pessoas idosas

Hoje, quero falar sobre outro grupo cuja dignidade humana tem sido sistematicamente ameaçada: as pessoas idosas.

Nesta reflexão, valho-me, entre outras fontes, de ideias apresentadas pelo teólogo alemão Erhard S. Gerstenberger numa palestra dirigida a responsáveis por instituições de atendimento a pessoas idosas, realizada em Gramado, no Rio Grande do Sul, em 1978.

De acordo com a legislação brasileira, uma pessoa é considerada idosa quando completa 60 anos.

Quando esta mensagem foi pregada, estimava-se que a Paraíba tivesse mais de 500 mil pessoas idosas, das quais cerca de 80 mil tinham mais de 80 anos.

No Brasil, durante a década anterior, a parcela de pessoas com 60 anos ou mais havia passado de 11,3% para 14,7% da população. Em números absolutos, esse grupo cresceu de 22,3 milhões para 31,2 milhões de pessoas.

Confirmava-se, assim, a previsão de muitos estudiosos: a população brasileira estava envelhecendo. E não era diferente no contexto de nossas igrejas.

Diversos fatores contribuíram para esse crescimento, entre eles a redução das taxas de fecundidade, o maior acesso a medicamentos e assistência médica, os avanços da medicina, a melhoria da nutrição e a maior compreensão dos problemas que afetam a pessoa idosa.

Por isso, essa realidade tem levado muita gente a pensar e repensar a maneira como tratamos quem envelhece.

Na Paraíba e em todo o Brasil, famílias, igrejas, organizações e governos criaram muitas instituições para amparar pessoas idosas nos últimos anos de suas vidas. Esse movimento procura diminuir situações de abandono e, por isso, deve ser valorizado.

Contudo, nem sempre essas iniciativas conseguem, por si mesmas, resgatar a dignidade esquecida daqueles que já não parecem relevantes para a sociedade.

Uma pergunta necessária

O que temos a ver com isso?

Há algo a ser dito por aqueles que seguem Jesus sobre a condição de vida das pessoas idosas e sobre a perda da dignidade daqueles que um dia foram ativos e considerados relevantes, mas que hoje, muitas vezes, são desconsiderados?

Para responder a essa pergunta, começaremos pensando na condição da pessoa idosa no mundo bíblico.

As pessoas daquela época eram sensíveis às necessidades de quem envelhecia? O que os textos do Antigo e do Novo Testamento dizem sobre a maneira como as pessoas idosas devem ser tratadas?

As Escrituras não nos decepcionam. Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, encontramos orientações para uma sociedade na qual a pessoa idosa seja alvo de atenção e respeito.


“Levantem-se na presença dos idosos, honrem os anciãos, temam o seu Deus. Eu sou o Senhor.” Lv 19.32 — NVI

“Honra teu pai e tua mãe, a fim de que tenhas vida longa na terra que o Senhor, o teu Deus, te dá.” Ex 20.12 — NVI

Ouça o seu pai, que o gerou; não despreze sua mãe quando ela envelhecer. Pv 23.22 — NVI

“Mesmo na sua velhice, quando tiverem cabelos brancos, sou eu aquele, aquele que os susterá. Eu os fiz e eu os levarei; eu os sustentarei e eu os salvarei.” Is 46.4 — NVI

A beleza dos jovens está na sua força; a glória dos idosos, nos seus cabelos brancos. Pv 20.29 — NVI

No Novo Testamento, também encontramos orientações sobre o tratamento respeitoso das pessoas mais velhas:

Da mesma forma, jovens, sujeitem-se aos mais velhos. Sejam todos humildes uns para com os outros, porque “Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes”. 1 Pedro 5.5 — NVI

Não repreenda asperamente o homem idoso, mas exorte-o como se ele fosse seu pai; trate os jovens como a irmãos; as mulheres idosas, como a mães; e as moças, como a irmãs, com toda a pureza. 1 Timóteo 5.1–2 — NVI

Guardiões da tradição

Uma das razões pelas quais as pessoas idosas eram tratadas com deferência estava relacionada ao seu papel educativo.

Como guardiões da tradição, os mais velhos tinham a responsabilidade de comunicar a cultura, a fé, a sabedoria e o modo como a vida deveria ser vivida. Por isso, os textos sapienciais são claros sobre a importância de ouvir as instruções dos pais e das mães:

Ouça, meu filho, a instrução de seu pai e não despreze o ensino de sua mãe. Pv 1.8 — NVI

Meu filho, se você aceitar as minhas palavras e guardar no coração os meus mandamentos... Pv 2.1 — NVI

Meu filho, não se esqueça da minha lei, mas guarde no coração os meus mandamentos. Pv 3.1 — NVI

Guardiões da memória da fé

Também cabia aos mais velhos apresentar às novas gerações o significado das experiências de fé vividas pela comunidade.

Com filhos e netos sentados ao seu redor, eles contavam e recontavam as histórias sobre o agir de Deus:

“No futuro, quando os seus filhos lhes perguntarem: ‘Que significa isto?’, digam-lhes: Com mão poderosa o Senhor nos tirou do Egito, da terra da escravidão.” Ex 13.14 — NVI

“No futuro, quando os seus filhos lhes perguntarem: ‘O que significam estes preceitos, decretos e ordenanças que o Senhor, o nosso Deus, ordenou a vocês?’, vocês lhes responderão: ‘Fomos escravos do faraó no Egito, mas o Senhor nos tirou de lá com mão poderosa’.” Dt 6.20–21 — NVI

Essas funções faziam parte de sociedades que, comparadas à nossa, passavam por mudanças mais lentas e valorizavam a conservação do modo de vida.

A experiência das gerações anteriores, já testada ao longo do tempo, servia como referência para responder às perguntas das novas gerações.

Os métodos de trabalho, as profissões, a fabricação de ferramentas, a organização familiar e os costumes podiam atravessar longos períodos sem alterações tão rápidas quanto aquelas que experimentamos atualmente.

Nesse contexto, a comunidade valorizava muito a palavra, a experiência e as decisões das pessoas idosas. Elas funcionavam como pontos de coesão para a família, a tribo e a nação.

Quanto mais uma pessoa envelhecia, maior era a experiência acumulada que poderia compartilhar com os mais novos.

Novos tempos

Esse contexto social, relativamente favorável à valorização das pessoas idosas, permaneceu de diferentes formas até o período pré-industrial.

Com as grandes transformações iniciadas a partir da Revolução Industrial, novas maneiras de pensar, pesquisar, produzir e se relacionar começaram a abalar a antiga estabilidade social.

As mudanças tornaram-se cada vez mais rápidas e constantes.

Nesse novo cenário, pessoas que antes eram vistas como fontes de sabedoria e conhecimento passaram, muitas vezes, a ser tratadas como portadoras de opiniões dispensáveis.

Alguns consideram que já não vale a pena consultar as pessoas idosas, porque as rápidas mudanças sociais e tecnológicas as teriam deixado para trás.

Suas experiências já não parecem aplicar-se plenamente às novas situações. Seus conselhos nem sempre são considerados úteis, e a antiga condição de reconhecimento pela comunidade vai se desgastando na mesma velocidade das transformações.

A riqueza da experiência de vida dos mais velhos continua relevante, mas pode deixar de inspirar o mesmo respeito e consideração.

Nesse novo tempo, a sociedade frequentemente coloca a pessoa idosa de lado.

Nem sempre ela consegue compartilhar de maneira significativa suas experiências e seus conhecimentos com filhos e netos, como fizeram seus antepassados durante muitas gerações.

As mudanças constantes podem dificultar a compreensão de alguns acontecimentos e deixá-la fora das discussões.

O antigo papel de guardiã da tradição pode até tornar-se motivo de piada. Assim, a sociedade condena muitas pessoas idosas ao silêncio e ao isolamento.

Nesse ambiente, sobra pouco espaço para falar em respeito incondicional à pessoa idosa.

Além disso, no campo da fé, a situação não é muito diferente.

Se antes os mais velhos eram considerados mestres dos quais se poderia aprender sobre a caminhada com Deus e ouvir histórias de como ele agiu no passado, hoje, em muitos contextos, a fé dos pais é vista com desconfiança.

Pode ser considerada antiquada, criticada e, por fim, abandonada.

Onde está a dignidade da pessoa idosa?

Ancião, terceira idade, melhor idade, pessoa idosa...

Ao longo da história, homens e mulheres idosos foram reconhecidos como guardiões da tradição cultural e religiosa. Receberam honra por sua contribuição às gerações futuras.

Por outro lado, em diferentes épocas e culturas, pessoas idosas também foram consideradas pesadas e incômodas para a sociedade, especialmente quando deixaram de ser produtivas ou permaneceram apegadas a valores e modos de vida considerados ultrapassados pelos mais jovens.

Há, portanto, uma ambiguidade na maneira como as pessoas idosas são tratadas.

Mesmo em nossos dias, ao mesmo tempo que várias vozes se levantam em defesa de sua dignidade, a sociedade continua cultuando a juventude e se esforçando para não envelhecer.

Empresas ainda podem preferir jovens a trabalhadores mais maduros. Academias e clínicas oferecem formas de conservar ou recuperar uma aparência jovem, por meio de exercícios, tratamentos e cirurgias.

Outro aspecto dessa ambiguidade é o poder de compra.

A pessoa idosa que acumulou patrimônio, possui renda e continua sendo uma consumidora recebe tratamento muito diferente daquela que não tem renda nem patrimônio.

De modo geral, a pessoa idosa que consome é tratada com respeito. Aquela que não possui poder de compra pode tornar-se invisível.

A formação acadêmica também influencia esse tratamento.

Quem teve oportunidade de estudar e acumular diplomas e títulos costuma receber mais respeito. Já aqueles que mal tiveram acesso à leitura e à escrita podem ser tratados como se não tivessem nada a oferecer.

Onde está, então, a dignidade da pessoa idosa?

Uma dignidade que não depende da utilidade

Quando alguém envelhece, torna-se, por meio de suas experiências, guardião da cultura, da arte e da tecnologia de seu tempo.

Essa contribuição é importante, mas pode ser facilmente relativizada. Novas tecnologias surgem, a arte e a cultura tomam novos rumos e, de repente, a pessoa idosa se percebe guardiã de coisas pelas quais poucos se interessam.

Da mesma forma, pessoas idosas são importantes guardiãs das experiências de fé. A partir do que viveram com Deus, constroem significados para as gerações futuras.

Contudo, essa importância também pode ser relativizada quando a vida muda rapidamente e os padrões de espiritualidade são desfeitos e reconstruídos.

A pessoa idosa pode, então, perceber-se apresentando modelos de fé pelos quais poucas pessoas demonstram interesse.

Onde repousa sua dignidade?

Ela repousa na permanência da imagem e semelhança de Deus em nós.

Assim Deus criou o homem à sua própria imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea ele os criou. Gn 1.27 — BKJ 1611

Todos fomos criados à imagem e semelhança de Deus.

Essa marca do Criador em nós não envelhece nem se desgasta com o tempo.

Por isso, quando o texto bíblico ordena:

“Levantem-se na presença dos idosos, honrem os anciãos, temam o seu Deus. Eu sou o Senhor”, Lv 19.32 — NVI

ele reconhece a importância das pessoas idosas como guardiãs da cultura e da fé. Acima de tudo, porém, anuncia que a dignidade humana não fica velha nem antiquada.

Ela acompanha o ser humano durante toda a vida.

Resgatando a dignidade

Diante disso, uma vez que ancoramos a dignidade da pessoa idosa na Palavra de Deus, precisamos perguntar:

Que resposta podemos oferecer, como igreja de Jesus, às ameaças que as pessoas idosas sofrem contra sua dignidade?

A resposta que proponho é a mesma que apresentamos diante dos desafios relacionados à dignidade das pessoas com deficiência:

  1. confessar nosso pecado;
  2. expor nossa mente e nosso coração à Palavra de Deus;
  3. fazer algo real por pessoas reais.

1. Confessar

Confessar é reconhecer.

O apóstolo João fala sobre a importância da confissão nos seguintes termos:

Se dissermos que não temos pecados, estamos enganando a nós mesmos e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, Deus nos perdoará e nos purificará de toda injustiça, pois ele é fiel e justo. 1 Jo 1.8–9 — VFL

Os discípulos de Jesus devem ser exemplares na confissão.

Se não temos tratado as pessoas idosas com dignidade, precisamos reconhecer isso.

Se somos seletivos ao oferecer-lhes respeito, também precisamos admitir.

Devemos examinar se estamos nos tornando utilitaristas em relação às pessoas idosas, isto é, se o valor que damos a elas depende de sua capacidade de nos oferecer algo em troca.

Você pode confessar seus pecados sobre essa questão numa conversa íntima com Deus. Também pode procurar um irmão maduro na caminhada da fé e conversar com ele sobre suas lutas.

Tiago, irmão de Jesus, ensina que a confissão e a oração mútua produzem cura:

Portanto, confessem os seus pecados uns aos outros e orem uns pelos outros para serem curados. A oração de um justo é poderosa e eficaz. Tg 5.16 — NVI

Esse é o primeiro passo de nossa resposta: confessar.

2. Expor-se à Palavra

A segunda parte de nossa resposta às tentativas de negar à pessoa idosa a dignidade que lhe é inerente consiste em nos expormos ao ensino da Palavra de Deus.

Precisamos permitir que ela transforme nossa forma de pensar.

O apóstolo Paulo fala sobre essa transformação:

Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Rm 12.2 — NVI

Diante desse conselho apostólico, vale recordar algumas orientações bíblicas sobre o respeito à dignidade das pessoas idosas:

“Honra teu pai e tua mãe, a fim de que tenhas vida longa na terra que o Senhor, o teu Deus, te dá.” Ex 20.12 — NVI

Filhos, obedeçam a seus pais no Senhor, pois isso é justo. Ef 6.1 — NVI

Não repreenda asperamente o homem idoso, mas exorte-o como se ele fosse seu pai; trate os jovens como a irmãos; as mulheres idosas, como a mães; e as moças, como a irmãs, com toda a pureza. 1 Tm 5.1–2 — NVI

Da mesma forma, jovens, sujeitem-se aos mais velhos. Sejam todos humildes uns para com os outros, porque “Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes”. 1 Pe 5.5 — NVI

O ponto de partida do ensino bíblico sobre o respeito e a proteção da dignidade da pessoa idosa já se encontra nos Dez Mandamentos.

Entre as orientações fundamentais sobre nossa relação com Deus e com o próximo, há espaço para o mandamento de honrar aqueles que vieram antes de nós.

Paulo fala aos filhos que ainda estão sob a tutela dos pais, ressaltando a obediência que lhes devem. Também orienta os líderes da igreja a tratar as pessoas idosas com gentileza e cordialidade.

Pedro relaciona o reconhecimento devido aos mais velhos à humildade que deve caracterizar toda a comunidade.

Esse é o segundo passo de nossa resposta: permitir que o ensino bíblico molde nossa maneira de enxergar o mundo e viver a vida.

3. Fazer

Confessar e expor-se à Palavra são preparativos para agir.

Fazer algo real por uma pessoa real, com nome e história, é o terceiro passo de nossa resposta às ameaças contra a dignidade da pessoa idosa.

Formas concretas de honrar

Valho-me aqui de sugestões apresentadas por Eron Franciulli Coutinho Jr. e Israel Belo de Azevedo em textos sobre esse tema:

  • sirva as pessoas idosas em suas necessidades físicas, financeiras, sociais, emocionais e espirituais;
  • respeite e considere suas opiniões e vontades, sempre protegendo seu bem-estar e sua vida pessoal;
  • seja paciente com suas limitações e dificuldades;
  • valorize seus esforços, conhecimentos e sabedoria;
  • peça conselhos e orientações;
  • reconheça publicamente o bem que prestaram à família, à igreja e à sociedade;
  • procure uma pessoa idosa disposta a ensinar e torne-se alguém disposto a aprender;
  • valorize seus pais, aqueles que vieram antes de você, seus colegas de trabalho mais antigos e as pessoas investidas de autoridade.

Sempre há algo que podemos aprender com elas.

Aprenda a ouvir os mais velhos

Outra forma prática de preservar a dignidade das pessoas idosas e, ao mesmo tempo, aprender com elas é ouvi-las.

Ouça os mais velhos para aprender com os erros deles. Repetir os mesmos erros cometidos pelas gerações anteriores não é uma boa prática de vida. Ao ouvir as pessoas idosas, podemos evitar essa triste repetição.

Ouça os mais velhos para fazer como eles. Cada pessoa idosa de nossa família ou igreja possui alguma experiência, uma sabedoria própria e um jeito de viver ou fazer determinadas coisas que já demonstrou funcionar. Ao ouvi-la, podemos poupar tempo e sofrimento.

Ouça os mais velhos para fazer diferente deles. Pessoas idosas são únicas e diferentes de nós. Essas diferenças podem contribuir para a construção de nossa própria identidade. Ao ouvi-las, percebemos o que desejamos preservar e também aquilo que pretendemos fazer de outra forma.

Ouça os mais velhos para ir além deles. Um dos grandes presentes que uma geração pode oferecer à anterior é tornar-se uma versão aperfeiçoada daqueles que vieram antes. Ao ouvi-los, recebemos a oportunidade de seguir adiante a partir do caminho que percorreram.

Ouça os mais velhos como uma pausa para reflexão. Não despreze nem descarte imediatamente o aviso de uma pessoa idosa. Para você, o caminho pode ser novo; para ela, talvez não seja.

Pare, ouça, pondere, dialogue, ore e, depois, siga conforme o entendimento que receber do Senhor.

A imagem de Deus não envelhece

A dignidade humana da pessoa idosa não decorre de suas experiências de vida, por mais enriquecedoras que sejam. Sua contribuição como guardiã da tradição cultural, da arte, da técnica e da fé é muito importante, mas também não é ela que cria essa dignidade.

O patrimônio acumulado e os rendimentos alcançados podem revelar planejamento e trabalho. Títulos e graus acadêmicos também merecem reconhecimento. Nada disso, porém, torna uma pessoa mais ou menos digna.

As pessoas idosas devem ter sua dignidade humana reconhecida, preservada e defendida porque a imagem e a semelhança de Deus presentes nelas não envelhecem.

Até o fim de suas vidas, carregam a marca do Criador de todas as coisas.

Por isso, são dignas.


Quarta mensagem da série “Ser humano”, escrita por Aristarco Pereira Coelho, pregada na Igreja Batista Videira, em João Pessoa, e posteriormente revisada para publicação no blog.

29 janeiro 2023

Ser humano: a dignidade das pessoas com deficiência

 


Na primeira mensagem da série Ser humano, começamos a refletir sobre nossa humanidade à luz das Escrituras.

Vimos que essa humanidade é uma condição comum a todos nós, uma realidade da qual não podemos fugir. Mas que condição é essa? O que realmente nos faz humanos e nos liga uns aos outros? O que é ser humano?

Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Gn 1.27 — NVI

A partir da narrativa da criação, no primeiro capítulo de Gênesis, vimos que somos criaturas. Reconhecer essa condição é parte do reconhecimento de nossa humanidade.

Destacamos duas afirmações fundamentais para o restante de nossa conversa.

A primeira é que nossa existência não é um acidente, mas resultado da ação criadora e intencional de Deus.

A segunda é que a assinatura de Deus está em nós. Fomos criados à sua imagem e semelhança. Isso confere dignidade a todo ser humano.

Essas verdades não servem apenas para explicar nossa origem. Elas devem transformar a maneira como enxergamos a nós mesmos e tratamos as outras pessoas.

Quando a dignidade humana é negada

De muitas maneiras, a condição de ser humano tem sido negada a determinados grupos. Esse processo é chamado de desumanização: o outro deixa de ser reconhecido como pessoa e passa a ser tratado como objeto, ameaça, estorvo ou vida descartável.

Ao longo da história, pessoas negras e indígenas foram descritas como inferiores. Idosos foram abandonados como se já não fossem gente. Pessoas pobres foram tratadas como seres humanos de segunda categoria. Crianças ainda no ventre foram reduzidas a problemas a serem eliminados. Criminosos foram chamados de “desalmados”, como se tivessem perdido toda a dignidade humana.

Pessoas com deficiência também foram — e continuam sendo — vítimas desse processo.

Para cada grupo desumanizado, surgem explicações destinadas a justificar moralmente o tratamento desumano. Primeiro, diminui-se sua humanidade. Depois, torna-se mais fácil negar-lhe direitos, submetê-lo à violência ou eliminá-lo.

Não podemos permanecer calados.

Precisamos resgatar, a começar por nós mesmos, a dignidade que conecta toda a humanidade: fomos criados intencionalmente por Deus, à sua imagem e semelhança.

Ainda que o pecado tenha corrompido nossa maneira de viver e de nos relacionar, ele não nos autoriza a apagar a imagem de Deus no próximo. A dignidade humana não pode ser concedida apenas a quem consideramos útil, produtivo, saudável ou merecedor.

Não há justificativa para aceitarmos que essa dignidade seja negada a nós nem para negá-la aos outros.

Pessoas com deficiência: uma história de desumanização

Ao longo da história, a deficiência foi usada como justificativa para rebaixar pessoas, restringir seus direitos e, em determinadas circunstâncias, negar-lhes até mesmo o direito à vida.

Na Grécia antiga, Platão imaginou, na cidade ideal descrita em A República, que crianças consideradas inferiores ou nascidas com alguma deformidade fossem retiradas secretamente da comunidade. Aristóteles foi mais explícito: em Política, defendeu que a lei não permitisse que uma criança nascida com deformidade fosse criada. Esses textos não provam que todos os gregos pensassem ou agissem assim, mas mostram que pensadores importantes admitiam subordinar a vida humana a critérios de força, saúde e utilidade. (Perseus)

Sobre Esparta, Plutarco relatou que os recém-nascidos eram examinados por anciãos e que aqueles considerados frágeis ou deformados eram levados a um lugar chamado Apothetae. Como Plutarco escreveu séculos depois dos acontecimentos que descreveu e reconheceu que as tradições sobre Licurgo eram divergentes, seu relato deve ser apresentado com cautela. Ainda assim, ele registra uma mentalidade segundo a qual uma vida que não correspondesse ao ideal de força poderia ser considerada sem valor para a sociedade. (Penelope)

No mundo romano, a reconstrução da Lei das Doze Tábuas determina que uma criança considerada gravemente deformada fosse morta imediatamente. A exposição de recém-nascidos também era conhecida, embora a deficiência não fosse sua única causa. Dificuldades econômicas, ilegitimidade e decisões sobre o tamanho da família também podiam levar ao abandono. Algumas dessas crianças morriam; outras eram recolhidas e submetidas à escravidão ou criadas por outras famílias. (Avalon Project)

Na Europa medieval, as atitudes foram variadas. Algumas pessoas relacionavam deficiências ao pecado, ao castigo de Deus ou à ação de forças demoníacas. Histórias populares sobre crianças supostamente substituídas por seres sobrenaturais alimentavam medo, rejeição e violência. Ao mesmo tempo, também há registros de cuidado familiar, assistência cristã e participação de pessoas com deficiência na vida social e religiosa. A Idade Média não possuía uma única maneira de enxergar a deficiência, mas nela também encontramos exemplos claros de desumanização. (PubMed)

Um exemplo especialmente grave aparece numa conversa atribuída a Martinho Lutero. Ele contou ter conhecido um menino de doze anos que julgou não ser uma criança humana, mas um changeling — uma criatura demoníaca supostamente colocada no lugar de uma criança. Lutero afirmou aos príncipes presentes que, caso tivesse autoridade, mandaria afogá-lo. Os príncipes recusaram sua recomendação. Esse episódio revela um dos graves pontos cegos do reformador: uma crença supersticiosa levou-o a negar a humanidade daquela criança e a considerar aceitável sua morte. (Publicações AAP)

No Brasil, também existem relatos e debates sobre a morte ou o abandono de recém-nascidos em alguns povos indígenas, em circunstâncias relacionadas à deficiência, ao nascimento de gêmeos, às condições da maternidade ou a concepções específicas sobre a entrada da criança na comunidade. Uma reportagem do Fantástico, exibida em 2014, afirmou que práticas dessa natureza ocorriam em pelo menos treze etnias. Esse número deve ser atribuído à reportagem e não pode ser generalizado a todos os povos indígenas, cujas culturas são diversas e entre os quais também existem famílias e comunidades que resistem a essas práticas e protegem suas crianças. (Globoplay)

Em épocas e culturas diferentes, o mecanismo se repete: primeiro se reduz a humanidade de alguém; depois, torna-se mais fácil justificar a violência contra essa pessoa.

É exatamente esse caminho que as Escrituras nos proíbem de seguir.

Nenhuma deficiência apaga a imagem de Deus. Nenhuma limitação transforma uma pessoa em alguém menos humano.

A proteção na lei de Deus

O que encontramos nas Escrituras sobre essa questão?

Não é possível aprofundar todos os aspectos do tema numa única reflexão, mas alguns textos apontam uma direção muito clara.

“Não amaldiçoem o surdo nem ponham pedra de tropeço à frente do cego, mas temam o seu Deus. Eu sou o Senhor.” Lv 19.14 — NVI

“‘Maldito quem fizer o cego errar o caminho.’ Todo o povo dirá: ‘Amém!’” Dt 27.18 — NVI

O direito à vida foi estabelecido nos Dez Mandamentos pela ordem “não matarás”. Jesus aprofundou esse mandamento ao ensinar que a violência não começa apenas quando a vida física é retirada. O desprezo, o ódio, a humilhação e a hostilidade também ferem e destroem o próximo.

As pessoas com deficiência estão incluídas nesse amplo direito à vida apresentado nos mandamentos e explicado por Jesus.

Nos textos de Levítico e Deuteronômio, porém, há algo ainda mais específico. O direito de viver já está pressuposto. A questão é a maneira como essas pessoas devem ser tratadas.

Não amaldiçoem.

Não ponham pedras de tropeço.

Não façam o cego errar o caminho.

Em outras palavras: não explorem suas limitações, não aumentem suas dificuldades e não transformem sua vulnerabilidade em oportunidade para crueldade.

Esses mandamentos também nos ensinam algo sobre acessibilidade. Uma sociedade ou uma igreja que cria barreiras desnecessárias faz justamente o contrário daquilo que Deus ordena. Em vez de facilitar a participação, coloca pedras no caminho.

O texto de Levítico apresenta uma advertência importante:

“Temam o seu Deus. Eu sou o Senhor.”

Em vez de tornar a vida das pessoas com deficiência ainda mais difícil, devemos temer a Deus.

A pessoa com deficiência pertence ao Senhor e carrega sua imagem. Quem a humilha afronta o seu Criador. Quem se aproveita de suas limitações age como se Deus não estivesse vendo.

Deus é o Senhor de tudo e de todos. Por isso, ele mesmo se levanta em defesa daqueles que se encontram indefesos e ameaçados.

As Escrituras não deixam dúvidas de que o Senhor está ao lado dos fracos, dos oprimidos, dos esquecidos e dos desprezados. O melhor que podemos fazer é nos juntar a ele.

A esperança anunciada pelo profeta

Digam aos desalentados de coração: “Sejam fortes, não tenham medo. Eis aí está o Deus de vocês. A vingança vem, a retribuição de Deus; ele vem para salvar vocês.”
Então se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; os coxos saltarão como as corças, e a língua dos mudos cantará. Pois águas arrebentarão no deserto, e ribeiros, no ermo. Is 35.4–6 — NAA

Esse é um texto messiânico. Isaías anuncia a salvação que virá do Senhor.

Ele fala aos desalentados, àqueles que se cansaram de esperar por justiça, cuidado, respeito e restauração. O Senhor lhes diz:

“Sejam fortes. Não tenham medo. Deus vem para salvar vocês.”

O profeta descreve o Reino de Deus como uma realidade na qual a dor, a exclusão e tudo aquilo que oprime a vida não terão a palavra final.

Cegos, surdos, coxos e pessoas que não falam aparecem como representantes de uma humanidade ferida que aguarda a intervenção restauradora de Deus.

Isaías anuncia que a realidade presente será transformada. Quando o Messias estiver reinando plenamente, os cegos verão, os surdos ouvirão, os coxos saltarão e aqueles cuja fala estava impedida cantarão.

Que cena maravilhosa o profeta nos ajuda a contemplar!

Essa esperança, porém, não nos autoriza a tratar uma pessoa com deficiência como inferior no presente. Também não nos permite reduzi-la a um corpo que precisa ser consertado.

Pelo contrário: justamente porque esperamos a restauração plena de Deus, somos chamados agora a reconhecer a dignidade inteira de cada pessoa, combater a exclusão e remover as barreiras que dificultam sua participação.

Pessoas com deficiência no ministério de Jesus

Jesus respondeu: “Voltem e anunciem a João o que vocês estão ouvindo e vendo: os cegos veem, os mancos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as boas-novas são pregadas aos pobres.” Mt 11.4–5 — NVI

Quando Jesus, o Messias anunciado por Isaías, exerceu seu ministério entre nós, tornou visível uma amostra da restauração prometida.

João Batista quis saber se Jesus era aquele que deveria vir. Em resposta, Jesus apontou para o que estava acontecendo diante dos olhos de todos: pessoas eram vistas, acolhidas, curadas e reintegradas.

A esperança anunciada pelos profetas já havia começado a se realizar.

Os evangelhos registram muitos desses encontros: Bartimeu; o paralítico de Cafarnaum; o homem com a mão atrofiada; o paralítico de Betesda; o menino que não ouvia nem falava; os cegos que clamaram por misericórdia.

Jesus não tratou essas pessoas como interrupções em sua agenda. Não as transformou em espetáculo nem em objetos usados para demonstrar sua espiritualidade.

Ele as viu e ouviu.

Ele se aproximou delas e as tratou como pessoas.

Suas curas eram sinais da chegada do Reino de Deus. Apontavam para o dia em que o sofrimento, a exclusão, a doença e a morte não mais dominarão a criação.

Cada pessoa acolhida e restaurada era como uma seta apontando para o tempo em que Deus fará novas todas as coisas.

Os primeiros passos da igreja

Em Listra havia um homem paralítico dos pés, aleijado desde o nascimento, que vivia ali sentado e nunca tinha andado. Ele ouvira Paulo falar. Quando Paulo olhou diretamente para ele e viu que o homem tinha fé para ser curado, disse em alta voz: “Levante-se! Fique em pé!” Com isso, o homem deu um salto e começou a andar. At 14.8–10 — NVI

Nos primeiros passos da igreja, os sinais do Reino continuaram apontando para a restauração realizada por Deus.

Assim como acontecia no ministério de Jesus, cada corpo curado e cada vida restaurada eram sinais do futuro de Deus — o tempo em que seremos seres humanos completos, inteiros e plenamente livres de tudo aquilo que oprime a criação.

A missão da igreja, entretanto, não pode ser reduzida à expectativa de curas.

Enquanto aguardamos a restauração plena, somos chamados a acolher, ouvir, remover obstáculos e abrir espaço para a participação das pessoas com deficiência.

Elas não são apenas destinatárias de nossa compaixão. São irmãs e irmãos, membros do corpo de Cristo, portadores de dons, experiências, vocações e responsabilidades.

Uma igreja pode falar muito sobre amor e, ao mesmo tempo, manter portas, linguagens, estruturas e atitudes que impedem a participação de algumas pessoas.

Por isso, não basta perguntar se permitimos que pessoas com deficiência entrem. Precisamos perguntar se estamos construindo uma comunidade na qual elas possam pertencer, servir, ensinar, decidir e ser ouvidas.

O que nos cabe hoje?

Nós, que cremos em Jesus, fomos chamados a nos juntar a Deus na defesa e no reconhecimento da dignidade das pessoas com deficiência.

O que nos cabe fazer?

Há muitas respostas possíveis, mas podemos começar com três atitudes.

1. Confessar nossa indiferença

Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça. Se afirmarmos que não temos cometido pecado, fazemos de Deus um mentiroso, e a sua palavra não está em nós. 1 João 1.8–10 — NVI

A primeira coisa que precisamos fazer é confessar.

Precisamos reconhecer que nem sempre nos importamos tanto quanto deveríamos com as barreiras, humilhações e sofrimentos enfrentados pelas pessoas com deficiência.

Talvez nunca tenhamos cometido uma agressão deliberada. Mesmo assim, podemos ter permanecido indiferentes.

Podemos ter rido de alguma limitação, usado palavras ofensivas, ocupado indevidamente um espaço reservado e até ignorado as dificuldades que nossas estruturas, atitudes e decisões impõem.

Não adianta apresentar explicações para provar que não somos pessoas tão ruins. Como João nos ensina, quando nos justificamos o tempo todo, perdemos a oportunidade de reconhecer o pecado, receber o perdão de Deus e refazer esse capítulo de nossa história.

Precisamos nos aproximar do Senhor e confessar nossa indiferença, nosso preconceito e nossa falta de atenção, sempre que isso for verdade.

A confissão não é o fim do caminho. É o começo de uma vida transformada pela graça.

2. Mudar os óculos

Não sejam mais moldados por este mundo mas, pela nova maneira de vocês pensarem, vivam uma vida diferente. Então vão descobrir a vontade de Deus para vocês, isto é, o que é bom, agradável a ele e perfeito. Rm 12.2 — VFL

Além de confessar, precisamos mudar a maneira como enxergamos o mundo e as pessoas ao nosso redor.

Precisamos permitir que nossa mente seja transformada pela exposição à Palavra de Deus.

Na primeira mensagem e nesta reflexão, recebemos duas lentes novas para nossos óculos:

  1. A existência humana não é um acidente, mas resultado da ação intencional de Deus. Isso confere dignidade a todos.

  2. Todos fomos criados à imagem e semelhança de Deus. A assinatura do Criador está em cada ser humano.

Troque as lentes.

Deixe de lado as lentes do preconceito e do descaso.

Abandone as lentes da arrogância e da autossuficiência.

Jogue fora as lentes da falsa superioridade e da sabedoria própria.

Permita que essas verdades encharquem sua mente até moldarem seu jeito de viver.

Uma pessoa não vale menos porque precisa de ajuda para realizar determinada atividade. Também não vale mais porque consegue viver com maior autonomia.

Nossa dignidade não é medida pelo desempenho, pela produtividade, pela aparência ou pela correspondência a determinado padrão corporal.

Somos dignos porque fomos criados por Deus e carregamos sua imagem.

3. Fazer algo concreto

Meus filhinhos, o nosso amor não deve ser somente de palavras e de conversa. Deve ser um amor verdadeiro, que se mostra por meio de ações. 1 Jo 3.18 — NTLH

Por fim, precisamos fazer algo concreto.

Este mundo está cheio de palavras de amor e carente de ações que expressem esse amor.

Olhe para sua atividade profissional. O que você pode fazer para tornar menos difícil a vida das pessoas com deficiência?

Olhe para sua família e para seus amigos. Você contribui para formar atitudes de respeito, acolhimento e apoio?

Seus filhos estão sendo ensinados a respeitar, ajudar e defender pessoas com deficiência?

Há pessoas com deficiência em seus círculos reais de amizade e convivência ou elas aparecem apenas como objetos distantes de nossa compaixão?

No trânsito, você respeita as vagas reservadas? Uma vaga exclusiva não pode ser ocupada “só por um minutinho”.

Nos centros comerciais, você respeita as mesas, os banheiros e os espaços destinados a pessoas com deficiência?

Na internet e nas conversas cotidianas, você evita palavras e piadas que usam deficiências como insultos?

Olhe também para si mesmo. Você possui alguma deficiência ou limitação que procura esconder por medo da rejeição? Por que temos tanta dificuldade de falar sobre nossas próprias fragilidades?

E em nossos encontros como igreja?

O que temos feito para facilitar o acesso das pessoas com deficiência ao evangelho, à comunhão e ao serviço cristão?

Nossos espaços físicos são acessíveis? A comunicação pode ser compreendida por pessoas com diferentes necessidades? Nossas atividades incluem ou afastam?

Estamos dispostos a ouvir as próprias pessoas com deficiência antes de decidir do que elas precisam?

Não basta desejar que elas venham. Precisamos remover as pedras do caminho.

O amor verdadeiro não se limita a declarações. Ele se torna visível em atitudes, estruturas, escolhas e relacionamentos.

Inteiros diante de Deus

Quero concluir recordando a resposta de Deus a Moisés.

Quando foi chamado para voltar ao Egito e conduzir o povo à liberdade, Moisés argumentou que não era a pessoa adequada. Parecia dizer que Deus havia escolhido o irmão errado. Arão falava com desenvoltura; Moisés tinha dificuldade para se expressar.

Então o Senhor respondeu:

E o Senhor lhe disse: “Quem fez a boca do homem? Quem fez o mudo, o surdo, o que vê ou o cego? Não fiz eu, o Senhor?” Ex 4.11 — BKJ 1611

Esse texto não responde a todas as nossas perguntas sobre a origem das deficiências. Ele afirma, porém, que nenhuma limitação coloca alguém fora da soberania, da atenção ou do chamado de Deus.

Moisés tentou usar sua dificuldade como prova de que não poderia ser chamado. Deus não negou a dificuldade de Moisés, mas também não permitiu que ela se transformasse na medida de sua dignidade.

O Criador não mede nossa dignidade pelo corpo que temos, pela maneira como pensamos, pela velocidade com que aprendemos, pela clareza de nossa fala ou pelo grau de autonomia que alcançamos.

Pessoas com deficiência não são seres humanos pela metade.

Não existem apenas para despertar compaixão nem para ensinar lições às outras pessoas.

São pessoas criadas por Deus, portadoras de sua imagem, com dons, voz, vocação e lugar em sua comunidade.

Por isso, Deus nos convida a nos juntarmos a ele na restauração deste mundo: reconhecendo, preservando e defendendo a dignidade das pessoas com deficiência.

Não importa se somos tortos, se nos falta um pedaço, se somos lentos, se não enxergamos, se não ouvimos, se nossa fala encontra obstáculos ou se precisamos de ajuda para realizar aquilo que outros fazem sozinhos.

Diante de Deus, não somos pessoas pela metade.

Somos inteiros.

Seres humanos criados por ele, à sua imagem e semelhança.

Essa é a marca de nossa humanidade.


Segunda mensagem da série “Ser humano”, pregada em 29 de janeiro de 2023 e revisada para publicação no blog.

22 janeiro 2023

Ser humano: criados à imagem de Deus




Numa manhã de janeiro, ouvi Dani contar que ela e o irmão Eraldo haviam retirado a decoração de fim de ano. Pensei: “Pronto! Agora o ano começou!”

Na verdade, o ano já havia começado há mais de três semanas. O primeiro mês avançava rapidamente. O tempo segue numa carreira desembestada. Talvez seja por isso que, a cada 365 dias, zeramos a contagem e começamos um novo ano, como quem abre uma página cheia de possibilidades.

A passagem de um ano para outro é celebrada em muitas culturas. No Brasil, a Lei nº 108, de 1935, consagrou o dia 1º de janeiro à comemoração da Fraternidade Universal. Anos depois, o papa Paulo VI propôs que o primeiro dia do ano também fosse celebrado como Dia Mundial da Paz, cuja primeira observância ocorreu em 1º de janeiro de 1968.

De certa forma, começamos o ano lembrando que somos todos humanos. Temos culturas diferentes, falamos línguas distintas, professamos crenças diversas e vivemos realidades muito desiguais. Ainda assim, há algo que nos antecede e nos aproxima: compartilhamos a mesma condição humana. É a partir dessa consciência que a reflexão se volta para uma pergunta essencial.

Mas o que significa ser humano? O que nos une uns aos outros? O que as Escrituras revelam sobre a nossa condição?

Esta reflexão inicia uma série de quatro mensagens sobre a condição humana que compartilhamos. Pode parecer um assunto apenas teórico, mas não é. Aquilo que cremos sobre o ser humano interfere diretamente na maneira como enxergamos a nós mesmos, tratamos as outras pessoas e encaramos a vida diante de Deus e do próximo.

Somos criaturas

Uma das primeiras afirmações da Bíblia a nosso respeito é que fomos criados. Somos criaturas.

Então disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os grandes animais de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão”. Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Gênesis 1.26–27 — NVI

Criação e dignidade

O texto afirma que homens e mulheres existem por uma decisão livre e intencional de Deus. Nossa existência não é apresentada como acidente, descuido ou sobra do universo, mas como resultado da ação deliberada do Criador.

Imagine-se sentado confortavelmente numa bela praia de sua propriedade, plenamente satisfeito, sem que nada lhe falte. O que o faria sair dessa condição?

Talvez a resposta fosse:

— Nada, pastor!

Deus, porém, não criou porque lhe faltava alguma coisa. Ele não precisava do universo nem da humanidade para se completar. Criou livremente, segundo sua vontade e seu propósito. Trouxe à existência o universo, a vida e, entre todas as criaturas, homens e mulheres.

Ainda não respondemos a todas as perguntas sobre o propósito da criação, mas já sabemos algo essencial: a vida humana é intencional. Fomos desejados pelo Criador, e isso confere dignidade à nossa existência.

Meu sogro tem uma caixa na qual guarda todo tipo de objeto que encontra pelo caminho: um pedaço de metal, um parafuso diferente, uma pequena peça com algum encaixe. Minha sogra costuma dizer que aquilo é apenas uma caixa de tranqueiras, mas ele continua guardando tudo. Mais de uma vez, eu o vi recorrer àquela caixa e encontrar exatamente a peça de que precisava.

Aquelas peças não foram produzidas por acaso. Cada uma foi fabricada com alguma finalidade, mesmo quando já não sabemos qual era. De modo semelhante, ainda que a vida nos tenha lançado ao chão, ainda que nos sintamos desprezados, esquecidos ou deixados de lado, nossa existência não perde seu sentido: fomos criados por Deus.

Isso não significa que compreenderemos imediatamente tudo o que acontece conosco, nem que encontraremos uma explicação simples para cada sofrimento. Significa, porém, que nossa dignidade não depende da utilidade que os outros enxergam em nós, do lugar que ocupamos ou do quanto conseguimos produzir.

Há uma razão para a sua vida. Por isso, você não deve renunciar à dignidade que recebeu do Criador.

Essa verdade também muda a maneira como tratamos as outras pessoas. Elas igualmente foram criadas por Deus. Quando encontramos alguém caído à beira da estrada, convencido de que não tem valor, somos chamados a nos aproximar e recordar:

Sua vida tem significado. Você é importante. Sua existência não é um acaso.

Como diz uma antiga canção:

Deus tem um plano em cada criatura;

aos astros, ele dá um céu;

a cada rio, ele dá um leito;

e um caminho para mim traçou.

— Richard D. Baker

Assim, a dignidade que nasce da criação intencional de Deus é comum a toda a humanidade. Ser humano é reconhecer a si mesmo e aos outros como criaturas desejadas por Deus, cuja existência não depende da utilidade que alguém lhes atribui.

Essa primeira afirmação prepara a segunda: não apenas fomos criados por Deus, mas fomos criados de modo singular. A dignidade humana nasce da criação e se aprofunda quando Gênesis afirma que carregamos a imagem do Criador.

Imagem e dignidade

Gênesis acrescenta uma afirmação ainda mais profunda: homens e mulheres foram criados à imagem e semelhança de Deus.

Isso não significa que sejamos divinos. Continuamos sendo criaturas, dependentes daquele que nos deu a vida. Significa, porém, que fomos criados para representar Deus no mundo e refletir algo de seu caráter, de sua vontade e de seu governo. Entre todas as criaturas, o ser humano recebe essa vocação singular.

Pense numa obra de arte esquecida por muitos anos. Ela pode estar encostada numa parede, coberta de poeira e tratada como algo sem valor. Quando, porém, a assinatura do artista é reconhecida, todos passam a olhar para a mesma obra de outra maneira. A assinatura revela sua origem.

A imagem de Deus é como a assinatura do Criador gravada em nossa humanidade.

Por isso, não importa se alguém foi esquecido, desprezado ou deixado de lado. Não importa há quanto tempo está “encostado numa parede” da vida. Todo ser humano carrega a marca de seu Criador e, por isso, deve ser tratado com respeito, cordialidade e consideração.

Nossa existência não é um acidente. Fomos criados intencionalmente por Deus.

A assinatura do Criador está em nós. Isso é parte inseparável de nossa humanidade.

Quando a dignidade é negada

Se todos os seres humanos foram criados por Deus e carregam sua imagem, ninguém pode ser tratado como menos humano. No entanto, ao longo da história, a dignidade e os direitos de muitos grupos foram negados.

Esse processo é chamado de desumanização. Ele acontece quando alguém deixa de ser visto como pessoa e passa a ser tratado como objeto, ameaça, estorvo, mercadoria ou vida descartável.

Pessoas com deficiência já foram tratadas como se não possuíssem plena humanidade. Povos negros e indígenas foram escravizados, explorados e descritos como inferiores. Crianças ainda no ventre são, por vezes, reduzidas a um problema a ser eliminado. Criminosos podem ser tratados como se tivessem perdido todo direito à dignidade. Idosos são abandonados como se já não fossem gente. Pessoas pobres são tratadas como seres humanos de segunda categoria.

Para cada forma de desumanização, são criadas explicações, teorias e justificativas. Mas nenhuma delas pode apagar o que Deus declarou na criação.

Embora o pecado desfigure nossa humanidade e corrompa nossos relacionamentos, a imagem de Deus continua sendo o fundamento da dignidade humana. Essa dignidade não deve ser concedida apenas a quem julgamos merecedor. Ela deve ser reconhecida, protegida e jamais violada.

Não há justificativa para tratarmos uns aos outros como menos humanos.

Pessoas com deficiência: dignidade, cuidado e participação

Em diferentes épocas, pessoas com deficiência foram submetidas ao abandono, à ridicularização, à exclusão e até à morte. É preciso, contudo, evitar generalizações históricas simplistas: pesquisas mais recentes mostram que as atitudes das sociedades antigas eram mais variadas do que muitas narrativas populares sugerem. Ainda assim, há registros reais de práticas cruéis e de discursos que negavam a plena humanidade dessas pessoas.

Até mesmo Martinho Lutero, em um de seus graves pontos cegos, reproduziu crenças desumanizantes de seu tempo ao falar sobre uma criança que ele considerava um changeling — uma suposta criatura demoníaca colocada no lugar de uma criança — e sugerir que fosse afogada. O episódio nos lembra que nenhuma tradição, instituição ou liderança está dispensada de examinar criticamente suas próprias atitudes.

O que encontramos nas Escrituras sobre essa questão? Não é possível aprofundar todos os aspectos do tema em uma única reflexão, mas alguns textos apontam uma direção clara.

A partir daqui, a reflexão seguirá um percurso simples: primeiro, a proteção que aparece na lei de Deus; depois, a esperança anunciada pelos profetas; em seguida, o ministério de Jesus; por fim, os passos da igreja. Esse caminho mostra que a dignidade das pessoas com deficiência não é um detalhe periférico, mas atravessa o testemunho bíblico.

A proteção na lei de Deus

“Não amaldiçoem o surdo nem ponham pedra de tropeço à frente do cego, mas temam o seu Deus. Eu sou o Senhor.” Levítico 19.14 — NVI

“‘Maldito quem fizer o cego errar o caminho.’ Todo o povo dirá: ‘Amém!’” Deuteronômio 27.18 — NVI

O mandamento “não matarás” protege a vida humana. Jesus aprofundou esse mandamento ao mostrar que a violência contra o próximo começa antes do ato de tirar-lhe a vida: ela também se manifesta no desprezo, no ódio e na humilhação.

Nos textos do Levítico e do Deuteronômio, pessoas com deficiência são mencionadas especificamente. Não basta reconhecer seu direito de existir. O povo de Deus é proibido de explorar suas limitações, dificultar sua caminhada ou transformar sua vulnerabilidade em ocasião para crueldade.

“Não amaldiçoem.”

“Não ponham pedra de tropeço.”

“Não façam errar o caminho.”

Em linguagem contemporânea, poderíamos dizer: não criem barreiras; não explorem limitações; não transformem a vulnerabilidade de alguém em ocasião para abuso; não façam da vida de uma pessoa uma caminhada ainda mais difícil.

Levítico acrescenta uma razão decisiva:

“Temam o seu Deus. Eu sou o Senhor.”

A pessoa com deficiência pertence a Deus e carrega sua imagem. Quem a humilha afronta o seu Criador. Quem cria obstáculos deliberados diante dela age como se Deus não estivesse vendo. Por isso, em vez de tornar sua vida mais difícil, o povo é chamado a temer o Senhor.

Deus se apresenta nas Escrituras como defensor dos fracos, dos oprimidos, dos esquecidos e dos desprezados. O melhor que podemos fazer é nos juntar a ele.

A esperança anunciada pelos profetas

Digam aos desalentados de coração: “Sejam fortes, não tenham medo. Eis aí está o Deus de vocês. A vingança vem, a retribuição de Deus; ele vem para salvar vocês.” Isaías 35.4–6 — NAA

Então se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; os coxos saltarão como as corças, e a língua dos mudos cantará. Pois águas arrebentarão no deserto, e ribeiros, no ermo.

Isaías anuncia a salvação que virá do Senhor. Sua palavra é dirigida aos desalentados, àqueles que já se cansaram de esperar por justiça, acolhimento e restauração.

O profeta descreve o Reino de Deus como uma realidade na qual o sofrimento, a exclusão e tudo aquilo que limita a vida não terão a palavra final. Cegos, surdos, coxos e mudos aparecem como representantes de uma humanidade que espera pela ação restauradora de Deus.

Essa esperança, porém, nunca deve ser usada para tratar o corpo de uma pessoa com deficiência como inferior no presente. Pelo contrário: justamente porque esperamos a restauração plena de Deus, somos chamados desde agora a combater toda forma de exclusão, remover barreiras concretas e reconhecer a dignidade inteira de cada pessoa.

O ministério de Jesus

Jesus respondeu: “Voltem e anunciem a João o que vocês estão ouvindo e vendo: os cegos veem, os mancos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as boas-novas são pregadas aos pobres.” Mateus 11.4–5 — NVI

Quando Jesus exerceu seu ministério entre nós, tornou visível uma amostra da restauração prometida por Isaías. João Batista quis saber se Jesus era aquele que deveria vir. Em resposta, Jesus apontou para o que estava acontecendo diante dos olhos de todos: pessoas eram vistas, acolhidas, curadas e reintegradas.

Os evangelhos registram muitos desses encontros: Bartimeu; o paralítico de Cafarnaum; o homem com a mão atrofiada; o paralítico de Betesda; o menino que não ouvia nem falava; os cegos que clamaram por misericórdia.

Jesus não tratou essas pessoas como interrupções em sua agenda nem como objetos de curiosidade. Ele as viu, ouviu e recebeu. Suas curas eram sinais de que o Reino de Deus havia se aproximado e apontavam para a restauração plena da humanidade.

Os passos da igreja

Em Listra havia um homem paralítico dos pés, aleijado desde o nascimento, que vivia ali sentado e nunca tinha andado. Ele ouvira Paulo falar. Quando Paulo olhou diretamente para ele e viu que o homem tinha fé para ser curado, disse em alta voz: “Levante-se! Fique em pé!” Com isso, o homem deu um salto e começou a andar. Atos 14.8–10 — NVI

Nos primeiros passos da igreja, os sinais do Reino continuaram apontando para a restauração realizada por Deus. Cada corpo curado e cada vida reintegrada funcionavam como uma seta voltada para o futuro de Deus.

A missão da igreja, no entanto, não se resume à expectativa de milagres. Enquanto aguardamos a restauração plena, somos chamados a remover barreiras, promover acessibilidade, ouvir as pessoas com deficiência e garantir que participem da vida comunitária com seus dons, sua voz e sua autonomia. Não se trata apenas de compaixão, mas de reconhecimento: elas são irmãs e irmãos, participantes plenos do corpo de Cristo.

Pessoas pobres: a dignidade que não pode ser comprada

A dignidade humana também é violada quando a pobreza se torna motivo de desprezo. Embora tenha causas diversas e produza limitações concretas, nenhuma condição econômica justifica diminuir o valor de alguém. A dignidade não aumenta com o saldo bancário nem desaparece quando faltam recursos.

A pessoa pobre não pode ser menosprezada porque tem pouco. Ainda assim, isso acontece com frequência, especialmente em ambientes nos quais o valor das pessoas é medido por sua capacidade de consumir.

Quem segue Jesus toma o caminho inverso: considera, respeita e honra a pessoa pobre — inclusive quando o próprio cristão também vive em pobreza.

Quem dispõe de poucos recursos não pode ser humilhado por essa condição. No entanto, pessoas pobres muitas vezes são impedidas de conviver nos mesmos espaços, entrar pelas mesmas portas, partilhar a mesma mesa ou alimentar os mesmos sonhos. Aos poucos, sua humanidade lhes é negada. Quem segue Jesus toma o caminho inverso: reconhece, respeita e honra aqueles que vivem com pouco.

Quem enfrenta necessidades não pode ser abandonado. Mesmo assim, é comum que o sofrimento dos pobres seja justificado por discursos que os classificam, indistintamente, como preguiçosos, irresponsáveis ou culpados por toda a própria situação. Algumas pessoas chegam a usar textos bíblicos para legitimar a indiferença.

Quem segue Jesus toma o caminho inverso: acolhe, reparte e socorre conforme suas possibilidades.

Quem passa necessidade não pode ser transformado em motivo de pilhéria. Mas as lutas, limitações e dificuldades dos pobres são frequentemente banalizadas e convertidas em piada.

Quem segue Jesus toma o caminho inverso: recusa o escárnio e reconhece a dignidade que Deus concedeu a cada pessoa.

A proteção dos pobres no Antigo Testamento

Várias leis do Antigo Testamento tinham o propósito de impedir que a pobreza se transformasse numa sentença permanente de exclusão.

“No final de cada sete anos, as dívidas deverão ser canceladas. Isso deverá ser feito da seguinte forma: todo credor cancelará o empréstimo que fez ao seu próximo. Nenhum israelita exigirá pagamento de seu próximo ou de seu parente, porque foi proclamado o tempo do Senhor para o cancelamento das dívidas. Vocês poderão exigir pagamento do estrangeiro, mas terão que cancelar qualquer dívida de seus irmãos israelitas. Assim, não deverá haver pobre algum no meio de vocês, pois na terra que o Senhor, o seu Deus, lhes está dando como herança para que dela tomem posse, ele os abençoará ricamente, contanto que obedeçam em tudo ao Senhor, o seu Deus, e ponham em prática toda esta lei que hoje lhes estou dando.” Deuteronômio 15.1–5 — NVI

A lei impedia que dívidas se acumulassem indefinidamente e destruíssem famílias por sucessivas gerações. O alvo declarado era que a pobreza não se tornasse uma estrutura permanente no meio do povo.

A legislação bíblica não romantiza a necessidade. Ela chama a comunidade a organizar a vida de modo que os vulneráveis sejam protegidos e tenham a possibilidade de recomeçar.

Os pobres no ministério de Jesus

Jesus deu atenção especial aos pobres. Alimentou os famintos, curou os enfermos, denunciou exploradores e anunciou as boas-novas do Reino àqueles que costumavam ser ignorados.

Quando respondeu a João Batista, Jesus incluiu entre os sinais de seu ministério esta declaração:

“As boas-novas são pregadas aos pobres.”

Isso não era um detalhe. O evangelho alcançava pessoas que a sociedade havia colocado à margem e lhes anunciava que o Reino de Deus também lhes pertencia.

Os passos da igreja

A igreja seguiu os passos de Jesus. Em uma reunião que envolveu Tiago, Pedro, João, Paulo e Barnabé, a lembrança dos pobres apareceu como compromisso indispensável da missão cristã.

“Reconhecendo a graça que me fora concedida, Tiago, Pedro e João, tidos como colunas, estenderam a mão direita a mim e a Barnabé em sinal de comunhão. Eles concordaram em que devíamos nos dirigir aos gentios, e eles, aos circuncisos. Somente pediram que nos lembrássemos dos pobres, o que me esforcei por fazer.” Gálatas 2.9–10 — NVI

A comunhão entre os apóstolos não foi expressa apenas por concordância doutrinária ou divisão de campos missionários. Ela também incluiu uma responsabilidade concreta: lembrar-se dos pobres.

Uma igreja que se esquece dos pobres pode preservar muitas atividades religiosas, mas se afasta dos passos de Jesus. Lembrar-se deles não é um acréscimo opcional à missão cristã; é uma expressão concreta do evangelho que anuncia a dignidade de toda pessoa diante de Deus.

Criados humanos

O que significa ser humano?

Segundo as Escrituras, ser humano significa, antes de tudo, reconhecer que somos criaturas. Não temos vida em nós mesmos. Tudo o que temos e somos recebemos daquele que nos criou. Deus é a fonte da vida; nós dependemos dele.

Também significa abraçar a convicção de que nossa existência é intencional e de que nossa dignidade está fundamentada na imagem e semelhança de Deus. Essa dignidade não pode ser medida pela saúde, pela capacidade física, pela origem étnica, pela idade, pela história pessoal, pela condição moral ou pela situação econômica.

No mundo caído, continuaremos encontrando tentativas de dividir a humanidade entre vidas valiosas e vidas descartáveis, pessoas dignas e indignas, gente que merece ser vista e gente que pode ser abandonada.

As Escrituras, porém, nos colocam diante de um Deus que vê, protege, acolhe e restaura. Ele chama seu povo a participar dessa obra.

Podemos perceber isso nas leis dadas a Israel, no anúncio dos profetas, no ministério de Jesus e nos primeiros passos da igreja. Em todos esses testemunhos, somos alcançados pelo amor de Deus e convocados a reconhecer, proteger e honrar a dignidade do próximo.

Deus nos criou à sua imagem e semelhança. Não somos deuses; somos humanos — criaturas dependentes, limitadas e, ao mesmo tempo, revestidas de uma dignidade que vem do Criador.

Por isso, ser humano também é reconhecer a humanidade do outro.

Onde alguém estiver sendo tratado como menos humano, o povo de Deus deve aproximar-se, remover as pedras do caminho e afirmar, com palavras e atitudes:

Sua vida tem significado. Você carrega a imagem do Criador. Sua dignidade não pode ser apagada.