12 fevereiro 2023

Ser humano: a dignidade da pessoa idosa

 


Estamos percorrendo a série de mensagens Ser humano e refletindo sobre nossa humanidade à luz das Escrituras.

Vimos que essa humanidade é uma condição comum a todos nós. Mas que condição é essa? O que realmente nos faz humanos e nos liga uns aos outros?

Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Gn 1.27 — NVI

A partir da narrativa da criação, no primeiro capítulo de Gênesis, vimos que somos criaturas. Reconhecer essa condição é reconhecer um aspecto importante de nossa humanidade.

Também destacamos duas ideias fundamentais para nossa conversa:

  1. Nossa existência não é um acidente, mas resultado da ação criadora e intencional de Deus.
  2. A assinatura de Deus está em nós, isto é, fomos criados à sua imagem.

Portanto, esses são dois aspectos fundamentais para compreendermos o que significa ser humano e a dignidade que essa condição confere a todas as pessoas, em todos os lugares e épocas.

A dignidade que precisa ser resgatada

De diversas maneiras, sociedades e grupos têm negado a plena humanidade de determinadas pessoas. Esse processo de desumanização considera o outro inferior e menos digno de respeito. No decorrer da história, isso levou sociedades inteiras a tratar diferentes grupos como subumanos.

Vimos que a dignidade humana precisa ser resgatada. Isso começa com o reconhecimento de uma verdade simples e poderosa: todas as pessoas foram criadas intencionalmente por Deus, à sua imagem e semelhança.

Embora o pecado tenha turvado essa imagem em nós, ela permanece como fundamento da dignidade que recebemos por causa de nossa condição humana. Essa dignidade não pode ser suprimida nem rebaixada.

Recordando a dignidade das pessoas em situação de pobreza

Na mensagem anterior, vimos que as Escrituras nos apresentam um Deus que age para resgatar e preservar a dignidade de sua criação, começando pelos mais vulneráveis. As pessoas que não conseguem prover o mínimo necessário para sua sobrevivência fazem parte desse grupo.

Observamos algumas leis do Antigo Testamento, olhamos para o ministério de Jesus e acompanhamos os passos da igreja, procurando identificar os movimentos produzidos pelo amor ativo de Deus pelas pessoas pobres.

Encontramos leis que determinavam o perdão das dívidas. Vimos Jesus agindo com completa empatia em favor dos necessitados. Também ouvimos o eco desse cuidado nos primeiros dias da igreja, produzindo interesse e ação para que as pessoas que se rendiam a Jesus fossem assistidas em suas necessidades.

Recordamos ainda algumas experiências que vivemos como igreja no desafio de suprir as necessidades uns dos outros:

  • ajudamos irmãos que perderam renda durante a pandemia;
  • socorremos pessoas que enfrentaram crises financeiras repentinas;
  • apoiamos irmãos que precisavam de formação acadêmica para se recolocar no mercado de trabalho;
  • temos ajudado pessoas que, em alguns momentos, precisam de auxílio para o pão de cada dia;
  • socorremos uma irmã que precisava de uma cama especial;
  • ajudamos na reconstrução de uma casa destruída pelo fogo.

Fizemos isso coletivamente, e muitas outras coisas também foram realizadas individualmente.

Compreendemos que o amor de Deus nos convida a trabalhar com ele no resgate da dignidade das pessoas pobres. Somos chamados a reconhecer em cada uma delas a imago Dei, a imagem de Deus, e a vê-las como alvo do amor demonstrado na cruz do Calvário, por meio da morte de Cristo.

Pessoas idosas

Hoje, quero falar sobre outro grupo cuja dignidade humana tem sido sistematicamente ameaçada: as pessoas idosas.

Nesta reflexão, valho-me, entre outras fontes, de ideias apresentadas pelo teólogo alemão Erhard S. Gerstenberger numa palestra dirigida a responsáveis por instituições de atendimento a pessoas idosas, realizada em Gramado, no Rio Grande do Sul, em 1978.

De acordo com a legislação brasileira, uma pessoa é considerada idosa quando completa 60 anos.

Quando esta mensagem foi pregada, estimava-se que a Paraíba tivesse mais de 500 mil pessoas idosas, das quais cerca de 80 mil tinham mais de 80 anos.

No Brasil, durante a década anterior, a parcela de pessoas com 60 anos ou mais havia passado de 11,3% para 14,7% da população. Em números absolutos, esse grupo cresceu de 22,3 milhões para 31,2 milhões de pessoas.

Confirmava-se, assim, a previsão de muitos estudiosos: a população brasileira estava envelhecendo. E não era diferente no contexto de nossas igrejas.

Diversos fatores contribuíram para esse crescimento, entre eles a redução das taxas de fecundidade, o maior acesso a medicamentos e assistência médica, os avanços da medicina, a melhoria da nutrição e a maior compreensão dos problemas que afetam a pessoa idosa.

Por isso, essa realidade tem levado muita gente a pensar e repensar a maneira como tratamos quem envelhece.

Na Paraíba e em todo o Brasil, famílias, igrejas, organizações e governos criaram muitas instituições para amparar pessoas idosas nos últimos anos de suas vidas. Esse movimento procura diminuir situações de abandono e, por isso, deve ser valorizado.

Contudo, nem sempre essas iniciativas conseguem, por si mesmas, resgatar a dignidade esquecida daqueles que já não parecem relevantes para a sociedade.

Uma pergunta necessária

O que temos a ver com isso?

Há algo a ser dito por aqueles que seguem Jesus sobre a condição de vida das pessoas idosas e sobre a perda da dignidade daqueles que um dia foram ativos e considerados relevantes, mas que hoje, muitas vezes, são desconsiderados?

Para responder a essa pergunta, começaremos pensando na condição da pessoa idosa no mundo bíblico.

As pessoas daquela época eram sensíveis às necessidades de quem envelhecia? O que os textos do Antigo e do Novo Testamento dizem sobre a maneira como as pessoas idosas devem ser tratadas?

As Escrituras não nos decepcionam. Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, encontramos orientações para uma sociedade na qual a pessoa idosa seja alvo de atenção e respeito.


“Levantem-se na presença dos idosos, honrem os anciãos, temam o seu Deus. Eu sou o Senhor.” Lv 19.32 — NVI

“Honra teu pai e tua mãe, a fim de que tenhas vida longa na terra que o Senhor, o teu Deus, te dá.” Ex 20.12 — NVI

Ouça o seu pai, que o gerou; não despreze sua mãe quando ela envelhecer. Pv 23.22 — NVI

“Mesmo na sua velhice, quando tiverem cabelos brancos, sou eu aquele, aquele que os susterá. Eu os fiz e eu os levarei; eu os sustentarei e eu os salvarei.” Is 46.4 — NVI

A beleza dos jovens está na sua força; a glória dos idosos, nos seus cabelos brancos. Pv 20.29 — NVI

No Novo Testamento, também encontramos orientações sobre o tratamento respeitoso das pessoas mais velhas:

Da mesma forma, jovens, sujeitem-se aos mais velhos. Sejam todos humildes uns para com os outros, porque “Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes”. 1 Pedro 5.5 — NVI

Não repreenda asperamente o homem idoso, mas exorte-o como se ele fosse seu pai; trate os jovens como a irmãos; as mulheres idosas, como a mães; e as moças, como a irmãs, com toda a pureza. 1 Timóteo 5.1–2 — NVI

Guardiões da tradição

Uma das razões pelas quais as pessoas idosas eram tratadas com deferência estava relacionada ao seu papel educativo.

Como guardiões da tradição, os mais velhos tinham a responsabilidade de comunicar a cultura, a fé, a sabedoria e o modo como a vida deveria ser vivida. Por isso, os textos sapienciais são claros sobre a importância de ouvir as instruções dos pais e das mães:

Ouça, meu filho, a instrução de seu pai e não despreze o ensino de sua mãe. Pv 1.8 — NVI

Meu filho, se você aceitar as minhas palavras e guardar no coração os meus mandamentos... Pv 2.1 — NVI

Meu filho, não se esqueça da minha lei, mas guarde no coração os meus mandamentos. Pv 3.1 — NVI

Guardiões da memória da fé

Também cabia aos mais velhos apresentar às novas gerações o significado das experiências de fé vividas pela comunidade.

Com filhos e netos sentados ao seu redor, eles contavam e recontavam as histórias sobre o agir de Deus:

“No futuro, quando os seus filhos lhes perguntarem: ‘Que significa isto?’, digam-lhes: Com mão poderosa o Senhor nos tirou do Egito, da terra da escravidão.” Ex 13.14 — NVI

“No futuro, quando os seus filhos lhes perguntarem: ‘O que significam estes preceitos, decretos e ordenanças que o Senhor, o nosso Deus, ordenou a vocês?’, vocês lhes responderão: ‘Fomos escravos do faraó no Egito, mas o Senhor nos tirou de lá com mão poderosa’.” Dt 6.20–21 — NVI

Essas funções faziam parte de sociedades que, comparadas à nossa, passavam por mudanças mais lentas e valorizavam a conservação do modo de vida.

A experiência das gerações anteriores, já testada ao longo do tempo, servia como referência para responder às perguntas das novas gerações.

Os métodos de trabalho, as profissões, a fabricação de ferramentas, a organização familiar e os costumes podiam atravessar longos períodos sem alterações tão rápidas quanto aquelas que experimentamos atualmente.

Nesse contexto, a comunidade valorizava muito a palavra, a experiência e as decisões das pessoas idosas. Elas funcionavam como pontos de coesão para a família, a tribo e a nação.

Quanto mais uma pessoa envelhecia, maior era a experiência acumulada que poderia compartilhar com os mais novos.

Novos tempos

Esse contexto social, relativamente favorável à valorização das pessoas idosas, permaneceu de diferentes formas até o período pré-industrial.

Com as grandes transformações iniciadas a partir da Revolução Industrial, novas maneiras de pensar, pesquisar, produzir e se relacionar começaram a abalar a antiga estabilidade social.

As mudanças tornaram-se cada vez mais rápidas e constantes.

Nesse novo cenário, pessoas que antes eram vistas como fontes de sabedoria e conhecimento passaram, muitas vezes, a ser tratadas como portadoras de opiniões dispensáveis.

Alguns consideram que já não vale a pena consultar as pessoas idosas, porque as rápidas mudanças sociais e tecnológicas as teriam deixado para trás.

Suas experiências já não parecem aplicar-se plenamente às novas situações. Seus conselhos nem sempre são considerados úteis, e a antiga condição de reconhecimento pela comunidade vai se desgastando na mesma velocidade das transformações.

A riqueza da experiência de vida dos mais velhos continua relevante, mas pode deixar de inspirar o mesmo respeito e consideração.

Nesse novo tempo, a sociedade frequentemente coloca a pessoa idosa de lado.

Nem sempre ela consegue compartilhar de maneira significativa suas experiências e seus conhecimentos com filhos e netos, como fizeram seus antepassados durante muitas gerações.

As mudanças constantes podem dificultar a compreensão de alguns acontecimentos e deixá-la fora das discussões.

O antigo papel de guardiã da tradição pode até tornar-se motivo de piada. Assim, a sociedade condena muitas pessoas idosas ao silêncio e ao isolamento.

Nesse ambiente, sobra pouco espaço para falar em respeito incondicional à pessoa idosa.

Além disso, no campo da fé, a situação não é muito diferente.

Se antes os mais velhos eram considerados mestres dos quais se poderia aprender sobre a caminhada com Deus e ouvir histórias de como ele agiu no passado, hoje, em muitos contextos, a fé dos pais é vista com desconfiança.

Pode ser considerada antiquada, criticada e, por fim, abandonada.

Onde está a dignidade da pessoa idosa?

Ancião, terceira idade, melhor idade, pessoa idosa...

Ao longo da história, homens e mulheres idosos foram reconhecidos como guardiões da tradição cultural e religiosa. Receberam honra por sua contribuição às gerações futuras.

Por outro lado, em diferentes épocas e culturas, pessoas idosas também foram consideradas pesadas e incômodas para a sociedade, especialmente quando deixaram de ser produtivas ou permaneceram apegadas a valores e modos de vida considerados ultrapassados pelos mais jovens.

Há, portanto, uma ambiguidade na maneira como as pessoas idosas são tratadas.

Mesmo em nossos dias, ao mesmo tempo que várias vozes se levantam em defesa de sua dignidade, a sociedade continua cultuando a juventude e se esforçando para não envelhecer.

Empresas ainda podem preferir jovens a trabalhadores mais maduros. Academias e clínicas oferecem formas de conservar ou recuperar uma aparência jovem, por meio de exercícios, tratamentos e cirurgias.

Outro aspecto dessa ambiguidade é o poder de compra.

A pessoa idosa que acumulou patrimônio, possui renda e continua sendo uma consumidora recebe tratamento muito diferente daquela que não tem renda nem patrimônio.

De modo geral, a pessoa idosa que consome é tratada com respeito. Aquela que não possui poder de compra pode tornar-se invisível.

A formação acadêmica também influencia esse tratamento.

Quem teve oportunidade de estudar e acumular diplomas e títulos costuma receber mais respeito. Já aqueles que mal tiveram acesso à leitura e à escrita podem ser tratados como se não tivessem nada a oferecer.

Onde está, então, a dignidade da pessoa idosa?

Uma dignidade que não depende da utilidade

Quando alguém envelhece, torna-se, por meio de suas experiências, guardião da cultura, da arte e da tecnologia de seu tempo.

Essa contribuição é importante, mas pode ser facilmente relativizada. Novas tecnologias surgem, a arte e a cultura tomam novos rumos e, de repente, a pessoa idosa se percebe guardiã de coisas pelas quais poucos se interessam.

Da mesma forma, pessoas idosas são importantes guardiãs das experiências de fé. A partir do que viveram com Deus, constroem significados para as gerações futuras.

Contudo, essa importância também pode ser relativizada quando a vida muda rapidamente e os padrões de espiritualidade são desfeitos e reconstruídos.

A pessoa idosa pode, então, perceber-se apresentando modelos de fé pelos quais poucas pessoas demonstram interesse.

Onde repousa sua dignidade?

Ela repousa na permanência da imagem e semelhança de Deus em nós.

Assim Deus criou o homem à sua própria imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea ele os criou. Gn 1.27 — BKJ 1611

Todos fomos criados à imagem e semelhança de Deus.

Essa marca do Criador em nós não envelhece nem se desgasta com o tempo.

Por isso, quando o texto bíblico ordena:

“Levantem-se na presença dos idosos, honrem os anciãos, temam o seu Deus. Eu sou o Senhor”, Lv 19.32 — NVI

ele reconhece a importância das pessoas idosas como guardiãs da cultura e da fé. Acima de tudo, porém, anuncia que a dignidade humana não fica velha nem antiquada.

Ela acompanha o ser humano durante toda a vida.

Resgatando a dignidade

Diante disso, uma vez que ancoramos a dignidade da pessoa idosa na Palavra de Deus, precisamos perguntar:

Que resposta podemos oferecer, como igreja de Jesus, às ameaças que as pessoas idosas sofrem contra sua dignidade?

A resposta que proponho é a mesma que apresentamos diante dos desafios relacionados à dignidade das pessoas com deficiência:

  1. confessar nosso pecado;
  2. expor nossa mente e nosso coração à Palavra de Deus;
  3. fazer algo real por pessoas reais.

1. Confessar

Confessar é reconhecer.

O apóstolo João fala sobre a importância da confissão nos seguintes termos:

Se dissermos que não temos pecados, estamos enganando a nós mesmos e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, Deus nos perdoará e nos purificará de toda injustiça, pois ele é fiel e justo. 1 Jo 1.8–9 — VFL

Os discípulos de Jesus devem ser exemplares na confissão.

Se não temos tratado as pessoas idosas com dignidade, precisamos reconhecer isso.

Se somos seletivos ao oferecer-lhes respeito, também precisamos admitir.

Devemos examinar se estamos nos tornando utilitaristas em relação às pessoas idosas, isto é, se o valor que damos a elas depende de sua capacidade de nos oferecer algo em troca.

Você pode confessar seus pecados sobre essa questão numa conversa íntima com Deus. Também pode procurar um irmão maduro na caminhada da fé e conversar com ele sobre suas lutas.

Tiago, irmão de Jesus, ensina que a confissão e a oração mútua produzem cura:

Portanto, confessem os seus pecados uns aos outros e orem uns pelos outros para serem curados. A oração de um justo é poderosa e eficaz. Tg 5.16 — NVI

Esse é o primeiro passo de nossa resposta: confessar.

2. Expor-se à Palavra

A segunda parte de nossa resposta às tentativas de negar à pessoa idosa a dignidade que lhe é inerente consiste em nos expormos ao ensino da Palavra de Deus.

Precisamos permitir que ela transforme nossa forma de pensar.

O apóstolo Paulo fala sobre essa transformação:

Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Rm 12.2 — NVI

Diante desse conselho apostólico, vale recordar algumas orientações bíblicas sobre o respeito à dignidade das pessoas idosas:

“Honra teu pai e tua mãe, a fim de que tenhas vida longa na terra que o Senhor, o teu Deus, te dá.” Ex 20.12 — NVI

Filhos, obedeçam a seus pais no Senhor, pois isso é justo. Ef 6.1 — NVI

Não repreenda asperamente o homem idoso, mas exorte-o como se ele fosse seu pai; trate os jovens como a irmãos; as mulheres idosas, como a mães; e as moças, como a irmãs, com toda a pureza. 1 Tm 5.1–2 — NVI

Da mesma forma, jovens, sujeitem-se aos mais velhos. Sejam todos humildes uns para com os outros, porque “Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes”. 1 Pe 5.5 — NVI

O ponto de partida do ensino bíblico sobre o respeito e a proteção da dignidade da pessoa idosa já se encontra nos Dez Mandamentos.

Entre as orientações fundamentais sobre nossa relação com Deus e com o próximo, há espaço para o mandamento de honrar aqueles que vieram antes de nós.

Paulo fala aos filhos que ainda estão sob a tutela dos pais, ressaltando a obediência que lhes devem. Também orienta os líderes da igreja a tratar as pessoas idosas com gentileza e cordialidade.

Pedro relaciona o reconhecimento devido aos mais velhos à humildade que deve caracterizar toda a comunidade.

Esse é o segundo passo de nossa resposta: permitir que o ensino bíblico molde nossa maneira de enxergar o mundo e viver a vida.

3. Fazer

Confessar e expor-se à Palavra são preparativos para agir.

Fazer algo real por uma pessoa real, com nome e história, é o terceiro passo de nossa resposta às ameaças contra a dignidade da pessoa idosa.

Formas concretas de honrar

Valho-me aqui de sugestões apresentadas por Eron Franciulli Coutinho Jr. e Israel Belo de Azevedo em textos sobre esse tema:

  • sirva as pessoas idosas em suas necessidades físicas, financeiras, sociais, emocionais e espirituais;
  • respeite e considere suas opiniões e vontades, sempre protegendo seu bem-estar e sua vida pessoal;
  • seja paciente com suas limitações e dificuldades;
  • valorize seus esforços, conhecimentos e sabedoria;
  • peça conselhos e orientações;
  • reconheça publicamente o bem que prestaram à família, à igreja e à sociedade;
  • procure uma pessoa idosa disposta a ensinar e torne-se alguém disposto a aprender;
  • valorize seus pais, aqueles que vieram antes de você, seus colegas de trabalho mais antigos e as pessoas investidas de autoridade.

Sempre há algo que podemos aprender com elas.

Aprenda a ouvir os mais velhos

Outra forma prática de preservar a dignidade das pessoas idosas e, ao mesmo tempo, aprender com elas é ouvi-las.

Ouça os mais velhos para aprender com os erros deles. Repetir os mesmos erros cometidos pelas gerações anteriores não é uma boa prática de vida. Ao ouvir as pessoas idosas, podemos evitar essa triste repetição.

Ouça os mais velhos para fazer como eles. Cada pessoa idosa de nossa família ou igreja possui alguma experiência, uma sabedoria própria e um jeito de viver ou fazer determinadas coisas que já demonstrou funcionar. Ao ouvi-la, podemos poupar tempo e sofrimento.

Ouça os mais velhos para fazer diferente deles. Pessoas idosas são únicas e diferentes de nós. Essas diferenças podem contribuir para a construção de nossa própria identidade. Ao ouvi-las, percebemos o que desejamos preservar e também aquilo que pretendemos fazer de outra forma.

Ouça os mais velhos para ir além deles. Um dos grandes presentes que uma geração pode oferecer à anterior é tornar-se uma versão aperfeiçoada daqueles que vieram antes. Ao ouvi-los, recebemos a oportunidade de seguir adiante a partir do caminho que percorreram.

Ouça os mais velhos como uma pausa para reflexão. Não despreze nem descarte imediatamente o aviso de uma pessoa idosa. Para você, o caminho pode ser novo; para ela, talvez não seja.

Pare, ouça, pondere, dialogue, ore e, depois, siga conforme o entendimento que receber do Senhor.

A imagem de Deus não envelhece

A dignidade humana da pessoa idosa não decorre de suas experiências de vida, por mais enriquecedoras que sejam. Sua contribuição como guardiã da tradição cultural, da arte, da técnica e da fé é muito importante, mas também não é ela que cria essa dignidade.

O patrimônio acumulado e os rendimentos alcançados podem revelar planejamento e trabalho. Títulos e graus acadêmicos também merecem reconhecimento. Nada disso, porém, torna uma pessoa mais ou menos digna.

As pessoas idosas devem ter sua dignidade humana reconhecida, preservada e defendida porque a imagem e a semelhança de Deus presentes nelas não envelhecem.

Até o fim de suas vidas, carregam a marca do Criador de todas as coisas.

Por isso, são dignas.


Quarta mensagem da série “Ser humano”, escrita por Aristarco Pereira Coelho, pregada na Igreja Batista Videira, em João Pessoa, e posteriormente revisada para publicação no blog.

29 janeiro 2023

Ser humano: a dignidade das pessoas com deficiência

 


Na primeira mensagem da série Ser humano, começamos a refletir sobre nossa humanidade à luz das Escrituras.

Vimos que essa humanidade é uma condição comum a todos nós, uma realidade da qual não podemos fugir. Mas que condição é essa? O que realmente nos faz humanos e nos liga uns aos outros? O que é ser humano?

Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Gn 1.27 — NVI

A partir da narrativa da criação, no primeiro capítulo de Gênesis, vimos que somos criaturas. Reconhecer essa condição é parte do reconhecimento de nossa humanidade.

Destacamos duas afirmações fundamentais para o restante de nossa conversa.

A primeira é que nossa existência não é um acidente, mas resultado da ação criadora e intencional de Deus.

A segunda é que a assinatura de Deus está em nós. Fomos criados à sua imagem e semelhança. Isso confere dignidade a todo ser humano.

Essas verdades não servem apenas para explicar nossa origem. Elas devem transformar a maneira como enxergamos a nós mesmos e tratamos as outras pessoas.

Quando a dignidade humana é negada

De muitas maneiras, a condição de ser humano tem sido negada a determinados grupos. Esse processo é chamado de desumanização: o outro deixa de ser reconhecido como pessoa e passa a ser tratado como objeto, ameaça, estorvo ou vida descartável.

Ao longo da história, pessoas negras e indígenas foram descritas como inferiores. Idosos foram abandonados como se já não fossem gente. Pessoas pobres foram tratadas como seres humanos de segunda categoria. Crianças ainda no ventre foram reduzidas a problemas a serem eliminados. Criminosos foram chamados de “desalmados”, como se tivessem perdido toda a dignidade humana.

Pessoas com deficiência também foram — e continuam sendo — vítimas desse processo.

Para cada grupo desumanizado, surgem explicações destinadas a justificar moralmente o tratamento desumano. Primeiro, diminui-se sua humanidade. Depois, torna-se mais fácil negar-lhe direitos, submetê-lo à violência ou eliminá-lo.

Não podemos permanecer calados.

Precisamos resgatar, a começar por nós mesmos, a dignidade que conecta toda a humanidade: fomos criados intencionalmente por Deus, à sua imagem e semelhança.

Ainda que o pecado tenha corrompido nossa maneira de viver e de nos relacionar, ele não nos autoriza a apagar a imagem de Deus no próximo. A dignidade humana não pode ser concedida apenas a quem consideramos útil, produtivo, saudável ou merecedor.

Não há justificativa para aceitarmos que essa dignidade seja negada a nós nem para negá-la aos outros.

Pessoas com deficiência: uma história de desumanização

Ao longo da história, a deficiência foi usada como justificativa para rebaixar pessoas, restringir seus direitos e, em determinadas circunstâncias, negar-lhes até mesmo o direito à vida.

Na Grécia antiga, Platão imaginou, na cidade ideal descrita em A República, que crianças consideradas inferiores ou nascidas com alguma deformidade fossem retiradas secretamente da comunidade. Aristóteles foi mais explícito: em Política, defendeu que a lei não permitisse que uma criança nascida com deformidade fosse criada. Esses textos não provam que todos os gregos pensassem ou agissem assim, mas mostram que pensadores importantes admitiam subordinar a vida humana a critérios de força, saúde e utilidade. (Perseus)

Sobre Esparta, Plutarco relatou que os recém-nascidos eram examinados por anciãos e que aqueles considerados frágeis ou deformados eram levados a um lugar chamado Apothetae. Como Plutarco escreveu séculos depois dos acontecimentos que descreveu e reconheceu que as tradições sobre Licurgo eram divergentes, seu relato deve ser apresentado com cautela. Ainda assim, ele registra uma mentalidade segundo a qual uma vida que não correspondesse ao ideal de força poderia ser considerada sem valor para a sociedade. (Penelope)

No mundo romano, a reconstrução da Lei das Doze Tábuas determina que uma criança considerada gravemente deformada fosse morta imediatamente. A exposição de recém-nascidos também era conhecida, embora a deficiência não fosse sua única causa. Dificuldades econômicas, ilegitimidade e decisões sobre o tamanho da família também podiam levar ao abandono. Algumas dessas crianças morriam; outras eram recolhidas e submetidas à escravidão ou criadas por outras famílias. (Avalon Project)

Na Europa medieval, as atitudes foram variadas. Algumas pessoas relacionavam deficiências ao pecado, ao castigo de Deus ou à ação de forças demoníacas. Histórias populares sobre crianças supostamente substituídas por seres sobrenaturais alimentavam medo, rejeição e violência. Ao mesmo tempo, também há registros de cuidado familiar, assistência cristã e participação de pessoas com deficiência na vida social e religiosa. A Idade Média não possuía uma única maneira de enxergar a deficiência, mas nela também encontramos exemplos claros de desumanização. (PubMed)

Um exemplo especialmente grave aparece numa conversa atribuída a Martinho Lutero. Ele contou ter conhecido um menino de doze anos que julgou não ser uma criança humana, mas um changeling — uma criatura demoníaca supostamente colocada no lugar de uma criança. Lutero afirmou aos príncipes presentes que, caso tivesse autoridade, mandaria afogá-lo. Os príncipes recusaram sua recomendação. Esse episódio revela um dos graves pontos cegos do reformador: uma crença supersticiosa levou-o a negar a humanidade daquela criança e a considerar aceitável sua morte. (Publicações AAP)

No Brasil, também existem relatos e debates sobre a morte ou o abandono de recém-nascidos em alguns povos indígenas, em circunstâncias relacionadas à deficiência, ao nascimento de gêmeos, às condições da maternidade ou a concepções específicas sobre a entrada da criança na comunidade. Uma reportagem do Fantástico, exibida em 2014, afirmou que práticas dessa natureza ocorriam em pelo menos treze etnias. Esse número deve ser atribuído à reportagem e não pode ser generalizado a todos os povos indígenas, cujas culturas são diversas e entre os quais também existem famílias e comunidades que resistem a essas práticas e protegem suas crianças. (Globoplay)

Em épocas e culturas diferentes, o mecanismo se repete: primeiro se reduz a humanidade de alguém; depois, torna-se mais fácil justificar a violência contra essa pessoa.

É exatamente esse caminho que as Escrituras nos proíbem de seguir.

Nenhuma deficiência apaga a imagem de Deus. Nenhuma limitação transforma uma pessoa em alguém menos humano.

A proteção na lei de Deus

O que encontramos nas Escrituras sobre essa questão?

Não é possível aprofundar todos os aspectos do tema numa única reflexão, mas alguns textos apontam uma direção muito clara.

“Não amaldiçoem o surdo nem ponham pedra de tropeço à frente do cego, mas temam o seu Deus. Eu sou o Senhor.” Lv 19.14 — NVI

“‘Maldito quem fizer o cego errar o caminho.’ Todo o povo dirá: ‘Amém!’” Dt 27.18 — NVI

O direito à vida foi estabelecido nos Dez Mandamentos pela ordem “não matarás”. Jesus aprofundou esse mandamento ao ensinar que a violência não começa apenas quando a vida física é retirada. O desprezo, o ódio, a humilhação e a hostilidade também ferem e destroem o próximo.

As pessoas com deficiência estão incluídas nesse amplo direito à vida apresentado nos mandamentos e explicado por Jesus.

Nos textos de Levítico e Deuteronômio, porém, há algo ainda mais específico. O direito de viver já está pressuposto. A questão é a maneira como essas pessoas devem ser tratadas.

Não amaldiçoem.

Não ponham pedras de tropeço.

Não façam o cego errar o caminho.

Em outras palavras: não explorem suas limitações, não aumentem suas dificuldades e não transformem sua vulnerabilidade em oportunidade para crueldade.

Esses mandamentos também nos ensinam algo sobre acessibilidade. Uma sociedade ou uma igreja que cria barreiras desnecessárias faz justamente o contrário daquilo que Deus ordena. Em vez de facilitar a participação, coloca pedras no caminho.

O texto de Levítico apresenta uma advertência importante:

“Temam o seu Deus. Eu sou o Senhor.”

Em vez de tornar a vida das pessoas com deficiência ainda mais difícil, devemos temer a Deus.

A pessoa com deficiência pertence ao Senhor e carrega sua imagem. Quem a humilha afronta o seu Criador. Quem se aproveita de suas limitações age como se Deus não estivesse vendo.

Deus é o Senhor de tudo e de todos. Por isso, ele mesmo se levanta em defesa daqueles que se encontram indefesos e ameaçados.

As Escrituras não deixam dúvidas de que o Senhor está ao lado dos fracos, dos oprimidos, dos esquecidos e dos desprezados. O melhor que podemos fazer é nos juntar a ele.

A esperança anunciada pelo profeta

Digam aos desalentados de coração: “Sejam fortes, não tenham medo. Eis aí está o Deus de vocês. A vingança vem, a retribuição de Deus; ele vem para salvar vocês.”
Então se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; os coxos saltarão como as corças, e a língua dos mudos cantará. Pois águas arrebentarão no deserto, e ribeiros, no ermo. Is 35.4–6 — NAA

Esse é um texto messiânico. Isaías anuncia a salvação que virá do Senhor.

Ele fala aos desalentados, àqueles que se cansaram de esperar por justiça, cuidado, respeito e restauração. O Senhor lhes diz:

“Sejam fortes. Não tenham medo. Deus vem para salvar vocês.”

O profeta descreve o Reino de Deus como uma realidade na qual a dor, a exclusão e tudo aquilo que oprime a vida não terão a palavra final.

Cegos, surdos, coxos e pessoas que não falam aparecem como representantes de uma humanidade ferida que aguarda a intervenção restauradora de Deus.

Isaías anuncia que a realidade presente será transformada. Quando o Messias estiver reinando plenamente, os cegos verão, os surdos ouvirão, os coxos saltarão e aqueles cuja fala estava impedida cantarão.

Que cena maravilhosa o profeta nos ajuda a contemplar!

Essa esperança, porém, não nos autoriza a tratar uma pessoa com deficiência como inferior no presente. Também não nos permite reduzi-la a um corpo que precisa ser consertado.

Pelo contrário: justamente porque esperamos a restauração plena de Deus, somos chamados agora a reconhecer a dignidade inteira de cada pessoa, combater a exclusão e remover as barreiras que dificultam sua participação.

Pessoas com deficiência no ministério de Jesus

Jesus respondeu: “Voltem e anunciem a João o que vocês estão ouvindo e vendo: os cegos veem, os mancos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as boas-novas são pregadas aos pobres.” Mt 11.4–5 — NVI

Quando Jesus, o Messias anunciado por Isaías, exerceu seu ministério entre nós, tornou visível uma amostra da restauração prometida.

João Batista quis saber se Jesus era aquele que deveria vir. Em resposta, Jesus apontou para o que estava acontecendo diante dos olhos de todos: pessoas eram vistas, acolhidas, curadas e reintegradas.

A esperança anunciada pelos profetas já havia começado a se realizar.

Os evangelhos registram muitos desses encontros: Bartimeu; o paralítico de Cafarnaum; o homem com a mão atrofiada; o paralítico de Betesda; o menino que não ouvia nem falava; os cegos que clamaram por misericórdia.

Jesus não tratou essas pessoas como interrupções em sua agenda. Não as transformou em espetáculo nem em objetos usados para demonstrar sua espiritualidade.

Ele as viu e ouviu.

Ele se aproximou delas e as tratou como pessoas.

Suas curas eram sinais da chegada do Reino de Deus. Apontavam para o dia em que o sofrimento, a exclusão, a doença e a morte não mais dominarão a criação.

Cada pessoa acolhida e restaurada era como uma seta apontando para o tempo em que Deus fará novas todas as coisas.

Os primeiros passos da igreja

Em Listra havia um homem paralítico dos pés, aleijado desde o nascimento, que vivia ali sentado e nunca tinha andado. Ele ouvira Paulo falar. Quando Paulo olhou diretamente para ele e viu que o homem tinha fé para ser curado, disse em alta voz: “Levante-se! Fique em pé!” Com isso, o homem deu um salto e começou a andar. At 14.8–10 — NVI

Nos primeiros passos da igreja, os sinais do Reino continuaram apontando para a restauração realizada por Deus.

Assim como acontecia no ministério de Jesus, cada corpo curado e cada vida restaurada eram sinais do futuro de Deus — o tempo em que seremos seres humanos completos, inteiros e plenamente livres de tudo aquilo que oprime a criação.

A missão da igreja, entretanto, não pode ser reduzida à expectativa de curas.

Enquanto aguardamos a restauração plena, somos chamados a acolher, ouvir, remover obstáculos e abrir espaço para a participação das pessoas com deficiência.

Elas não são apenas destinatárias de nossa compaixão. São irmãs e irmãos, membros do corpo de Cristo, portadores de dons, experiências, vocações e responsabilidades.

Uma igreja pode falar muito sobre amor e, ao mesmo tempo, manter portas, linguagens, estruturas e atitudes que impedem a participação de algumas pessoas.

Por isso, não basta perguntar se permitimos que pessoas com deficiência entrem. Precisamos perguntar se estamos construindo uma comunidade na qual elas possam pertencer, servir, ensinar, decidir e ser ouvidas.

O que nos cabe hoje?

Nós, que cremos em Jesus, fomos chamados a nos juntar a Deus na defesa e no reconhecimento da dignidade das pessoas com deficiência.

O que nos cabe fazer?

Há muitas respostas possíveis, mas podemos começar com três atitudes.

1. Confessar nossa indiferença

Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça. Se afirmarmos que não temos cometido pecado, fazemos de Deus um mentiroso, e a sua palavra não está em nós. 1 João 1.8–10 — NVI

A primeira coisa que precisamos fazer é confessar.

Precisamos reconhecer que nem sempre nos importamos tanto quanto deveríamos com as barreiras, humilhações e sofrimentos enfrentados pelas pessoas com deficiência.

Talvez nunca tenhamos cometido uma agressão deliberada. Mesmo assim, podemos ter permanecido indiferentes.

Podemos ter rido de alguma limitação, usado palavras ofensivas, ocupado indevidamente um espaço reservado e até ignorado as dificuldades que nossas estruturas, atitudes e decisões impõem.

Não adianta apresentar explicações para provar que não somos pessoas tão ruins. Como João nos ensina, quando nos justificamos o tempo todo, perdemos a oportunidade de reconhecer o pecado, receber o perdão de Deus e refazer esse capítulo de nossa história.

Precisamos nos aproximar do Senhor e confessar nossa indiferença, nosso preconceito e nossa falta de atenção, sempre que isso for verdade.

A confissão não é o fim do caminho. É o começo de uma vida transformada pela graça.

2. Mudar os óculos

Não sejam mais moldados por este mundo mas, pela nova maneira de vocês pensarem, vivam uma vida diferente. Então vão descobrir a vontade de Deus para vocês, isto é, o que é bom, agradável a ele e perfeito. Rm 12.2 — VFL

Além de confessar, precisamos mudar a maneira como enxergamos o mundo e as pessoas ao nosso redor.

Precisamos permitir que nossa mente seja transformada pela exposição à Palavra de Deus.

Na primeira mensagem e nesta reflexão, recebemos duas lentes novas para nossos óculos:

  1. A existência humana não é um acidente, mas resultado da ação intencional de Deus. Isso confere dignidade a todos.

  2. Todos fomos criados à imagem e semelhança de Deus. A assinatura do Criador está em cada ser humano.

Troque as lentes.

Deixe de lado as lentes do preconceito e do descaso.

Abandone as lentes da arrogância e da autossuficiência.

Jogue fora as lentes da falsa superioridade e da sabedoria própria.

Permita que essas verdades encharquem sua mente até moldarem seu jeito de viver.

Uma pessoa não vale menos porque precisa de ajuda para realizar determinada atividade. Também não vale mais porque consegue viver com maior autonomia.

Nossa dignidade não é medida pelo desempenho, pela produtividade, pela aparência ou pela correspondência a determinado padrão corporal.

Somos dignos porque fomos criados por Deus e carregamos sua imagem.

3. Fazer algo concreto

Meus filhinhos, o nosso amor não deve ser somente de palavras e de conversa. Deve ser um amor verdadeiro, que se mostra por meio de ações. 1 Jo 3.18 — NTLH

Por fim, precisamos fazer algo concreto.

Este mundo está cheio de palavras de amor e carente de ações que expressem esse amor.

Olhe para sua atividade profissional. O que você pode fazer para tornar menos difícil a vida das pessoas com deficiência?

Olhe para sua família e para seus amigos. Você contribui para formar atitudes de respeito, acolhimento e apoio?

Seus filhos estão sendo ensinados a respeitar, ajudar e defender pessoas com deficiência?

Há pessoas com deficiência em seus círculos reais de amizade e convivência ou elas aparecem apenas como objetos distantes de nossa compaixão?

No trânsito, você respeita as vagas reservadas? Uma vaga exclusiva não pode ser ocupada “só por um minutinho”.

Nos centros comerciais, você respeita as mesas, os banheiros e os espaços destinados a pessoas com deficiência?

Na internet e nas conversas cotidianas, você evita palavras e piadas que usam deficiências como insultos?

Olhe também para si mesmo. Você possui alguma deficiência ou limitação que procura esconder por medo da rejeição? Por que temos tanta dificuldade de falar sobre nossas próprias fragilidades?

E em nossos encontros como igreja?

O que temos feito para facilitar o acesso das pessoas com deficiência ao evangelho, à comunhão e ao serviço cristão?

Nossos espaços físicos são acessíveis? A comunicação pode ser compreendida por pessoas com diferentes necessidades? Nossas atividades incluem ou afastam?

Estamos dispostos a ouvir as próprias pessoas com deficiência antes de decidir do que elas precisam?

Não basta desejar que elas venham. Precisamos remover as pedras do caminho.

O amor verdadeiro não se limita a declarações. Ele se torna visível em atitudes, estruturas, escolhas e relacionamentos.

Inteiros diante de Deus

Quero concluir recordando a resposta de Deus a Moisés.

Quando foi chamado para voltar ao Egito e conduzir o povo à liberdade, Moisés argumentou que não era a pessoa adequada. Parecia dizer que Deus havia escolhido o irmão errado. Arão falava com desenvoltura; Moisés tinha dificuldade para se expressar.

Então o Senhor respondeu:

E o Senhor lhe disse: “Quem fez a boca do homem? Quem fez o mudo, o surdo, o que vê ou o cego? Não fiz eu, o Senhor?” Ex 4.11 — BKJ 1611

Esse texto não responde a todas as nossas perguntas sobre a origem das deficiências. Ele afirma, porém, que nenhuma limitação coloca alguém fora da soberania, da atenção ou do chamado de Deus.

Moisés tentou usar sua dificuldade como prova de que não poderia ser chamado. Deus não negou a dificuldade de Moisés, mas também não permitiu que ela se transformasse na medida de sua dignidade.

O Criador não mede nossa dignidade pelo corpo que temos, pela maneira como pensamos, pela velocidade com que aprendemos, pela clareza de nossa fala ou pelo grau de autonomia que alcançamos.

Pessoas com deficiência não são seres humanos pela metade.

Não existem apenas para despertar compaixão nem para ensinar lições às outras pessoas.

São pessoas criadas por Deus, portadoras de sua imagem, com dons, voz, vocação e lugar em sua comunidade.

Por isso, Deus nos convida a nos juntarmos a ele na restauração deste mundo: reconhecendo, preservando e defendendo a dignidade das pessoas com deficiência.

Não importa se somos tortos, se nos falta um pedaço, se somos lentos, se não enxergamos, se não ouvimos, se nossa fala encontra obstáculos ou se precisamos de ajuda para realizar aquilo que outros fazem sozinhos.

Diante de Deus, não somos pessoas pela metade.

Somos inteiros.

Seres humanos criados por ele, à sua imagem e semelhança.

Essa é a marca de nossa humanidade.


Segunda mensagem da série “Ser humano”, pregada em 29 de janeiro de 2023 e revisada para publicação no blog.

22 janeiro 2023

Ser humano: criados à imagem de Deus




Numa manhã de janeiro, ouvi Dani contar que ela e o irmão Eraldo haviam retirado a decoração de fim de ano. Pensei: “Pronto! Agora o ano começou!”

Na verdade, o ano já havia começado há mais de três semanas. O primeiro mês avançava rapidamente. O tempo segue numa carreira desembestada. Talvez seja por isso que, a cada 365 dias, zeramos a contagem e começamos um novo ano, como quem abre uma página cheia de possibilidades.

A passagem de um ano para outro é celebrada em muitas culturas. No Brasil, a Lei nº 108, de 1935, consagrou o dia 1º de janeiro à comemoração da Fraternidade Universal. Anos depois, o papa Paulo VI propôs que o primeiro dia do ano também fosse celebrado como Dia Mundial da Paz, cuja primeira observância ocorreu em 1º de janeiro de 1968.

De certa forma, começamos o ano lembrando que somos todos humanos. Temos culturas diferentes, falamos línguas distintas, professamos crenças diversas e vivemos realidades muito desiguais. Ainda assim, há algo que nos antecede e nos aproxima: compartilhamos a mesma condição humana. É a partir dessa consciência que a reflexão se volta para uma pergunta essencial.

Mas o que significa ser humano? O que nos une uns aos outros? O que as Escrituras revelam sobre a nossa condição?

Esta reflexão inicia uma série de quatro mensagens sobre a condição humana que compartilhamos. Pode parecer um assunto apenas teórico, mas não é. Aquilo que cremos sobre o ser humano interfere diretamente na maneira como enxergamos a nós mesmos, tratamos as outras pessoas e encaramos a vida diante de Deus e do próximo.

Somos criaturas

Uma das primeiras afirmações da Bíblia a nosso respeito é que fomos criados. Somos criaturas.

Então disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os grandes animais de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão”. Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Gênesis 1.26–27 — NVI

Criação e dignidade

O texto afirma que homens e mulheres existem por uma decisão livre e intencional de Deus. Nossa existência não é apresentada como acidente, descuido ou sobra do universo, mas como resultado da ação deliberada do Criador.

Imagine-se sentado confortavelmente numa bela praia de sua propriedade, plenamente satisfeito, sem que nada lhe falte. O que o faria sair dessa condição?

Talvez a resposta fosse:

— Nada, pastor!

Deus, porém, não criou porque lhe faltava alguma coisa. Ele não precisava do universo nem da humanidade para se completar. Criou livremente, segundo sua vontade e seu propósito. Trouxe à existência o universo, a vida e, entre todas as criaturas, homens e mulheres.

Ainda não respondemos a todas as perguntas sobre o propósito da criação, mas já sabemos algo essencial: a vida humana é intencional. Fomos desejados pelo Criador, e isso confere dignidade à nossa existência.

Meu sogro tem uma caixa na qual guarda todo tipo de objeto que encontra pelo caminho: um pedaço de metal, um parafuso diferente, uma pequena peça com algum encaixe. Minha sogra costuma dizer que aquilo é apenas uma caixa de tranqueiras, mas ele continua guardando tudo. Mais de uma vez, eu o vi recorrer àquela caixa e encontrar exatamente a peça de que precisava.

Aquelas peças não foram produzidas por acaso. Cada uma foi fabricada com alguma finalidade, mesmo quando já não sabemos qual era. De modo semelhante, ainda que a vida nos tenha lançado ao chão, ainda que nos sintamos desprezados, esquecidos ou deixados de lado, nossa existência não perde seu sentido: fomos criados por Deus.

Isso não significa que compreenderemos imediatamente tudo o que acontece conosco, nem que encontraremos uma explicação simples para cada sofrimento. Significa, porém, que nossa dignidade não depende da utilidade que os outros enxergam em nós, do lugar que ocupamos ou do quanto conseguimos produzir.

Há uma razão para a sua vida. Por isso, você não deve renunciar à dignidade que recebeu do Criador.

Essa verdade também muda a maneira como tratamos as outras pessoas. Elas igualmente foram criadas por Deus. Quando encontramos alguém caído à beira da estrada, convencido de que não tem valor, somos chamados a nos aproximar e recordar:

Sua vida tem significado. Você é importante. Sua existência não é um acaso.

Como diz uma antiga canção:

Deus tem um plano em cada criatura;

aos astros, ele dá um céu;

a cada rio, ele dá um leito;

e um caminho para mim traçou.

— Richard D. Baker

Assim, a dignidade que nasce da criação intencional de Deus é comum a toda a humanidade. Ser humano é reconhecer a si mesmo e aos outros como criaturas desejadas por Deus, cuja existência não depende da utilidade que alguém lhes atribui.

Essa primeira afirmação prepara a segunda: não apenas fomos criados por Deus, mas fomos criados de modo singular. A dignidade humana nasce da criação e se aprofunda quando Gênesis afirma que carregamos a imagem do Criador.

Imagem e dignidade

Gênesis acrescenta uma afirmação ainda mais profunda: homens e mulheres foram criados à imagem e semelhança de Deus.

Isso não significa que sejamos divinos. Continuamos sendo criaturas, dependentes daquele que nos deu a vida. Significa, porém, que fomos criados para representar Deus no mundo e refletir algo de seu caráter, de sua vontade e de seu governo. Entre todas as criaturas, o ser humano recebe essa vocação singular.

Pense numa obra de arte esquecida por muitos anos. Ela pode estar encostada numa parede, coberta de poeira e tratada como algo sem valor. Quando, porém, a assinatura do artista é reconhecida, todos passam a olhar para a mesma obra de outra maneira. A assinatura revela sua origem.

A imagem de Deus é como a assinatura do Criador gravada em nossa humanidade.

Por isso, não importa se alguém foi esquecido, desprezado ou deixado de lado. Não importa há quanto tempo está “encostado numa parede” da vida. Todo ser humano carrega a marca de seu Criador e, por isso, deve ser tratado com respeito, cordialidade e consideração.

Nossa existência não é um acidente. Fomos criados intencionalmente por Deus.

A assinatura do Criador está em nós. Isso é parte inseparável de nossa humanidade.

Quando a dignidade é negada

Se todos os seres humanos foram criados por Deus e carregam sua imagem, ninguém pode ser tratado como menos humano. No entanto, ao longo da história, a dignidade e os direitos de muitos grupos foram negados.

Esse processo é chamado de desumanização. Ele acontece quando alguém deixa de ser visto como pessoa e passa a ser tratado como objeto, ameaça, estorvo, mercadoria ou vida descartável.

Pessoas com deficiência já foram tratadas como se não possuíssem plena humanidade. Povos negros e indígenas foram escravizados, explorados e descritos como inferiores. Crianças ainda no ventre são, por vezes, reduzidas a um problema a ser eliminado. Criminosos podem ser tratados como se tivessem perdido todo direito à dignidade. Idosos são abandonados como se já não fossem gente. Pessoas pobres são tratadas como seres humanos de segunda categoria.

Para cada forma de desumanização, são criadas explicações, teorias e justificativas. Mas nenhuma delas pode apagar o que Deus declarou na criação.

Embora o pecado desfigure nossa humanidade e corrompa nossos relacionamentos, a imagem de Deus continua sendo o fundamento da dignidade humana. Essa dignidade não deve ser concedida apenas a quem julgamos merecedor. Ela deve ser reconhecida, protegida e jamais violada.

Não há justificativa para tratarmos uns aos outros como menos humanos.

Pessoas com deficiência: dignidade, cuidado e participação

Em diferentes épocas, pessoas com deficiência foram submetidas ao abandono, à ridicularização, à exclusão e até à morte. É preciso, contudo, evitar generalizações históricas simplistas: pesquisas mais recentes mostram que as atitudes das sociedades antigas eram mais variadas do que muitas narrativas populares sugerem. Ainda assim, há registros reais de práticas cruéis e de discursos que negavam a plena humanidade dessas pessoas.

Até mesmo Martinho Lutero, em um de seus graves pontos cegos, reproduziu crenças desumanizantes de seu tempo ao falar sobre uma criança que ele considerava um changeling — uma suposta criatura demoníaca colocada no lugar de uma criança — e sugerir que fosse afogada. O episódio nos lembra que nenhuma tradição, instituição ou liderança está dispensada de examinar criticamente suas próprias atitudes.

O que encontramos nas Escrituras sobre essa questão? Não é possível aprofundar todos os aspectos do tema em uma única reflexão, mas alguns textos apontam uma direção clara.

A partir daqui, a reflexão seguirá um percurso simples: primeiro, a proteção que aparece na lei de Deus; depois, a esperança anunciada pelos profetas; em seguida, o ministério de Jesus; por fim, os passos da igreja. Esse caminho mostra que a dignidade das pessoas com deficiência não é um detalhe periférico, mas atravessa o testemunho bíblico.

A proteção na lei de Deus

“Não amaldiçoem o surdo nem ponham pedra de tropeço à frente do cego, mas temam o seu Deus. Eu sou o Senhor.” Levítico 19.14 — NVI

“‘Maldito quem fizer o cego errar o caminho.’ Todo o povo dirá: ‘Amém!’” Deuteronômio 27.18 — NVI

O mandamento “não matarás” protege a vida humana. Jesus aprofundou esse mandamento ao mostrar que a violência contra o próximo começa antes do ato de tirar-lhe a vida: ela também se manifesta no desprezo, no ódio e na humilhação.

Nos textos do Levítico e do Deuteronômio, pessoas com deficiência são mencionadas especificamente. Não basta reconhecer seu direito de existir. O povo de Deus é proibido de explorar suas limitações, dificultar sua caminhada ou transformar sua vulnerabilidade em ocasião para crueldade.

“Não amaldiçoem.”

“Não ponham pedra de tropeço.”

“Não façam errar o caminho.”

Em linguagem contemporânea, poderíamos dizer: não criem barreiras; não explorem limitações; não transformem a vulnerabilidade de alguém em ocasião para abuso; não façam da vida de uma pessoa uma caminhada ainda mais difícil.

Levítico acrescenta uma razão decisiva:

“Temam o seu Deus. Eu sou o Senhor.”

A pessoa com deficiência pertence a Deus e carrega sua imagem. Quem a humilha afronta o seu Criador. Quem cria obstáculos deliberados diante dela age como se Deus não estivesse vendo. Por isso, em vez de tornar sua vida mais difícil, o povo é chamado a temer o Senhor.

Deus se apresenta nas Escrituras como defensor dos fracos, dos oprimidos, dos esquecidos e dos desprezados. O melhor que podemos fazer é nos juntar a ele.

A esperança anunciada pelos profetas

Digam aos desalentados de coração: “Sejam fortes, não tenham medo. Eis aí está o Deus de vocês. A vingança vem, a retribuição de Deus; ele vem para salvar vocês.” Isaías 35.4–6 — NAA

Então se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; os coxos saltarão como as corças, e a língua dos mudos cantará. Pois águas arrebentarão no deserto, e ribeiros, no ermo.

Isaías anuncia a salvação que virá do Senhor. Sua palavra é dirigida aos desalentados, àqueles que já se cansaram de esperar por justiça, acolhimento e restauração.

O profeta descreve o Reino de Deus como uma realidade na qual o sofrimento, a exclusão e tudo aquilo que limita a vida não terão a palavra final. Cegos, surdos, coxos e mudos aparecem como representantes de uma humanidade que espera pela ação restauradora de Deus.

Essa esperança, porém, nunca deve ser usada para tratar o corpo de uma pessoa com deficiência como inferior no presente. Pelo contrário: justamente porque esperamos a restauração plena de Deus, somos chamados desde agora a combater toda forma de exclusão, remover barreiras concretas e reconhecer a dignidade inteira de cada pessoa.

O ministério de Jesus

Jesus respondeu: “Voltem e anunciem a João o que vocês estão ouvindo e vendo: os cegos veem, os mancos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as boas-novas são pregadas aos pobres.” Mateus 11.4–5 — NVI

Quando Jesus exerceu seu ministério entre nós, tornou visível uma amostra da restauração prometida por Isaías. João Batista quis saber se Jesus era aquele que deveria vir. Em resposta, Jesus apontou para o que estava acontecendo diante dos olhos de todos: pessoas eram vistas, acolhidas, curadas e reintegradas.

Os evangelhos registram muitos desses encontros: Bartimeu; o paralítico de Cafarnaum; o homem com a mão atrofiada; o paralítico de Betesda; o menino que não ouvia nem falava; os cegos que clamaram por misericórdia.

Jesus não tratou essas pessoas como interrupções em sua agenda nem como objetos de curiosidade. Ele as viu, ouviu e recebeu. Suas curas eram sinais de que o Reino de Deus havia se aproximado e apontavam para a restauração plena da humanidade.

Os passos da igreja

Em Listra havia um homem paralítico dos pés, aleijado desde o nascimento, que vivia ali sentado e nunca tinha andado. Ele ouvira Paulo falar. Quando Paulo olhou diretamente para ele e viu que o homem tinha fé para ser curado, disse em alta voz: “Levante-se! Fique em pé!” Com isso, o homem deu um salto e começou a andar. Atos 14.8–10 — NVI

Nos primeiros passos da igreja, os sinais do Reino continuaram apontando para a restauração realizada por Deus. Cada corpo curado e cada vida reintegrada funcionavam como uma seta voltada para o futuro de Deus.

A missão da igreja, no entanto, não se resume à expectativa de milagres. Enquanto aguardamos a restauração plena, somos chamados a remover barreiras, promover acessibilidade, ouvir as pessoas com deficiência e garantir que participem da vida comunitária com seus dons, sua voz e sua autonomia. Não se trata apenas de compaixão, mas de reconhecimento: elas são irmãs e irmãos, participantes plenos do corpo de Cristo.

Pessoas pobres: a dignidade que não pode ser comprada

A dignidade humana também é violada quando a pobreza se torna motivo de desprezo. Embora tenha causas diversas e produza limitações concretas, nenhuma condição econômica justifica diminuir o valor de alguém. A dignidade não aumenta com o saldo bancário nem desaparece quando faltam recursos.

A pessoa pobre não pode ser menosprezada porque tem pouco. Ainda assim, isso acontece com frequência, especialmente em ambientes nos quais o valor das pessoas é medido por sua capacidade de consumir.

Quem segue Jesus toma o caminho inverso: considera, respeita e honra a pessoa pobre — inclusive quando o próprio cristão também vive em pobreza.

Quem dispõe de poucos recursos não pode ser humilhado por essa condição. No entanto, pessoas pobres muitas vezes são impedidas de conviver nos mesmos espaços, entrar pelas mesmas portas, partilhar a mesma mesa ou alimentar os mesmos sonhos. Aos poucos, sua humanidade lhes é negada. Quem segue Jesus toma o caminho inverso: reconhece, respeita e honra aqueles que vivem com pouco.

Quem enfrenta necessidades não pode ser abandonado. Mesmo assim, é comum que o sofrimento dos pobres seja justificado por discursos que os classificam, indistintamente, como preguiçosos, irresponsáveis ou culpados por toda a própria situação. Algumas pessoas chegam a usar textos bíblicos para legitimar a indiferença.

Quem segue Jesus toma o caminho inverso: acolhe, reparte e socorre conforme suas possibilidades.

Quem passa necessidade não pode ser transformado em motivo de pilhéria. Mas as lutas, limitações e dificuldades dos pobres são frequentemente banalizadas e convertidas em piada.

Quem segue Jesus toma o caminho inverso: recusa o escárnio e reconhece a dignidade que Deus concedeu a cada pessoa.

A proteção dos pobres no Antigo Testamento

Várias leis do Antigo Testamento tinham o propósito de impedir que a pobreza se transformasse numa sentença permanente de exclusão.

“No final de cada sete anos, as dívidas deverão ser canceladas. Isso deverá ser feito da seguinte forma: todo credor cancelará o empréstimo que fez ao seu próximo. Nenhum israelita exigirá pagamento de seu próximo ou de seu parente, porque foi proclamado o tempo do Senhor para o cancelamento das dívidas. Vocês poderão exigir pagamento do estrangeiro, mas terão que cancelar qualquer dívida de seus irmãos israelitas. Assim, não deverá haver pobre algum no meio de vocês, pois na terra que o Senhor, o seu Deus, lhes está dando como herança para que dela tomem posse, ele os abençoará ricamente, contanto que obedeçam em tudo ao Senhor, o seu Deus, e ponham em prática toda esta lei que hoje lhes estou dando.” Deuteronômio 15.1–5 — NVI

A lei impedia que dívidas se acumulassem indefinidamente e destruíssem famílias por sucessivas gerações. O alvo declarado era que a pobreza não se tornasse uma estrutura permanente no meio do povo.

A legislação bíblica não romantiza a necessidade. Ela chama a comunidade a organizar a vida de modo que os vulneráveis sejam protegidos e tenham a possibilidade de recomeçar.

Os pobres no ministério de Jesus

Jesus deu atenção especial aos pobres. Alimentou os famintos, curou os enfermos, denunciou exploradores e anunciou as boas-novas do Reino àqueles que costumavam ser ignorados.

Quando respondeu a João Batista, Jesus incluiu entre os sinais de seu ministério esta declaração:

“As boas-novas são pregadas aos pobres.”

Isso não era um detalhe. O evangelho alcançava pessoas que a sociedade havia colocado à margem e lhes anunciava que o Reino de Deus também lhes pertencia.

Os passos da igreja

A igreja seguiu os passos de Jesus. Em uma reunião que envolveu Tiago, Pedro, João, Paulo e Barnabé, a lembrança dos pobres apareceu como compromisso indispensável da missão cristã.

“Reconhecendo a graça que me fora concedida, Tiago, Pedro e João, tidos como colunas, estenderam a mão direita a mim e a Barnabé em sinal de comunhão. Eles concordaram em que devíamos nos dirigir aos gentios, e eles, aos circuncisos. Somente pediram que nos lembrássemos dos pobres, o que me esforcei por fazer.” Gálatas 2.9–10 — NVI

A comunhão entre os apóstolos não foi expressa apenas por concordância doutrinária ou divisão de campos missionários. Ela também incluiu uma responsabilidade concreta: lembrar-se dos pobres.

Uma igreja que se esquece dos pobres pode preservar muitas atividades religiosas, mas se afasta dos passos de Jesus. Lembrar-se deles não é um acréscimo opcional à missão cristã; é uma expressão concreta do evangelho que anuncia a dignidade de toda pessoa diante de Deus.

Criados humanos

O que significa ser humano?

Segundo as Escrituras, ser humano significa, antes de tudo, reconhecer que somos criaturas. Não temos vida em nós mesmos. Tudo o que temos e somos recebemos daquele que nos criou. Deus é a fonte da vida; nós dependemos dele.

Também significa abraçar a convicção de que nossa existência é intencional e de que nossa dignidade está fundamentada na imagem e semelhança de Deus. Essa dignidade não pode ser medida pela saúde, pela capacidade física, pela origem étnica, pela idade, pela história pessoal, pela condição moral ou pela situação econômica.

No mundo caído, continuaremos encontrando tentativas de dividir a humanidade entre vidas valiosas e vidas descartáveis, pessoas dignas e indignas, gente que merece ser vista e gente que pode ser abandonada.

As Escrituras, porém, nos colocam diante de um Deus que vê, protege, acolhe e restaura. Ele chama seu povo a participar dessa obra.

Podemos perceber isso nas leis dadas a Israel, no anúncio dos profetas, no ministério de Jesus e nos primeiros passos da igreja. Em todos esses testemunhos, somos alcançados pelo amor de Deus e convocados a reconhecer, proteger e honrar a dignidade do próximo.

Deus nos criou à sua imagem e semelhança. Não somos deuses; somos humanos — criaturas dependentes, limitadas e, ao mesmo tempo, revestidas de uma dignidade que vem do Criador.

Por isso, ser humano também é reconhecer a humanidade do outro.

Onde alguém estiver sendo tratado como menos humano, o povo de Deus deve aproximar-se, remover as pedras do caminho e afirmar, com palavras e atitudes:

Sua vida tem significado. Você carrega a imagem do Criador. Sua dignidade não pode ser apagada.


16 dezembro 2022

Isabel



Isabel



Pr. Aristarco Coelho - Igreja Batista Videira

11 de Dezembro de 2022, Paratibe - João Pessoa/PB


Palavras Iniciais

Estamos em dezembro e as luzes do Natal estão acessas por toda cidade. De alguma forma há uma lembrança coletiva de que esse é um período de festa, um tempo de celebrar; porque é Natal.

Muitas pessoas ficam sensíveis na época do Natal. Alguns são consumidos de tristeza e melancolia e outros são tomados de alegria e esperança; uma coisa é certa: dificilmente alguém passa por essa época sem ser tocado por esse clima de Natal.

De fato, o Natal é motivo de celebração. Não por causa do Papai Noel, dos enfeites, das luzes ou dos presentes, mas porque nessa época do ano decidimos nos lembrar do nascimento daquele que veio a este mundo, como uma criança indefesa, a fim de nos defender e de nos salvar de nós mesmos: JESUS.

As Escrituras dizem que Jesus, nascido de Maria, é a plena e perfeita representação de Deus. João, que conviveu com Jesus, escreveu que ao olharem para Ele e sua maneira de viver era como se eles vissem o próprio Deus ali presente. A glória de Deus, sua presença poderosa, era sentida por todos que se aproximavam de Jesus.

Natal é sobre Jesus. Desde o começo é sobre Jesus e seu nascimento. E se não for sobre Jesus, é apenas mais uma oportunidade para comer, beber e dar presentes. Natal é sobre o impacto que Jesus causa na vida das pessoas, porque desde aquele primeiro natal e mesmo antes dele, Ele já tocava e transformava a realidade ao seu redor.

Hoje e nos próximo dois domingos vamos olhar mais de perto a vida de três pessoas que tiveram suas vidas alcançadas e transformadas por Jesus, antes que o primeiro natal acontecesse. São três mulheres a quem foi dado o privilégio de ouvirem as palavras que romperam o silêncio que existia desde os últimos profetas do Antigo Testamento. Vamos olhar de perto as vidas de Isabel, Maria e Ana.

Isabel

Vou começar hoje apresentando Isabel. Ela é mencionada na Bíblia no evangelho de Lucas. Vamos ler:

Lucas 1.5–7 NVI

5 No tempo de Herodes, rei da Judéia, havia um sacerdote chamado Zacarias, que pertencia ao grupo sacerdotal de Abias; Isabel, sua mulher, também era descendente de Arão. 

6 Ambos eram justos aos olhos de Deus, obedecendo de modo irrepreensível a todos os mandamentos e preceitos do Senhor. 

7 Mas eles não tinham filhos, porque Isabel era estéril; e ambos eram de idade avançada.

Infância e Juventude

Quando Isabel aparece pela primeira vez nas páginas das Escrituras ela já é uma mulher idosa. Lucas, no entanto, inclui algumas dicas sobre a infância e juventude de Isabel. Ele afirma que ela era descendente de Arão, o primeiro na linhagem sacerdotal de Israel. Isso quer dizer que Isabel era filha de um sacerdote.

Isabel havia sido criada em uma família que temia e amava a Deus. Desde pequena ela ouvia o pai falar sobre como Deus é maravilhoso e digno de adoração. Ela certamente ouviu as histórias de Abraão, Isaque e Jacó, também sobre como Deus libertou o povo do cativeiro egípcio pelas mãos de Moisés, e sobre a insistência dos profetas para que o povo de Israel confiasse apenas em Deus.

A jovem Isabel, filha de um sacerdotes, casou-se também com um sacerdote, chamado Zacarias. Assim, a cultura familiar de Isabel, de confiar em Deus, foi confirmada em seu casamento. Ela, que antes via o pai às voltas com o ministério sacerdotal, agora, depois de casada, acompanhava o ministério sacerdotal do esposo.

Idade adulta

A jovem esposa Isabel viveu sua vida amando a Deus e confiando no Senhor. Sabemos disso por causa do testemunho das pessoas a respeito dela e de seu marido, de que eles eram “justos aos olhos de Deus, obedecendo de modo irrepreensível a todos os mandamento e preceitos do Senhor” (1.6).

Não é que eles fossem perfeitos, mas que serviam fielmente ao Senhor, com intensa dedicação, não havendo nada em suas vidas pelo que pudessem ser publicamente acusados de desobediência. Em resumo: Isabel vivia uma vida exemplar.

Muita gente olharia para a vida de Isabel e diria com tranquilidade: “Olha aí algum a quem Deus deveria cobrir de todo tipo de bênção”. No entanto, Isabel e seu esposo Zacarias, mesmo com suas vidas exemplares, não foram abençoados com filhos.

Por toda a sua vida de casada, mês a mês, Isabel foi consumida por expectativas seguidas de frustrações, o tipo de situação que pode despedaçar a alma humana. Como uma mulher que amava e confiava no Senhor desde criança chegou à velhice sem a bênção da maternidade? Essas e outras perguntas iam e vinham na mente dela, dos amigos e da família, ano após ano.

Isabel foi muito amada por seu esposo. Sabemos disso porque Zacarias permaneceu até a velhice com ela, não fazendo valer seu direito legal de se divorciar de uma esposa que não lhe dava filhos. 

Mas, mesmo suprida pelo amor de seus pais em sua infância e pelo amo de seu marido na juventude e idade adulta, ela possivelmente se sentia menos do que poderia ser. Esse sentimento se agravava com a crença vigente em sua época de que Deus abençoa seus servos fiéis dando-lhe filhos, porque isso levava as pessoas a pensarem que aqueles que não tinham filhos estavam sendo de alguma forma punidos por Deus.

Maturidade

Quando Isabel apareceu na cena bíblica, já idosa, uma parte dessas tensões sobre a maternidade já eram feridas cicatrizadas. O texto indica que, àquela altura, Isabel e seu esposo já haviam desistido de se tornarem pais.  Por muitos anos eles oraram e pediram com fé, mas agora, já idosos, esse assunto era coisa passada de gosto amargo.

Eu penso, irmãos, que os fatos ocorrido com Isabel são uma denúncia contra o falso evangelho, que promete a realização de sonhos em troca de uma vida piedosa. Em seus dias, poucas pessoas foram tão crentes e piedosas quanto Isabel e Zacarias, no entanto eles viveram a maior parte de suas vidas sem o que mais queriam: filhos.

Como é possível isso manter a fé numa situação dessas? Como continuar confiança quando se ao nosso redor as coisas parecem dizer que nossos sonhos e desejos serão frustrados? O anjo que anunciou a Zacarias a gravidez de Isabel nos revela como eles mantiveram a fé nesses dias difíceis:

Lucas 1.13 NVI

13 Mas o anjo lhe disse: “Não tenha medo, Zacarias; sua oração foi ouvida. Isabel, sua mulher, lhe dará um filho, e você lhe dará o nome de João.

Isabel e seu esposo viveram longos anos de espera e enfrentaram as frustrações dos sonhos não realizados perseverando na oração. Eles se encheram da convicção de que o Senhor é digno de confiança e que seus desígnios sobre nós são o melhor que podemos viver.

Essa não é um oração de resultado. Não é uma forma de se obter o que se quer, mas um jeito de se aproximar daquele que conhece tudo a nosso respeito e sempre age em nosso favor. Alexander White, ao comentar sobre Isabel no seu livro Personagens Bíblicos, afirma o seguinte:

“Povo de Deus, [vocês] que estão preteridos, decepcionados e empobrecidos. Orem e não desistam. Orem, pois a oração e muito melhor que a resposta.”

Quando o curso da vida nos frustra, a melhor resposta é buscar ao Senhor em oração. Decidir confiar a Ele os nossos sonhos e esperanças, aguardando com alegria sua boa, perfeita e agradável vontade vir sobre nós.

A notícia do milagre

Isabel e Zacarias, por fim receberam o que pediram a Deus. Ambos envelheceram até ver suas orações atendidas. Será que vale a pena? O que eles ganharam durante esse tempo? Eles aprenderam a ser perseverantes na confiança e a esperar enquanto Deus movimenta as engrenagens da sua vontade.

No tempo certo para todos que estavam envolvidos nesse drama em particular, eles receberam a notícia de que o sonho frustrado e esquecido iria acontecer… “Sua oração foi ouvida. Isabel, sua mulher, lhe dará um filho”. Certamente isso os encheu de alegria.

Por outro lado, o anúncio do anjo, e por fim a gravidez de Isabel, revelam que o casal, mesmo unidos naquilo que viveram, lidava de forma diferente com a frustração que os consumiu por tanto tempo.

Zacarias - Como será isso?

Ao ouvir o anjo, Zacarias exigiu provas. Para ele as evidências da impossibilidade eram incontestáveis: “eu e minha mulher somos agora dois idosos”. Não era mais tempo, talvez pensasse Zacarias. O vigor da sua juventude, e de sua esposa Isabel, já havia passado. O anjo tinha se atrasado… uns quarenta anos.

As vezes oramos ao Senhor colocando nossas angústias e necessidades por algum tempo. Depois, constrangidos pelo silêncio de Deus, pela demora, pela aparente insensibilidade do todo poderoso, paramos de orar e até nos esquecemos do assunto. Mas o Senhor não esquece nossas orações; no tempo certo ele age, sempre para o reconhecimento de sua presença entre nós (louvor da sua glória).

Isabel - Isto é obra do Senhor

Depois do anúncio feito pelo anjo e contra todas as possibilidades humanas, Isabel engravidou. Assim como Zacarias, ela também já havia desistido. Ela confiou no Senhor por décadas e continuava confiando, mas sua oração já não pedia, apenas se entregava à vontade Deus.

As coisas não foram como Zacarias e Isabel planejaram e sonharam. Não foi como as famílias deles esperavam. Não foi no tempo em que essas coisas normalmente acontecem. Foi do jeito e no tempo que Deus se propôs a fazer, sincronizando Sua obra na vida de todas as pessoas envolvidas.

Os milagres de Deus nunca são apenas para nós. Ele não trabalha de forma linear. Quando nos entregamos à vontade dele temos a certeza de que o melhor dele vai acontecer; não apenas para nós, mas para todos aqueles que estão em nossa teia de relacionamentos.

O que significa isso?

Para concluir nossa reflexão de hoje vejamos detalhadamente como Isabel lidou com a realização de seu sonho. Para isso quero recuperar dois momentos em que Isabel, ao se deparar com agir de Deus em sua vida, reflete sobre o que estava acontecendo com ela. O que significam essa coisas pelas quais eu estou passando?

Lucas 1.23–25 NVI

23 Quando se completou seu período de serviço, ele voltou para casa. 

24 Depois disso, Isabel, sua mulher, engravidou e durante cinco meses não saiu de casa. 

25 E ela dizia: “Isto é obra do Senhor! Agora ele olhou para mim favoravelmente, para desfazer a minha humilhação perante o povo”.

Isabel não cabia em si de contentamento e assombro. Aquilo ela tão surpreendente que ela precisou de um tempo para processar. Durante os cinco primeiros meses, ela se recolheu a sua casa, que ficava possivelmente nas colinas do monte Hebron, próximo a Jerusalém.

Isso é sobre mim

Isabel reconheceu sua gravidez com uma intervenção graciosa de Deus. E enquanto refletia sobre o milagre que é uma mulher idosa conceber um filho, ela enxergou sua gravidez como um cuidado de Deus em relação a ela: finalmente sua orações foram respondidas e ela deixará de ser aquela que não tem filhos.

Quase sempre, quando refletimos sobre o que nos acontece da parte de Deus, a primeira camada de compreensão que nos vem diz respeito a nós mesmos. É como se o mundo girasse em torno da gente, como se Deus existisse para nós e para nossas necessidades. Interpretamos o mundo a partir de nós mesmos.

Fazer isso não é errado em si mesmo, mas não pode ser nossa estação final. Podemos começar, como Isabel, pensando no significado das lutas, dores, alegrias, sonhos realizados e frustrados, a partir de nós mesmos, mas existem outras camadas de significado que precisam ser exploradas, sob pena de nos tornarmos egoístas e autocentrados.

A teia do agir de Deus

Para avançarmos em direção a ampliar o significado daquilo que Deus faz em nossas vidas, precisamos nos dar conta de que não estamos sós nesse mundo. Deus não é apenas no nosso Deus, mas o regente de todo universo. Talvez por isso, Lucas corta a cena e deixa Isabel refletindo sobre o milagre de sua gravidez, enquanto abre uma nova janela para vermos Maria recebendo a visita do mesmo anjo, Gabriel.

Gabriel anuncia que Maria ficaria grávida pela virtude do Espírito Santo. Ele encoraja Maria, que responde com um lindo cântico de fé e confiança no agir de Deus. Depois o anjo tira algumas dúvidas de Maria. 

A fala do anjo é como se ele dissesse “não se preocupe, Maria. Deus está colocando seu plano em movimento. Muitas coisas aconteceram antes de eu vir falar com você e muitas outras acontecerão depois que eu sair daqui. As coisas que estão acontecendo com você são parte de algo maior, do qual você faz parte!” E para demonstrar isso de forma prática, ele emenda sua fala com a seguinte informação:

Lucas 1.36 NVI

36 Também Isabel, sua parenta, terá um filho na velhice; aquela que diziam ser estéril já está em seu sexto mês de gestação.

Esse agir multifacetado de Deus pode parecer confuso enquanto a gente está vivendo as tramas de nossas vidas, mas depois se tornará motivo de adoração ao Senhor, quando percebermos que Ele conduz a história para a glória do seu nome e alegria de seus filhos.

É bem possível que o coração de Maria tenha se enchido de alegria ao saber que ela não estava só naquele mover de Deus. E como é maravilhoso isso, sobretudo quando pessoas que amamos também fazem parte do grande plano Deus e que estamos juntos servindo a Ele… Que alegria! Que satisfação. Talvez por isso, Maria decidiu visitar sua prima Isabel.

Isso é sobre Deus

Enquanto tudo aquilo acontecia com Maria, Isabel vivia o sexto mês de gestação. Esse foi o tempo necessário para que ela se abrisse à ideia de que o agir de Deus na vida dela não era apenas por ela, mas fazia parte de uma complexa teia de intervenções divinas.

Maria entrou na casa de sua prima e disse um “Ô de casa”, avisando que tinha chegado. Quando Isabel ouviu, o bebê em seu ventre agitou-se e ela, Isabel, foi guiada (cheia) pelo Espírito Santo:

Lucas 1.42–45 NVI

42 Em alta voz exclamou: “Bendita é você entre as mulheres, e bendito é o filho que você dará à luz! 

43 Mas por que sou tão agraciada, ao ponto de me visitar a mãe do meu Senhor? 

44 Logo que a sua saudação chegou aos meus ouvidos, o bebê que está em meu ventre agitou-se de alegria. 

45 Feliz é aquela que creu que se cumprirá aquilo que o Senhor lhe disse!”

Depois de seis meses, refletindo sobre o agir de Deus em sua vida, Isabel não olha mais apenas para si mesma. Aquela senhora não está mais presa à reparação da sua dor. Ela não tem necessidade de anunciar o que Deus fez por ela.

No verso 42 vemos que Isabel, a anciã, abençoa Maria e confirma pelo Espírito Santo a gravidez da jovenzinha. Ela abençoa a criança que está sendo gerada; não o seu filho, mas o filho de sua prima. Ao mudar o foco, Isabel já fala no compasso do evangelho será anunciado por Jesus. Suas ações já são conforme o ensino que o menino vai trazer.

No verso 43 encontramos Isabel, descendente de sacerdotes e casada com um sacerdote, olhando para si mesma com humildade. Ela começa a entender que o milagre de Deus em sua vida não diz respeito apenas a ela e ao marido, mas está inserido dentro de mover de Deus para salvar. Mais que isso, ela reconhece a si mesma como necessitada desta salvação, o que está completamente alinhado com a mensagem de Cristo.

No verso 45 Isabel, experiente no caminho que ensina confiar no Senhor, encoraja a jovem Maria, que dá seus primeiros passos nessa jornada. “Deus cumpre aquilo que promete, Maria, pode confiar”. Isabel não precisa mais chamar atenção para si mesma. Sua vida, seu casamento, seu filho, tudo é parte do grande plano de Deus.

Conclusão

Isabel desistiu de esperar. Sem remorso, sem raiva, ela apenas parou de pedir. Isabel desistiu de esperar, mas Deus não desistiu dela. Na grande teia do agir de Deus ela tinha um papel para cumprir. 

Isabel aprendeu que a integridade não é moeda de troca para obtermos a realização de nossos sonhos, mas nossa resposta ao amor de Deus por nós; que ser integro não produz créditos no céu.

Isabel aprendeu que não estava no centro do agir de Deus. Que a benção de Deus se derrama sobre todos ao nosso redor, e que o tempo do agir de Deus é o ponto ótimo da sua intervenção amorosa sobre todos.

Isabel aprendeu que Deus é confiável, e que é um privilégio fazer parte do seu grande plano de salvação.

Que o Senhor nos ajude a prosseguir na mesma direção que Isabel deu para sua vida.