02 novembro 2008

Que igreja seremos - Separados pela religiosidade



Introdução

Se queremos ser uma igreja que ama, se queremos ser pessoas que amam e não pessoas que rejeitam, precisamos reconhecer que há uma armadilha que está sempre bem perto de nós, pronta para se tornar uma grande muralha a nos separar um dos outros e assim nos impedir de amar. Essa armadilha é a religiosidade.

Se você observar os evangelhos, verá que Jesus era doce e sensível com os pobres, oprimidos, rejeitados, com os sem esperança, desacreditados e excluídos; mas quando os religiosos apareciam, as palavras do Mestre eram firmes e contundentes.

Os religiosos nunca foram afagados por Jesus porque a religiosidade é capaz de separar as pessoas e sufocar o amor. Hoje vamos escutar juntos uma das pregações mais contundentes que Jesus fez sobre os males da religiosidade. Capítulo 23 de Mateus.



(1) Então Jesus disse ao povo e aos seus discípulos: (2) "Vocês pensariam que estes líderes dos judeus e estes fariseus são Moisés, pela maneira como eles continuam fazendo tantas leis! (3) Pode ser muito correto fazer o que eles dizem, mas acima de qualquer outra coisa não sigam o exemplo deles. Porque eles não fazem o que mandam vocês fazerem.

(4) Exigem de vocês coisas impossíveis que eles nem tentam observar. (5) Tudo o que fazem é para se mostrar. Eles se fingem de santos, levando nos braços grandes caixas de orações com versículos das escrituras dentro, e alongando as barras memoriais dos seus mantos.

(6) E como gostam de tomar os principais lugares nos banquetes, e nos bancos reservados na sinagoga! (7) Como apreciam a consideração que se presta a eles nas ruas, e gostam de ser chamados de 'mestre'!

(8) Nunca deixem que alguém chame vocês assim. Porque somente Deus é o Mestre e todos vocês estão no mesmo nível, como irmãos. (9) Não se dirijam a ninguém aqui na terra chamando de 'Pai', (10) porque somente Deus no céu deve ser chamado de 'Mestre', porque somente um é mestre de vocês, isto é, o Messias. (11) Quanto mais humilde for o serviço de vocês aos outros, maiores vocês serão. Para ser o maior de todos, é preciso ser servo. (12) Mas aqueles que se acham grandes, sofrerão desapontamentos e humilhação; e aqueles que se humilham serão engrandecidos. (Mat 23:1-11 - BV)


Somos nós os religiosos?


Ao falar ao povo, Jesus disse claramente quem eram os religiosos de quem ele estava falando. Na primeira parte de sua pregação, ele estava falando para o povo comum do meio da rua, e para os seus discípulos, sobre o procedimento daqueles que freqüentavam as sinagogas em um dia especial da semana, que se consideravam cumpridores de todas as regras religiosas, e por isso pessoas melhores que o restante dos seres humanos, mas ainda assim viviam longe de Deus e das pessoas.

Eu não sei você, mas quando eu leio as palavras de Cristo sobre os religiosos de seu tempo fico logo indignado: ô gente terrível! Um bando de cegos que não entendia a mensagem de Cristo! Que gente doente! Que gente cruel e sem amor. Rapidamente apontamos o dedo. Rapidamente acusamos. Rapidamente vemos a loucura que a religiosidade pode causar.

Mas, observando mais de perto a descrição que o Senhor fez, é como se um espelho fosse colocado na frente da Igreja e pudéssemos enxergar nas palavras de Cristo a nós mesmos: religiosos do século XXI.

(A) Continuam fazendo leis

(1) Então Jesus disse ao povo e aos seus discípulos: (2) "Vocês pensariam que estes líderes dos judeus e estes fariseus são Moisés, pela maneira como eles continuam fazendo tantas leis!

Os religiosos só se sentem seguros cercados de muitas leis. O ambiente cheio de normas aquieta o coração dos religiosos porque isso lhes dá a sensação de controle diante da complexidade da vida. Se não houver uma lei para determinada situação, os religiosos criarão uma nova lei. E em pouco tempo, essa nova lei será mais forte do que eles mesmos: Isso é religiosidade. Quando os religiosos criam suas leis para se sentirem mais seguros, as pessoas são esquecidas.

(B) Não cumprem suas própria leis

(3) Pode ser muito correto fazer o que eles dizem, mas acima de qualquer outra coisa não sigam o exemplo deles. Porque eles não fazem o que mandam vocês fazerem.

A religiosidade sempre aponta o outro, raramente aponta para si mesmo. Por isso os religiosos são capazes de contar exemplos poderosos sobre outras pessoas, mas nada têm a falar sobre si mesmos, e não é por modéstia e por que não têm experiência própria. Aqueles que vivem no mar da religiosidade podem orientar outros, mas não conseguem falar na primeira pessoa (Eu) porque suas almas estão fechadas para admitir que são limitados e dependentes.

(C) Exigem o impossível

(4) Exigem de vocês coisas impossíveis que eles nem tentam observar.

Os religiosos do tempo de Jesus criaram centenas de leis para garantir que mandamentos dados por Deus fossem obedecidos. Doutores e mestres eram necessários para conciliar todas as essas leis e explicar algo humanamente impossível: como uma pessoa comum poderia cumprir todas aquelas normas.

A religiosidade se esconde atrás dos grandes esforços. O sofrimento diante dos sacrifícios impossíveis é uma das moedas da religiosidade. Alguns religiosos se alimentam exigindo que outros alcancem o inalcançável, ainda que eles mesmos nem tentem fazer; outros se alimentam com o sofrimento de tentar alcançar o inalcançável. Quem vive em torno do impossível (exigindo ou tentando cumprir), não consegue amar, nem ser amado.

(D) Fingem ser santos

(5) Tudo o que fazem é para se mostrar. Eles se fingem de santos, levando nos braços grandes caixas de orações com versículos das escrituras dentro, e alongando as barras memoriais dos seus mantos.

A religiosidade anda de mãos dadas com a negação. Os religiosos têm dificuldade para admitir que são pessoas falhas, que erram o tempo todo e que suas vidas não são assim perfeitas como os outros imaginam. Por isso, os religiosos criam formas de parecem santos: vestem-se como santos, falam como santos, gesticulam como santos... Não que haja roupa, fala ou gestos que sejam característicos dos santos, mas a religiosidade é exatamente assumir que essas coisas existem.

Religiosidade é negação. Religiosos negam e encobrem o próprio rosto, como fez Moisés quando o brilho da glória de Deus estava se desvanecendo do seu rosto. Religiosos acham que serão respeitados se parecerem santos e acabam vivendo uma farsa que os afasta das pessoas, impedindo-as de amar.

(E) Gostam de destaque

(6) E como gostam de tomar os principais lugares nos banquetes, e nos bancos reservados na sinagoga!

A vida religiosa torna o religioso um auto-enganado a respeito de suas limitações. Então os religiosos passam a gostar do destaque como uma forma de manter o seu engano. Alguns gostam de aparecerem publicamente e lutam por isso, outros são mais reservados buscam o destaque pela excentricidade ou pelo afastamento das pessoas, o que faz deles mitos intocáveis.

De uma forma ou de outra, no coração do religioso, o destaque é uma cortina de fumaça que encobre por mais um pouco de tempo o ser humano que ele é, carente de Deus.

(F) Apreciam as deferências

(7) Como apreciam a consideração que se presta a eles nas ruas, e gostam de ser chamados de 'mestre'!

A religiosidade anda de mãos dados com os títulos e as posições. Os religiosos sentem-se protegidos atrás do reconhecimento das posições que ocupam. A religiosidade criou uma hierarquia de valor: não basta ser um servo de Cristo. Para sentir-se bem, o religioso precisa avançar rumo a reconhecimentos considerados superiores: diácono, evangelista, pastor, missionário, apóstolo e quem sabe “paipóstolo”, como se auto-denomina René Terranova .

A religiosidade usa os títulos para tentar preencher o vazio da alma que precisa ser amada assim como está. Quando os religiosos buscam os títulos e as comendas afastam-se das pessoas e tornam o amor impossível de acontecer.

(A) Continuam fazendo leis
(B) Não cumprem suas própria leis
(C) Exigem o impossível
(D) Fingem ser santos
(E) Gostam de destaque
(F) Apreciam as deferências

Será que nos tornamos os religiosos do século XXI? Será que a religiosidade encontrou lugar em nossas vidas e se instalou em nossas igrejas? Será que trocamos o evangelho simples de Cristo por nossas próprias leis e regras? Será que estamos impondo sobre os outros pesos que nós mesmos não levamos? Será que nos tornamos pessoas fingidas e não admitimos quem nós somos? Será que temos encoberto tudo isso pela cortina das deferências e reconhecimentos?

Como não se tornar religioso?

Qual a saída para que a igreja não continue a ser um foco de religiosidade que impede as pessoas de chegarem até ao Senhor? Como podemos nos tornar uma ponte em vez de um muro? Não há nenhum programa miraculoso para isso, nem tampouco adiantará participar de simpósios, congresso e encontros.

No entanto, Jesus afirma que existe uma chave com três segredos para vencermos a religiosidade e tornarmos o amor a marca maior de nossas vidas: reconhecermos que somos uma família de iguais, que temos um Pai amoroso e que temos um guia que nos levará até Ele, seu filho Jesus Cristo.

(8) Vós, porém, não sereis chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos. (9) A ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque só um é vosso Pai, aquele que está nos céus. (10) Nem sereis chamados guias, porque um só é vosso Guia, o Cristo. (Mat 23:11,12 - ARA)

(A) Somos uma família de irmãos

(8) Vós, porém, não sereis chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos.

Eu já tenho falado aqui sobre a perda do significado da expressão irmão ou irmã em nossas igrejas. Irmãos não podem ser escolhidos, irmãos são recebidos. Irmãos não deixam de ser irmãos por nenhuma razão. Nós nos chamamos de irmãos porque fomos gerados pelo mesmo Espírito. Uma nova natureza foi formada em cada um de nós através da fé em Jesus Cristo e isso nos faz iguais.

Temos um mesmo pai, temos um mesmo Espírito, temos uma mesma herança, fomos amados com a mesma intensidade, somos corrigidos com o mesmo amor. Fomos alcançados pela mesma Graça, seremos transformados à mesma semelhança de Cristo. O destino eterno que nos espera é o mesmo, e o louvor que sairá de nossos lábios adorará o único Deus Verdadeiro, Pai de todos.

A religiosidade não tem espaço quando nos consideramos uma família de irmãos. Esse é o ambiente em que o amor tem lugar.

(B) Temos um mesmo pai

(9) A ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque só um é vosso Pai, aquele que está nos céus.

A religiosidade é vencida com uma atitude de submissão ao Pai. Quando os filhos buscam para si a posição e a autoridade que competem ao pai, a família com certeza vai sofrer. Temos um pai que é presente. Não precisamos nos tornar a nós mesmos pais, nem tratar como pais qualquer um de nossos irmãos.

Comunique suas necessidade aos irmãos, mas clame antes de tudo ao Pai celeste. Compartilhe com os irmãos, mas confesse primeiro ao pai do céus. Conte com os irmãos, mas confie sobretudo nas palavra do seu Pai eterno. Confiar no Pai nos livra da religiosidade. É o amor do Pai que nos tornará capazes de amar nossos irmãos. João diz que nos amamos porque Ele nos amou primeiro.
Quando o amor do pai se torna um referencial para cada um de nos, então a religiosidade não encontrará oxigênio para sobreviver e estaremos nos tornando um igreja que ama.

(C) Cristo é o nosso guia

(10) Nem sereis chamados guias, porque um só é vosso Guia, o Cristo.

Por fim a religiosidade é banida da vida da igreja, e de nossas vidas, quando Cristo e apenas Cristo se torna o nosso guia.

Ter Cristo como guia e colocar-se atrás dele. Segui-lo para onde ele for. Ter Cristo como guia é não se aventurar sozinho pelo caminho, mas esperar até que Ele se levante e ir após ele. Cristo é o guia porque ele sabe a direção e o caminho. Ele viveu aqui as mesmas dores e sofrimentos que vivemos. Ele conhece o caminho que leva ao pai, porque Ele mesmo é esse caminho. Cristo aprendeu o caminho pela obediência para que pudesse agora ser nosso guia.

Quando decidimos depender de Cristo como nosso guia, não há espaço para religiosidade. Aí nos tornamos pessoas que amam. Aí nos tornaremos uma igreja que ama.
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