06 agosto 2006

Em espírito e em verdade - Parte 1

Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores. (João 4:23 ARA)

A mulher do poço

A região se chamava Samaria e o vilarejo é conhecido como Sicar, perto das terras que Jacó dera a seu filho José.

O céu amanhecera sem nuvens e prometia um dia com muita luz, mas o coração daquela mulher era o mesmo da noite anterior, a mesma busca de ontem e anteontem, mais um dia procurando significado para a vida.

Envolveu-se com os afazeres de casa até que chegasse a hora de ir ao poço próximo da cidade e buscar água sem o desconforto de encontrar com outras pessoas e mais uma vez sentir-se desprezada pelos olhares e comentários sussurrados.

Próximo dali, na Judéia, ele decidiu virar as costas para a fama, literalmente fugir dela. Os comentários eram de que ele batizava mais discípulos que o seu primo João, reconhecido por todos como um grande profeta. Fugiu da fama com um grupo de amigos e foi em direção à Galiléia.

Sol a pino, cansado da viagem, parou em um poço próximo a Sicar. Foi quando ela chegou para pegar água. É sempre assim: o calor do meio dia afugenta a todos e assim ela pode pegar água sem ser incomodada; por isso ficou surpresa quando de longe viu que havia outra pessoa próxima ao poço. Quando chegou, surpresa maior: um judeu.

Ele pediu água. Ela ficou quase indignada e lembrou que ele era judeu e ela samaritana; que ele era homem e ela era mulher. Enfim, aquela conversa não deveria estar acontecendo!

Ele insistiu! Falou que tinha um tipo de água que mata a sede para sempre. Ela ficou confusa. Que água era aquela que mataria a sede para sempre? Como ele poderia tirar água do poço se não tinha nada nas mãos para isso?! Quem era esse homem que dizia ter algo melhor para oferecer?

Ele insistiu novamente! Falou que a água do poço mata a sede mas só por um momento; a água viva, que ele tem pra dar, mata a sede para sempre. Ela não teve dúvidas! Imagine não ter que ir todos os dias, sol a pino, buscar água pra matar a sede! Imagine não correr o risco de ser desprezada com os olhares e humilhada com as palavras! Oh, Senhor dá-me dessa água!

Ele começou a se aproximar. Sugeriu que ela fosse chamar seu marido para os dois receberem dessa água. Ela se entristeceu. Não tinha marido. Sua vida amorosa e familiar tinha sido um desastre. Trocara tantas vezes de companheiro e por motivos tão fúteis que não sabia mais o que era ser amada.

Ele chegou mais perto: Já tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu. Ela ficou impressionada, mas sentiu-se ameaçada. Como aquele estranho sabia sobre a sua vida? Sua história havia ultrapassado as fronteiras ou aquele homem era um tipo de profeta? Quem sabe o messias prometido? Ninguém jamais havia falado de forma tão direta sobre o estado da sua vida, mas como permitir que aquele homem se aproximasse de seus sentimentos mais profundos da sua alma?

Ela lembrou que ele era judeu. Lembrou que havia uma linha divisória entre eles. Era assim que ela o afastaria! Nós adoramos aqui no monte, vocês adoram em Jerusalém. Vocês são judeus, nós samaritanos. Escondido no argumento, um pedido: por favor, não chegue mais perto do meu coração!

Ele contornou o obstáculo. O lugar não era importante. Vai chegar um tempo em que a adoração a Deus acontecerá fora de Jerusalém e longe desse monte. Aí não vai fazer diferença quem é judeu ou samaritano. Ela ouvia curiosa.

Ele explicou melhor. Deus procura verdadeiros adoradores. Não é o lugar de adoração que torna um adorador verdadeiro, não é assim que Deus avalia. O que faz verdadeiro o adorador é qualidade da adoração. Ela ouvia atenta.

Ele continuou explicando. Adorar não é apenas cumprir os rituais da lei. A lei mata; o espírito vivifica. O próprio Deus é espírito e se alegra quando encontra adoradores que o adoram em espírito; não para cumprir formalidade, não pela obrigação do medo, não para obter favores.

Ele se alegra quando encontra adoradores que o adoram em verdade; adoração sem fingimento do que se é, adoração sem farsa do que se vive, adoração sem falsidade no falar.

Ela foi tocada pelas palavras daquele homem. Adorar a Deus de espírito livre e sem esconder quem era! Essa era a sua esperança com a vinda do messias.

Poder abrir o coração diante de alguém que conheça os detalhes da sua vida e ainda assim lhe receba; chorar suas dores e angústias para alguém que saiba o que elas significam; lamentar pos seus erros e clamar por consolo! Ela não tinha dúvidas: isso sim, poderia saciar a sede da sua alma!

Mas apenas o Cristo de Deus, o messias prometido, o salvador esperado poderia ser a água para matar essa sede. Ela baixo a cabeça.

Ele olhou para ela e disse: Eu o sou, eu que falo contigo.

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Durante esse mês de agosto o tema principal das nossas reflexões será adoração. É triste constatar que em nossos dias o entendimento de um grande número de evangélicos sobre o que é adoração não tem qualquer relação com o ensino da palavra de Deus.

Pra muita gente adoração é sinônimo de cantar. Talvez um dos grandes responsáveis por essa confusão sejam os departamentos de marketing das gravadoras evangélicas que se utilizam massivamente dessa conexão entre adoração e música para vender seus produtos. Uma música pode ser ou não uma expressão de adoração, mas adorar é muito mais que cantar.

Pra outras pessoas adoração é sinônimo de culto, de cerimônia, de liturgia. Esse foi o resultado de um caminho tortuoso trilhado pela igreja, que durou muitos século e que vamos tentar compreender mais à frente. A cerimônia ou a liturgia podem ou não ser adoração. Mas adorar não pode estar restrito aos momentos formais de culto.

A origem da palavra

No antigo testamento a palavra hebraica traduzida quando o contexto é a adoração é bhôdâ, já no novo testamento a palavra grega utilizada é latreia. Ambas as palavras originalmente foram usadas para falar do trabalho realizado por um escravo ou servo.

Acontece que o servo ou escravo era alguém cuja vida inteira e todas as horas do dia estavam à disposição do seu Senhor. A situação era bem diferente do trabalho assalariado dos nossos dias em que você vende algumas horas do dia por um preço contratado. O servo pertencia ao seu senhor e viva para servi-lo. Em sua origem, então, a adoração a Deus está intrinsecamente ligada ao conceito de uma vida inteira dedicada a Ele. O servo colocava a vida ao serviço do seu senhor porque pertencia a ele.

Na história antiga muitos senhores não eram dignos do serviço prestado por seus servo e escravos. Eram cruéis e sanguinários, sem nenhum respeito pela via humana. Mas havia senhores bondosos, capazes de se compadecer com o sofrimento de seu servos.

De qualquer forma, o serviço de um era o reconhecimento da posição do outro. A adoração a Deus guarda semelhanças com essa situação porque ela surge quando reconhecemos e afirmamos o caráter de Deus em nossas vidas.

Deus é adorado quando reconhecemos que ele é amor e transborda amor. Deus é adorado quando falamos da sua bondade sem fim e vivemos vidas onde essa bondade tem espaço. Deus é adorado quando reconhecemos que Ele é um Deus justo, e fazemos isso através da prática da justiça. Deus adorado quando reconheço a misericórdia de Deus pra comigo. Deus é adorado quando falo a todos da fidelidade Deus a sua própria natureza. Deus não nega a si mesmo.

(1) Exaltar-te-ei, ó Deus meu e Rei; bendirei o teu nome para todo o sempre. (2) Todos os dias te bendirei e louvarei o teu nome para todo o sempre. (3) Grande é o SENHOR e mui digno de ser louvado; a sua grandeza é insondável. (4) Uma geração louvará a outra geração as tuas obras e anunciará os teus poderosos feitos. (5) Meditarei no glorioso esplendor da tua majestade e nas tuas maravilhas. (6) Falar-se-á do poder dos teus feitos tremendos, e contarei a tua grandeza. (7) Divulgarão a memória de tua muita bondade e com júbilo celebrarão a tua justiça. (8) Benigno e misericordioso é o SENHOR, tardio em irar-se e de grande clemência. (9) O SENHOR é bom para todos, e as suas ternas misericórdias permeiam todas as suas obras. (10) Todas as tuas obras te renderão graças, SENHOR; e os teus santos te bendirão. (Salmos 145:3 – 10 ARA)

A vida em adoração

Essa é a adoração da vida, é a vida é adoração. Adoração em espírito e em verdade. Ela não espera lugar apropriado e não divide a vida em compartimentos com e sem adoração. Ela não se prende a liturgia e nem depende da música. A adoração em espírito e em verdade acontece quanto a presença de Deus inunda a vida por completo.

Era assim que os patriarcas do antigo testamento entendiam a adoração a Deus. Era assim que jacó, aquele que fez o poço onde a nossa história começou entendia a adoração a Deus.

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Ela o ouviu dizer que era o messias. O seu coração palpitou forte. Ela jamais se acharia digna de vê-lo face a face, mas era verdade. Ele estava ali. Ela largou o cântaro e correu para a cidade. Ele viu a alegria em sua face e também se alegrou.

Ela não podia guardar a notícia, contou para outras pessoas. Ela não podia adorá-lo sozinha, chamou outros para confirmarem com ela: ali estava o messias. A água viva que mata a sede da alma.
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