01 abril 2008

Esperança Cristã – O ser humano e a eternidade - 3/4

Introdução

O evangelho de Jesus não pode resultar em desequilíbrio em nossa visão do mundo e das pessoas. Jesus apresentou uma mensagem coerente e capaz de dar sustentação para todas as dimensões da vida.

Um dos grandes problemas que enfrentamos em nossos dias é o desequilíbrio. Há quem veja Deus apenas como amor; um Deus meio bobo, incapaz de ser justo e firme. Há vem veja o Senhor como um juiz impiedoso e pronto a punir, incapaz de amar e exercer misericórdia.

Toda vez que vemos apenas uma parte do caráter de Deus, estamos vendo uma caricatura dele. A imagem de Deus se torna mais próxima da realidade à medida que vamos enxergando a plenitude de sua natureza: santo, verdadeiro justo, todo-poderoso, fiel, amor, misericordioso, perfeito, compassivo, perdoador... É preciso juntar tudo, senão ficamos apenas com uma caricatura de Deus.

Da mesma forma, hoje pela manhã, precisamos equilibrar a Esperança nas promessas de Deus (vida eterna, o retorno do Senhor e a ressurreição dos mortos) e um viver que não foge da dura realidade do mundo em que Ele nos colocou.

A Esperança Cristã não é um escapismo, uma fuga da vida, pelo contrário. A esperança que temos no futuro prometido por Deus para nós deve nos levar a viver hoje, de forma intensa, os valores do Reino de Deus.

A Esperança que temos não pode transformar a vida em um filme preto e branco, mas precisa realçar todas a cores de nossa realidade.

O maior dos mandamentos

Há muitos crentes que, ao descobrirem as promessas de Deus sobre a eternidade, se tornam orgulhos e cheios de empáfia. Usam a certeza de sua salvação em Cristo para ameaçar e intimidar. Quem faz assim, ainda não entendeu a natureza da salvação. Não compreendeu que fomos salvos por Cristo através da fé, isso não vem de nós, é um dom de Deus.

Na verdade, muitos crentes, vivem em buscas de experiências com Deus, mas evitam se relacionar com as pessoas. Falam para todos sobre o seu amor por Deus, mas são incapazes de transformar esse amor em ações práticas em favor dos outros.

O que é mais importante: Amar a Deus ou amar ao próximo? O que faz mais bem para nossas almas: a esperança da eternidade ou a transformação da realidade? Será que realmente precisamos escolher? A palavra de Deus nos garante que não precisamos nem devemos separa uma coisa da outra.

Quando Jesus respondeu à pergunta dos fariseus sobre o maior dos mandamentos, deixou isso bem claro. O amor a Deus anda de braços dados como o amor às pessoas em nossa volta. Não podemos viver ligados na eternidade futura e desligados da realidade presente.

(34) Os fariseus, quando souberam, que ele fizera emudecer os saduceus, reuniram-se todos; (35) e um deles, doutor da lei, para o experimentar, interrogou- o, dizendo: (36) Mestre, qual é o grande mandamento na lei? (37) Respondeu-lhe Jesus: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. (38) Este é o grande e primeiro mandamento. (39) E o segundo, semelhante a este, é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. (Mat 22:34-39)

Jesus coloca o amor ao próximo em pé de igualdade com o amor a Deus porque são as duas faces de uma mesma moeda. São diferentes, mas não podem ser separados um dos outros.

Como tem sido com você? O seu amor por Deus pode ser visto no amor pelas pessoas à sua volta, ou o outro lado da sua moeda é apenas o seu amor por você mesmo?

Crianças famintas e sem futuro precisam do seu amor.

Idosos abandonados em asilos precisam do seu amor.

Pequeninos sem teto para morar precisam do seu amor

Meninas que vendem seus corpos na beira-mar precisam do seu amor.

Jovens consumidos pelas drogas precisam do seu amor.

Cidades acorrentadas à idolatria precisam do seu amor.

Casais que desistiram de se amar precisam do seu amor.

Famílias despedaçadas pelo ódio precisam do seu amor.

A eternidade começa agora. O reinado de Cristo, que será pleno na eternidade deve começar agora em nossas atitudes, em nossa maneira de viver, na prática de um amor que se importa com os outros. Esse é um grande desafio para o nosso egoísmo. Deus quer usar a mim e a você para mudar a difícil realidade daqueles que sofrem.

Uma questão de coerência

O apóstolo João foi um dos mais próximos de Jesus durante seu ministério. Talvez ele fosse o mais jovem dos discípulos. Suas palavras sobre esse assunto são um chamado à coerência.

(20) Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, não pode amar a Deus, a quem não viu. (21) E dele temos este mandamento, que quem ama a Deus ame também a seu irmão. (1Jn 4:20-21)

João é muito direto. Seguindo com a nossa ilustração, a questão é que se uma das faces da sua moeda for o amor a Deus, mas na outra face não estiver o amor pelo seu irmão, então sua moeda e falsa. Que amor é esse que existe apenas para Deus, mas não se transforma em atitude para seu irmão?

Será que temos sido coerentes? As moedas que temos conosco são verdadeiras ou falsas? Qual será nossa resposta às palavras do Espírito através do apóstolo?

A esperança cristã não pode ser egoísta. Não podemos guardar esse tesouro, que é a vida abundante prometida por Deus, apenas para nós. A esperança da eternidade não pode nos acomodar, mas deve nos mover em direção aos nossos irmãos com atitudes de amor.

Foi assim com Cristo. A certeza das promessas do Pai o levou a enfrentar a cruz. Ele abriu mão do conforto da eternidade para se fazer homem, viver as limitações humanas para assim se identificar conosco.

(4) não olhe cada um somente para o que é seu, mas cada qual também para o que é dos outros. (5) Tende em vós aquele sentimento que houve também em Cristo Jesus, (6) o qual, subsistindo em forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus coisa a que se devia aferrar, (7) mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens;

(8) e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. (Php 2:4-8)

Esperança que não se serve

No capítulo 2 de sua carta, Tiago fala de um tipo de fé que não serve para nada. É uma fé estéril, incapaz de gerar vida. A Esperança Cristã não pode produzir esse tipo de fé. Não podemos olhar para o futuro maravilhoso prometido por Cristo e nos esquecermos daqueles que passam necessidades ao nosso lado.

A nossa confiança no Senhor para a Eternidade não pode nos alienar. Não podemos viver como se miséria, fome, exploração, desnutrição, desemprego, baixa escolaridade, assassinatos, assaltos, roubos, estupros e tantas outras mazelas da nossa cidade não existam ou não nos digam respeito. A Esperança na eternidade, na segunda vinda de Cristo ou na ressurreição não pode me levar a viver em um mundo de fantasia. A Esperança age enquanto espera a concretização da promessa.

(14) Que proveito há, meus irmãos se alguém disser que tem fé e não tiver obras? Porventura essa fé pode salvá-lo? (15) Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e tiverem falta de mantimento cotidiano. (16) e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito há nisso? (17) Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma. (18) Mas dirá alguém: Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me a tua fé sem as obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras. (19) Crês tu que Deus é um só? Fazes bem; os demônios também o crêem, e estremecem. (20) Mas queres saber, ó homem vão, que a fé sem as obras é estéril? (Jas 2:14-20)

Quando Deus lhe devolveu a eternidade, isto é, quando a vida eterna lhe foi concedia por meio da fé em Cristo, não era a intenção do Senhor lhe transferir direto para o céu. Ele fez isso apenas com duas pessoas, Enoque e Elias. O resto de nós deve começar a viver a eternidade agora. Isso que dizer que somos chamados a implantar os valores do Reino de Deus em nossos relacionamentos com as pessoas agora mesmo.

Tiago ironiza os religiosos. Ele explica que não adianta pousar de seguidor de Cristo. Se as suas atitudes não são coerentes com as palavras do Senhor, isso não passa de um discurso vazio e incapaz de produzir vida.

Como é nossa Esperança? Para dentro de nós mesmos ou para fora, em direção às pessoas? A esperança que fica aprisionada dentro da gente acaba definhando e morrendo, mas a esperança que volta para os outros floresce e é capaz de gerar a vida.

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