15 dezembro 2010

Pedras no meio do caminho


Ele era alto, magro e estava vestido de roupas velhas e desbotadas. Não posso falar do cheiro, mas a aparência era de quem não tomava banho há alguns dias. À noite, quando o vi, era uma figura em tons de cinza que destoava do colorido da noite na beira-mar de Fortaleza.

Ele estava em pé, voltado para o escuro do mar, e com as duas mãos levantadas aos céus disparou uma oração impetrando bênçãos sobre autoridades constituídas e celebridades. Em sua oração as citava pelo nome e pelos pecados, não para condená-las mas intercedendo diante de Deus por cada um: Deus, abençoa o governador, abençoa o doutor fulando, abençoa a dona beltrana... Ouvi essa parte da oração enquanto passava por ele, mas os rumores da sua fala ainda me acompanharam por trinta ou quarenta metros adiante.

Quase ninguém olhava para ele e sua oração não parecia ser ouvida pelos que caminhavam ao meu lado. Alguns poderiam julgá-lo louco e certamente para outros ele era apenas uma atração a mais no calçadão. Eu, na minha teimosia, vi uma pedra clamando, um sacerdote não consagrado fazendo aquilo para o que muitos clérigos se dizem chamados.

Abre-nos os olhos da alma, Senhor, para que possamos discernir o mundo em nossa volta e o mundo dentro de nós. Que o mover do Espírito não nos escandalize nem intimide, mas nos encante pelas maneiras surpreendentes com que Te revelas.
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