19 maio 2006

Tentativa de Roubo

Por Aristarco Coelho

Essa semana, aos 38 anos de idade, entrei para as estatísticas do crime. Até então, não havia experimentado a dor de ser assaltado, roubado ou sofrido qualquer tipo de agressão, dessas tão comuns aos grandes centros urbanos. Eu e Marina fomos vítimas de um seqüestro relâmpago.

Às 19:30, saindo de carro para a igreja, fomos abordados por dois rapazes que de arma em punho, anunciaram o seqüestro e forçaram a entrada em nosso carro. Não havia quase nada o que fazer. Alvejados pelo bandido, mãos ao alto, abrimos as portas e eles entraram.

A partir daí, durante cinqüenta longos minutos, vivemos a terrível situação em que nossas vidas estavam nas mãos trêmulas de dois bandidos tensos, armados e em busca de tudo que pudesse ser transformado rapidamente em dinheiro. É difícil descrever o que se passou ali. Mas, pressão, ameaças, intimidação, um enorme senso de impotência e a sensação de que aquilo não estava acontecendo conosco fazia parte do cenário.

Tive que dirigir o carro por becos e ruelas do Serviluz, Farol, Praia do Futuro e adjacências enquanto eles roubavam alianças, celular, som, dinheiro e o que mais queriam. Coronhadas e tiros foram prometidos a cada pergunta feita: Onde está o resto do dinheiro? Cadê o cordão de ouro? Qual é a marca do som? Não tem mais dinheiro! Não temos cordões de ouro! Não sei a marca do som! Tudo era motivo de indignação e ameaça.

Depois de roubar o que queriam, informaram que iriam assaltar outras pessoas e nós seríamos os motoristas dos assaltos. Escolheram o bairro, escolheram as ruas, escolheram as vítimas: Bairros residências, ruas escuras, carros novos. Por três ou quatro vezes fui obrigado a seguir famílias inocentes até a entrada de suas casas. Graças ao bom Deus os bandidos não obtiveram sucesso em nenhuma das tentativas.

Por fim, me disseram para entrar em uma ruela escura e fomos até não haver mais saída. Disseram que iriam sair do carro e acenar como se nos conhecessem e que poderíamos ir embora. Assim aconteceu sob a permissão de Deus, que nos guardou de males maiores. Não fomos tocados, não fomos feridos, não perdemos documentos, mas tentaram nos roubar.

Tentaram roubar nossa paz. A tranqüilidade da alma, a quietude do existir. Mas não conseguiram! Quando a nossa paz acabou foi que compreendemos aquilo que disse o apóstolo Paulo sobre a paz que excede todo entendimento. Não há recursos suficientes em nós mesmos, por isso recorremos à de Deus.

Tentara roubar a crença na transformação da humanidade. Mas não conseguiram! A violência e as agressões são brados que confirmam a necessidade de resgate da vida humana. Isso não depende da maldade do coração do homem, mas do poder do Espírito de Deus. Agora ainda mais queremos participar dessa empreitada.

Tentaram roubar o ânimo pelo trabalho de Deus. Mas não conseguiram! Não vamos nos deixar paralisar pelo medo ou pela apreensão. O Senhor é nossa fortaleza e o nosso refúgio, quem nos poderá abalar. Sair novamente pelo mesmo portão, à mesma hora trás lembranças ainda doloridas, mas o Senhor há de manter acesso o ânimo e a disposição.

Tentaram roubar o valor da vida. Mas não conseguiram! A injustiça faz o sangue subir à cabeça. Desejo de justiça ou desejo de vingança? A vida é um presente gracioso de Deus e ninguém tem o direito de tira-la. Não é afrouxar com os bandidos. Quem quebra as regras da sociedade precisa e deve ser punido. Mas a vida deve ser preservada, porque onde há vida há esperança.

Sei que caberia uma longa discussão sobre o abandono em que os cidadãos de bens se encontram em Fortaleza. Sei também que a impunidade irresponsável e a embaraçada justiça em nada ajudam para que o sentimento mínimo de segurança tome conta dessa imensa cidade. Desvio de recursos, corrupção a quilo, incompetência administrativa e falta de vontade política parecem ser marcas que não querem abandonar nossa maneira de viver.

Mas, antes de apontar as falhas de um Estado que ainda não aprendeu a cumprir o básico de suas funções, quero conclamar os cristãos e todos os cidadãos de bem da grande Fortaleza a viverem vidas piedosas, responsáveis e éticas; a pensarem em formas de reduzir a imensa desigualdade social que nos avassala; a encontrarem maneiras criativas de participação pessoal nos rumos da cidade a curto, médio e longo prazo; O Senhor nos deu a Terra para cuidar e zelar. Essa cidade é a terra que nos coube. Não podemos ficar de braços cruzados.

Ó Senhor Jesus, levanta na cidade de Fortaleza, homens e mulheres com disposição para se tornarem parte da solução: a partir de suas vidas, até que as estruturas de poder e decisão sejam contaminadas com a sabedoria, a justiça e a graça do Pai.
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