23 fevereiro 2015

Duas alianças, dois modos de viver.


PIB de Várzea Alegre/PB -  Santa Rita/PB - 22/02/15

INTRODUÇÃO

Os primeiros cristãos eram judeus que viviam conforme as orientações da lei de Moisés. Esse fato histórico às vezes escapa à nossa percepção, mas é importante para compreender um dos problemas enfrentados pela igreja desde os seus primeiros dias: a tensão entre duas alianças: a aliança mosaica e nova aliança em Cristo Jesus.

No começo da igreja, quando Paulo e os outros evangelistas saíram pelo mundo falando sobre Jesus, eles o anunciavam como o mediador de uma nova e ampla aliança entre Deus e a humanidade. Quando essa pregação era ouvida pelos judeus espalhados mundo a fora, se formava uma tensão entre o modo vida decorrente da aliança mosaica, que eles já conheciam, e o novo modo de viver que resultaria da nova aliança em Jesus Cristo.

Hoje quero compartilhar com vocês um pouco do que as Escrituras revelam sobre esses diferentes modos de viver a fé e as implicações práticas de escolher uma aliança ou a outra. Nosso texto base será Gálatas 4:21-31.
Agar e Sara
21 Digam-me vocês, os que querem estar debaixo da lei: Acaso vocês não ouvem a lei? 22 Pois está escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava e outro da livre. 23 O filho da escrava nasceu de modo natural, mas o filho da livre nasceu mediante promessa. 24 Isso é usado aqui como uma ilustração; estas mulheres representam duas alianças. Uma aliança procede do monte Sinai e gera filhos para a escravidão: esta é Hagar.

25 Hagar representa o monte Sinai, na Arábia, e corresponde à atual cidade de Jerusalém, que está escravizada com os seus filhos. 26 Mas a Jerusalém do alto é livre, e essa é a nossa mãe. 27 Pois está escrito: "Regozije-se, ó estéril, você que nunca teve um filho; grite de alegria, você que nunca esteve em trabalho de parto; porque mais são os filhos da mulher abandonada do que os daquela que tem marido". 28 Vocês, irmãos, são filhos da promessa, como Isaque.

29 Naquele tempo, o filho nascido de modo natural perseguia o filho nascido segundo o Espírito. O mesmo acontece agora. 30 Mas o que diz a Escritura? "Mande embora a escrava e o seu filho, porque o filho da escrava jamais será herdeiro com o filho da livre". 31 Portanto, irmãos, não somos filhos da escrava, mas da livre.

Os irmãos da Galácia (uma região da Ásia) moravam bem longe de Jerusalém. Mas as igrejas daquele lugar eram fruto do trabalho missionário de Paulo de Tarso e seus companheiros. Os gálatas haviam sido ensinados a respeito do evangelho da Graça de Deus e aceitaram de bom grado a salvação gratuita mediante a fé em Jesus.

Ocorre que Paulo, nas cidades por onde passava, começava seu trabalho missionário exatamente pelas sinagogas, já que ele tinha suas origens no judaísmo. Então, vários dos irmãos das igrejas na Galácia, apesar de não morarem em Jerusalém, eram judeus convertidos ao Cristianismo (que hoje são chamados de judeus messiânicos). Eles eram pessoas que por muitos anos havia seguido a lei mosaica e cumprido os costumes do judaísmo, porque primeiramente haviam enxergado a fé em Deus pelas lentes da aliança feita no Sinai.

Não demorou muito até que alguns desses irmãos estivessem confusos. De um lado eles ouviam o apóstolo Paulo explicando o evangelho da salvação pela Graça de Deus, mediante a confiança nos méritos de Cristo; por outro lado eles eram assediados pelos judaizantes, que não estavam dispostos a abrir mão da forma antiga de ver a vida, que eles havia aprendido de seus pais: os rituais, as leis, as cerimônias, as liturgias, os sacrifícios, etc...

Foi no meio dessa tensão e desse clima de dúvida que a carta aos Gálatas foi escrita com o propósito de ajudar aqueles irmãos a experimentar a plenitude do evangelho de Cristo.
  
UMA ILUSTRAÇÃO

Uma das ilustrações que o apóstolo Paulo utilizou para ajudar aqueles irmãos do passado foi essa que lemos ainda há pouco. Ele recuperou uma das histórias fundadoras do povo hebreu: os dois filhos gerados por Abraão: um de Sara e outro de Agar.

O filho de Sara era o cumprimento da promessa que Deus havia feito a Abraão, já o filho de Agar era resultado do esforço para dar “uma ajudinha” a Deus; o filho de Sara era a demonstração do poder e da graça de Deus sobre aquela que era estéril, já o filho de Agar era fruto da força do próprio homem; a descendência de Sara (que era livre) estava destinada à liberdade, já a descendência de Agar (que era escrava) estava fadada à escravidão.

Com essa ilustração o apóstolo Paulo procurava ensinar aos nossos irmãos da Galácia que a descendência de Sara e a descendência de Agar simbolizam duas maneiras de se relacionar com Deus e, por consequência, duas formas de viver a fé.

ANTIGA ALIANÇA

Por uma lado há aqueles que continuam agarrados ao cumprimento de leis, cerimônias, rituais, liturgias, vestimentas, tipos de alimentos, correntes de oração, novenas, jejuns, conferências, procissões, cursilhos, dízimos e assembleias solenes, achando que o esforço em cumprir essas coisas pode torná-los ACEITÁVEIS diante de Deus. Esses ainda estão na antiga aliança e não sabem o que é uma vida plena sob a Graça de Deus.

Não vamos esquecer que Agar fez de tudo para agradar o seu senhor. Mesmo assim, porque ela mesma era uma escrava, sua descendência nasceu escravizada e submetida aos seus senhores. Da mesma maneira, aqueles que vivem suas vidas fazendo coisas para se tornarem dignos do amor de Deus podem achar que estão dando o melhor de si, mas continuam sendo escravos. O senhor deles é a falsa ideia de que se viverem uma vida certinha, conforme a religião, podem facilitar as coisas para Deus amá-los. Mas a verdade, meus irmãos, é que quem vive a religião como um esforço pessoal para ser aceito por Deus, torna-se escravo dessa religiosidade.

Cada vez mais vemos gente assim em nossas igrejas: gente muito religiosa, mas pouco piedosa; gente que conhece os detalhes da liturgia e do culto, mas que não se importa com as pessoas; gente que bate no peito como fariseu da história, convicto de que é melhor que os outros, mas quase nada sabe sobre o amor gracioso de Deus demonstrado em Cristo Jesus na cruz do calvário; gente que está pronta para batalhar contra inimigos, mas tem pouca prática em amar do mesmo jeito que foi amado por Deus.

NOVA ALIANÇA

Se de um lado havia na mente daqueles irmãos esse modo antigo de se relacionar com Deus, com base no esforço próprio, por outro lado o apóstolo Paulo estava pregando e ensinando que esse modo antigo pode até nos aproximar um pouco de Deus, mas não é completamente eficaz; porque ninguém é capaz de ser tornar aceitável diante de Deus com base nas coisas que faz para agradá-lo. E a razão é simples: Deus pede perfeição e isso está fora de alcance para o homem caído.

Por isso uma nova aliança foi firmada. Essa nova aliança é comparada com a descendência de Sara. É uma aliança baseada na promessa graciosa de Deus. Lembre-se de que não foi por causa da espiritualidade de Sara ou de Abraão que um filho foi gerado no ventre dela, mas simplesmente por vontade e graça de Deus, porque 
Ele havia prometido que faria.

Na nova aliança não há a necessidade de se esforçar para ser aceito por Deus, porque sabemos que Ele nos amou antes de tudo, quando nós estávamos mortos em nossos delitos e pecados. Claro que viver uma vida santa exige esforço, mas essa dedicação é tão somente uma resposta de amor e gratidão àquele que nos amou primeiro. 

A DÚVIDA DOS GÁLATAS

Pela carta escrita por Paulo, dá pra perceber que os irmãos da Galácia estavam em dúvida. E era uma dúvida razoável. Eles estavam considerando o seguinte:

“Será que vale a pena confiar nessa salvação pela graça de que Paulo fala? Serão que não é melhor a gente se garantir cumprindo os ritos religiosos? A Graça parece ser ótima, mas deixa a gente um pouco inseguro, sem nada nas mãos para apresentar a Deus; já quando a gente se esforça para cumprir as regras da religião dá pra mostrar que fez alguma coisa e isso faz a gente se sentir mais seguro.”

Essa é a mesma dúvida que consome muitos crentes dentro das igrejas. Um dia eles aceitaram a mensagem salvadora da graça de Deus, mas depois começam viver suas vidas por conta própria e se acabam abraçados ao mero esforço religioso. São como náufragos em uma tempestade no alto mar: ficaram muito felizes quando um bote salva-vidas foi lançado para eles, mas depois, em vez de entrarem no bote, ficam nadando em volta dele tentando demonstrar que são excelentes nadadores.

Assim como os gálatas, esses irmãos em nossas igrejas estão confusos. Eles dizem que foram salvos pela graça mediante a fé, mas vivem como se precisassem provar para Deus que são dignos de serem salvos. Vivem vergados sob o peso do esforço para parecerem bons o suficiente.

Na prática, o que aqueles irmãos da Galácia fizeram diante da dúvida que tinham? Alguns deles retrocederam ao modo de pensar antigo. Influenciados pelos judaizantes, alguns se deixaram circuncidar como os judeus, para garantir uma aliança com Deus; outros começaram a considerar certos alimentos impuros nas suas refeições e outros ainda começaram a guardar a datas e as festas judaicas. Eles fizeram isso porque em suas mentes, ser salvo apenas por meio da fé parecia algo fraco que precisava ser complementado.

Da mesma maneira, irmãos, muitos hoje têm buscado algo que possa ser acrescentado à fé em Jesus, porque se sentem inseguros com essa salvação mediante a graça de Deus. E o que eles fazem?

Santisse
  
Hoje alguns acham que se viverem uma vida santa poderão usar isso como uma espécie de moeda de troca perante Deus. Eles se esforçam para parecerem perfeitos, mesmo sabendo que não são, e acabam sustentando uma farsa. Aí, quando menos se espera, a casa cai e o falso poço de santidade se mostra como realmente é: sequidão de estio.

É preciso entender que somos chamados à santidade, sim! Mas não somos aceitos por Deus em virtude de uma vida perfeita. Somos aceitos por ele por causa do amor que Ele tem por nós, mediante nossa confiança nos méritos perfeitos de Cristo Jesus. A santificação é a obra de aperfeiçoamento que o Espírito de Deus realiza naqueles que já foram salvos, não uma condição para ser.

Ativismo Religioso
  
Há outros que se apegam ao ativismo religioso como uma “complementação” à fé. Eles participam de todas as programações da igreja e sob nenhuma hipótese faltam aos eventos a que são convidados. Lá no fundo esses irmãos acham que viver a fé é sinônimo de frequência nas programações, por isso eles se esforçam para fazer o seu melhor nessa questão. Alguns chegam ao ponto de deixar de lado o cuidado com a família e as responsabilidades do lar.
É preciso entender que somos chamados à comunhão e ao serviço, sim! Ninguém está dispensado de congregar. Mas nós não somos aceitos por Deus com base em nossa frequência nos programas da igreja. A base da nossa salvação é o amor de Deus demonstrado pelo fato de haver Cristo morrido por nós mesmo sem que nós nada merecêssemos, senão a morte. Além disso, a fé não se vive entre as quatro paredes desse prédio, mas lá fora.

Tradicionalismo

Há ainda os que se agarram ao tradicionalismo como muleta para sua caminhada de fé. Para eles tudo que é antigo é bom, tudo que é novo é ruim. Eles acham que se permanecerem fiéis aos costumes antigos estão sendo fiéis a Deus, e isso vai contar como uma espécie de bônus adicional diante dele. Dessa forma, esses irmãos fecham os olhos para os erros cometidos pela igreja no passado ao mesmo tempo são incapazes de enxergar a boas coisa que Deus está fazendo agora.

É preciso entender que somos chamados a manter a fé, sim! Mas não somos aceitos por Deus em função de nosso conservadorismo e tradicionalismo. Deus nos aceita por que Ele é amor e porque esse amor, revelado em Jesus, encontrou lugar em nossos corações. Há muitas coisas novas e boas que Deus deseja fazer no meio do seu povo.

UM CHAMADO À DECISÃO

Quando Paulo escreveu aos gálatas sobre essas coisas ele foi bem contundente. A razão é simples: ele sabia que essa forma antiga de pensar é um caminho certo para o engano. Alguém que acha que pode dar uma ajudinha para Deus, tornando-se digno de ser amado por ele está, na verdade, rejeitando a Graça de Deus e anulando o sacrifício de Cristo.

Hoje eu e você somos chamados a uma decisão! Vamos retroceder e voltar à velha maneira de pensar? Vamos virar as costas para a cruz e confiar em nosso esforço próprio? Vamos dispensar o bote salva-vidas da graça e continuar nadando em círculos? Vamos continuar procurando muletas, com medo de dar os passos livres da fé? Vamos tremer diante do desafio de viver de fé em fé?

Veja o que o apóstolo Paulo afirma no começo do capítulo 5 de sua carta:

1 Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão.

Aqueles que foram comprados pelo sangue do cordeiro foram feitos filhos de Deus para a liberdade. Irmãos, nós fomos salvos pela Graça de Deus e devemos também viver por ela. Precisamos resistir à tentação de retroceder à lógica do esforço próprio e confiar no amor gracioso de Deus por nós.

Aqui é importante um alerta: confiar no amor de Deus e viver sob a graça não é licença para pecar, para afastar-se da congregação ou para menosprezar os irmãos. Paulo alerta que a liberdade não deve dar ocasião à vontade da carne.

Jesus afirmou “conhecereis a verdade, e ela vos libertará”. Nós, os que fomos libertos desse antigo modo de pensar e viver, somos chamados pelas Escrituras para avançar, e não retroceder. Somos chamados à maturidade da fé, por meio da graça. Somos chamados à confiança plena no amor de Deus demonstrado através da vida, morte e ressurreição de seu filho Jesus Cristo, mediante a ação poderosa do Espírito de Deus nele e em nós.

Chamado aos de fora

Se você não faz parte de alguma igreja cristã e nos honra com sua visita esta noite, quero encorajá-lo a continuar refletindo sobre a forma como você se relaciona com Deus. Procure algum irmão desta igreja e diga que você gostaria de saber mais sobre a salvação mediante a fé por meio da graça de Deus. Nós ficaremos muito felizes em com seu interesse.

Chamado aos de dentro


Se você é membro desta igreja, quero desafiá-lo a rever a forma como você têm se relacionado com Deus. Se hoje você ficou desconfiado de que está retrocedendo no seu modo de pensar e começando a procurar formas de complementar a obra da cruz, é bem possível que isso realmente esteja acontecendo. Então, peço que você ore ao Senhor confessando seu pecado e diga com convicção: Senhor, me ajuda a confiar no teu amor e a não retroceder na minha caminhada de fé.
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